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Pérsia

Eu completava 47 anos de idade, quando testemunhava, através dos noticiários, o desenrolar da revolução que deporia a realeza iraniana. Muhammad Reza Pahlavi, sua linda esposa Fara Diva e família, abandonaram às carreiras sua terra, para não serem trucidados pela loucura homicida dos fanáticos seguidores do Aiatolá Komeini, estabelecendo uma república islâmica sanguinária que perdura até aos dias de hoje. Lembro que o Shah era acusado de muitas mortes entre os opositores, o que certamente não tenho como duvidar. No entanto, lembro de milhares de enforcados nos meses e anos que se seguiram à revolução, seja porque fossem homossexuais, ou porque fossem prostitutas, ou porque resistissem às mudanças impostas pelo tirânico poder absoluto, de um maldito regime totalitário e violentíssimo. Enquanto o sangue corria em torrentes pela velha Pérsia, não lembro de grandes manifestações da mídia lamentando que seu apoio ao Aiatolá que voltava do exílio, tenha desaguado naquele horrífico banho de sangue que se seguiu e que tem novo capítulo neste momento…

Lucas

O Lucas é o meu único neto. Único varão de uma porção de mulheres. Mais precisamente, cinco meninas, rebentos das minhas duas filhas. Por isso, neste dia em que ele completa dezanove anos, eu não resisto a lembrar o evento no meu blog, com uma foto que dele fiz há uns catorze anos. É o passado-presente no nosso espaço-tempo registado nesse instantâneo. O futuro está presente também, a ele pertence e será o que será. Happy birthday, Lucas!

A Sesta

O despertador eletrônico do quarto marcava catorze horas e uns quebrados, quando despertei de uma sesta bem dormida, mas mal despertada, porque queria dormir mais; e isso me incomodou, pensando no tão repetido “O sono é a antecâmara da morte”, atribuído a Hamlet de Shakespeare, mas que, nos meus passados de rapazola creditava-o a Alexandre Herculano, para contar uma piada com um insulto, atribuído a Albino Forjaz de Sampaio. Pelo menos eu me surpreendi sorrindo, enquanto levantava da cama e, meio trôpego, abordava a privada para descarregar o xixi. Eu adorava ler e escutar coisas do Forjaz de Sampaio, com os meus doze ou treze anos. Os tempos são outros, as realidades são as de oitentão com dificuldade em caminhar, mesmo forçando-me por necessidade física. Mas não custa dar uma espreitada no passado criança que gostava de hóquei em campo e quebrava a cabeça de quem me quebrava a cabeça, num olho-por-olho que sempre acabava bem, depois de alguns pontos…

1984

A capivara posou para mim sem reclamar. Uma pose bonita, aliás, enquanto lagarteava ao Sol da tarde no Parque Bariguí. Menos à vontade nos sentimos nós, humanos, com a presença no mesmo parque magnífico, de um elevado número de “fotógrafos” ou que diacho eles são, aboletados com cadeiras, guarda-sol, computadores portáteis e, especialmente, câmeras fotográficas de alta resolução equipadas com lentes poderosas, caçando descaradamente os rostos das pessoas passantes. Ao que parece, o interesse deles é os que se exercitam correndo em volta, mas pude constatar que disparam também sobre quem foi simplesmente observar as capivaras. Isso me parece atropelo ao meu direito à privacidade. Se não é, pelo menos não deixa ninguém tranquilo, nestes tempos de tecnologia IA e ferramentas de roubo de dados pessoais, onde o rosto é elemento primário de identificação digital. Há alguns dias, eu assistia a mais um Podcast da Sabine Hossenfelder, nada tranquilizador em relação à rápida e crescente perda de privacidade em aeroportos, transportes, lojas, centros comerciais e nas ruas das grandes cidades. Sem falar no WiFi, internet, celulares com localização, etc. A novela do George Orwell é nada…

