De repente, minha realidade aflora em mim completamente irreal. Desengavetar as bikuatas escondidas há quarenta anos, que incluem papelinhos com frases das meninas: “Eu te amo, papai, eu te amo mamãe”, escrita infantil, desenhinhos, coraçõezinhos. Cartas dos nossos pais e outros familiares que há muito deixaram este plano! Tudo isso custa um bocado a picotar na máquina, porque também para nós a idade chegou, sem dó nem piedade. Fiquei piegas, não mais contenho as lágrimas, que na verdade nunca consegui conter, mas lograva esconder. Lembro de dizer num poema sobre “lágrimas que vergonhosamente me envergonho de mostrar”!
Fico por aqui, com os olhos vermelhos, não sei se de chorar ou de rir, porque outras cousas e lousas encontradas nos deram pra gargalhar, para variar e compensar…
Falar em qualquer mudança, seja de casa, de estado, de país, de status, empurra-nos invariavelmente para dolorosíssimas e traumáticas passagens de vida que procuramos manter seladas. No entanto eis-nos, uma vez mais, a enfrentar uma mudança de endereço após mais de 40 anos de permanência na mesma morada. Não obstante serem circunstâncias muito diferentes, pode ser e é mesmo uma experiência que muito mexe connosco. Especialmente se, como é o caso, estamos numa faixa etária que naturalmente nos arrasta para o desejo de permanecer na nossa habitual zona de conforto. O caos se alastra pela casa habitualmente limpa e organizada, agora tomada por caixas contendo os discos, os livros, os filmes, as utilidades misturadas com as inutilidades, roupas que se separam para doar na igreja, que se separam para usar e, pior, as outras que se separam apenas para preservar um recuerdo, porque não cabem numa perna, muito menos na cintura. “Ah! Como eramos magros e elegantes!”; “Ah! O que o tempo fez com gente!”…
Entre os escombros, encontrei um par de isqueiros “Zippo” que me foram oferecidos ao tempo de um remoto tempo em que, noutras latitudes, tomei parte em trabalhos de conversão de estruturas navais petroleiras, para uma grande firma francesa. Nessa época, em terras africanas, jovem com o sangue na guelra, eu fumava que nem uma besta, incluindo os pavorosamente fortes “Gauloises”, preferência dos homens do mar! Os tempos mudaram, mas o zippos ficaram e ficarão, sem uso, artigos de museu pessoal pelo tempo em que eu viver, porque sei que um dia, qualquer dia, alguém os descartará por mim…
Dizem os escritores que, para que seja mais fácil fazer fluir as ideias para o papel, é de suma importância escrever todos os dias, capacidade que eu em mim há tempo surpreendi perdida. Pensando um pouco mais, para escrever diariamente, precisamos abastecer-nos de ideias que sejam por nós separadas do “bulk” de ideias que não param de ocorrer em torrente através das várias vias da máquina de pensar. A qual, sabemos, inclui muitas vias fossas por onde escorrem aquelas ideias de merda, que nunca são poucas em quem é vezeiro em deixar o intestino pensar junto. Especialmente após cada viajada randômica, embrutecedora e inútil pelos estéreis caminhos dos efebês, tiquetóques, iutubes e outros que tais. O segredo é, sabemos muito bem, Ler. Ler muito, com muita atenção e agilidade de interpretação do que lemos. Mas, se esta minha afirmação é um aconselhamento, eu não o venho tomando a sério, talvez por me vir deixando arrastar facilmente pelos tais caminhos estéreis, marginados por marginalidades atrativas e corrosivas…
Esta noite emparedo meus ouvidos com a mágica do mestre Alcino Frazão, cujo virtuosismo na guitarra portuguesa jamais canso de admirar! Com isso, nem dou pelo que se passa na desgraça que grassa pelos noticiários das TV´s tão atentamente assistidos pela minha tão adorada menina que há 60 anos atura meus desvarios. Cada um come do que gosta e eu, com o perdão dela e de quem me dá ouvidos, detesto. As tretas políticas me incomodam tanto quanto a música me enleva. Foda-se, pois, a política e deixem-me ser arrastado por melodiosas corredeiras e cachoeiras, até desaguar em suaves estuários do que mais maravilhoso a música para mim representa…
Elegi Mahler 1, sinfonia denominada “Titan”, para o meu serão de hoje. Contudo, só no terceiro movimento, na marcha fúnebre que inclui frases do “frère Jacques” em tom menor, por momentos minha pensatrix encaixou o desastroso mergulho do “Titan”. Não nego que o evento influenciou a escolha…
Entre os idos de 1998/99, tomei, em Galveston, Texas, parte ativa na conversão de uma unidade semi-submersível, originalmente construída para apoio de “mergulho profundo”, em uma plataforma de perfuração e completação. A unidade, cujo nome original era “Stadive”, por suas características de posicionamento dinâmico, foi posta à venda porque a era do perigoso mergulho saturado com humanos a profundidades de até 300 metros, entrava em franco declínio com o desenvolvimento dos ROV (Remote Operated Vehicles) e sua perfeita aplicação e vulgarização nas lides dos campos petrolíferos offshore em profundidades crescentes, que em curtos anos chegaria aos 3000 metros.