Voltar no tempo

…e se fosse possível rebobinar o filme da minha vida qual máquina do tempo? Voltaria eu a ser criança, pequena vítima, em tempos bicudos de famílias desmembradas a caminho da sobrevivência além-mar, além-terra, comendo o pão que o diabo amassou? Não, não rebobinaria o tape até esse estágio! Então…desembarcaria nos doces anos de teenager, rock around the clock, dançar agarradinho segredando promessas lindas, indecentes, impossíveis. Ah, quão felizes foram esses tempos, que certamente eu congelaria para a eternidade, antes que o filme me levasse para a caserna, para a guerra. Concluo que eu, sobrevivente, rebobinaria para recomeçar já um respeitável homem casado com a mais linda mulher do planeta, que me deu duas filhas belíssimas, mas, oh tristeza! Precisaria interromper de novo, para não viver a tragédia de virar refugiado, mendigando abrigo e trabalho noutras coordenadas. Paro onde estou; como as fitas eram de nitrocelulose, eu taquei fogo nelas e opto por viver a realidade do meu momento, reconhecendo-me um fulano cheio de sorte, por haver sobrevivido a tantas e tantas provações…

Tiranias

É claro que uma ação militar de invasão a uma nação independente, é e sempre será coisa séria, sujeita a efeitos colaterais previsíveis e imprevisíveis. Ação semelhante ocorreu antes no Panamá, para neutralizar e prender Manuel Noriega, homem forte do regime e ativo traficante de drogas. Entendo que o nosso planetinha seria um lugar muito mais civilizado, se não existissem políticos, muito especialmente aqueles que usam sua força armada para infernizar a vida de seus cidadãos através de tiranias nas quais tudo o que não é proibido torna-se obrigatório, a repressão é permanente e é até perigoso pensar, que dizer manifestar-se…  

Tentarei dar menos importância à derrubada do capo di tutti capi que ajudou a outrora riquíssima Venezuela a chegar à estúpida miséria em que se transformou, que à morte de Idi Amin Dadá há muitas décadas atrás. Prefiro falar da descida à pavorosamente quente Morretes, Paraná e do churrasco em família (da parte do meu genro), produzida por ele próprio, sem qualquer ajuda da minha parte, que sou de fato um zero à esquerda, nessas técnicas de acender churrasqueiras e assar diligentemente carnes vermelhas e brancas, além de pão de alho, linguiça e outros kitutes. A baixa sofrida pela minha parte, é a minha velha Canon 50D, que me deixou completamente na mão…

Varig

Neste segundo dia de 2026, Nina surpreendeu-me com a recuperação de uma “necessaire” ofertada durante um dos nossos voos pela icônica Varig, a mais representativa das linhas aéreas brasileiras. Não lembro de quando foi exatamente que aconteceu esse voo, mas certamente foi a bordo de um DC10-30. É sem dúvida um bom recuerdo a preservar, já que da Varig, só resta a recordação dos que em seus aviões viajaram o mundo…

Novo

Amanheci o novo ano, como se ainda amanhecesse o velho; Nenhuma diferença em relação ao dia de ontem, o que me parece completamente normal. A tacinha de tinto do Douro no jantar e o dedal de legítimo Champagne no momento da virada, não parecem ter produzido em mim nada de assinalável. Não conjeturo, nem formulo planos especiais para os próximos 12 meses. Viver, será afinal, o meu principal objetivo…

Contrariando-me na decisão de não voltar ao blog este ano, eis que retorno neste penúltimo dia, depois que a minha irmã, entristecida, me deu conta que Chuck, o Labrador tão querido da família, amigo de tantos anos, deu o último uivo e deixou todo o mundo lá em casa inconsolável. Há muitos anos que não tenho um pet, depois que a minha gata Belina, após 19 anos de convívio, simplesmente foi-se assim, sem mais nem menos, levada por um tumor, deixando-me em estupor…