Por esse tempo, adquiri essa fita VHS na foto, que assisti vezes sem conta a bordo, impressionadíssimo com a verdadeira epopeia que o dr. Robert Ballard e sua equipe viveram para descobrir, estudar, explorar e produzir fotografia e vídeo do enorme campo de destroços do Titanic, tal como repousa a cerca de 4000 metros! Isso incluiu inúmeros mergulhos em submersíveis autónomos, tripulados, que continuaram sendo usados e desenvolvidos para assegurar todos os aspetos de segurança naquele ambiente de extremos. Considerando a qualidade da engenharia aplicada nesses veículos, posteriormente incrementada pela turma de James Cameron para a produção do filme, o “Titan” era mesmo irresponsavelmente frágil. Mesmo assim, à pergunta da Nina, eu resolutamente respondi: Adoraria descer aos destroços, sim! Mesmo com o absurdo risco que tal aventura envolve. Mas, é claro, numa máquina todinha de aço e titânio, como nos velhos tempos de Ballard e Cameron…
Este não é, para nós, um mês de Junho como os outros meses de Junho: Eu e a minha companheirinha completamos seis (6) décadas de relacionamento ininterrupto e de intensa dedicação! Quando tudo começou, ela não havia ainda completado 17 doces aninhos e eu estava nos meus 19. Indescritível, louca, irresponsável felicidade a nossa! E como eram, nesse tempo, dolorosos os caminhos para essa tal de felicidade! Sessenta anos depois, eis-nos ainda vivos e juntos! Suprema felicidade…
Não há temporal que não dê lugar à bonança. O acesso de extremo pessimismo que me acometeu na madrugada de ontem, deu lugar, na manhã de hoje e após boa noite de sono, a um notável implemento de humor e confiança, que quase resultou na decisão de eliminar a postagem baixo-astral anterior. Acabei não o fazendo, dando ouvidos ao meu outro eu, cuja opinião é manter o fel, para realçar a doçura. Seja, então! O meu dia nem foi isento de dramáticos “surges” de stress com reações mal contidas. É vero que esta nossa vida é cheia de míseras contrariedades que precisamos contornar e descartar, se possível, filosoficamente e às gargalhadas…
Domingando sem sono na escura madrugada, abro meu Lap Top e exploro os meandros cavernosos das assim chamadas redes sociais, reforçando a certeza de que tão pavorosamente antissociais e carregadas de ódio se tornaram, que delas saio assustado! Procuro inspiração através das vidraças fixando-me nas luzes da cidade ainda adormecida, mas só recebo, com aterrorizante insistência, imaginárias ameaças de imaginários e belicosos mundos semelhantes ao nosso, contra os quais não haverá forças de defesa. Sinto-me, frágil, encolher até ao ínfimo pontinho biológico que de fato sou, perdido na imensidão do universo. Luto com desespero para refazer-me e ver retornada, pelo menos em parte, alguma confiança em mim próprio, até que as pessoas da família começam a afluir, tirando-me da momentânea sensação de ser um ninguém…
The Ocean Race 2022-23 – May 24, 2023 Leg 5 Day 3 onboard 11th Hour Racing Team. Malama enjoying flatter, calmer seas in the North Atlantic.
Gosto de acompanhar os veleiros do Ocean Race cruzando oceanos, voando a velocidades de quase 40 nós, batendo records inimagináveis de 630 milhas náuticas percorridas em 24 horas, mais de 26 nós de média! Admirável tecnologia desenvolvida nesses cascos hi-tech, admirável performance e resiliência dessa invejável gente do mar, mulheres e homens das pequenas tripulações capazes de resistir por tantos dias a tais condições de esforço físico e psicológico, alimentação de astronauta, curtos períodos de sono chacoalhando e rolando em alterosas vagas…