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Do Pau

Desocupado, gastei algum tempo extra correndo prateleiras e prateleiras de vinhos e correlatos alcoólicos da terrinha e não só. Eis que surge uma bebida realmente atraente e bem lusa, que já conhecia de um grande outdoor que vi e até fotografei há já alguns anos em Vila Real de Trás-os-Montes. Só que agora era o produto ele próprio, ali, ao alcance da minha mão, à minha disposição! Pensei então: “Comprar, ou não comprar uma garrafinha do dito cujo?”; “será que faz mais efeito que Tadalafil?”. Mas, na continuidade da dúvida, lembrei-me do diabo do diabetes. “Melhor não”, concluí…

Nobel II

Monica Vitti foi para mim e porque não, para nós, casal que admirava sua atuação nos filmes de Antonioni, uma boa (sexy) atriz do cinema italiano. Fui, ou fomos a tal ponto fans, que nossa primeira filha, recebeu seu nome: Mónica (assim mesmo com acento agudo), escandalizando as famílias da nossa cidadezinha do Lobito, Angola, onde a ninguém havia ocorrido a ideia de dar tal nome a uma recém-nascida. O que é certo, é que após a nossa filha, o nome por lá disparou de popularidade! O mote originou-se na ganhadora do Nobel de Literatura, Anne Carson, particularmente em “Ode to the Sublime by Monica Vitti”, do qual não logrei extrair nada de nada. Certamente não possuo a inteligência da ínclita senhora e deverei beber da sua fonte, para chegar a entender e até para me atrever a resenhar, se me aprouver, alguma de suas obras poéticas. Enquanto me aprofundo no seu trabalho, permanecerei, pois, calado, como convém…

Delícias

Pés de galinha! Não me refiro às rugas dos olhos quando rio; estou falando dos pés de galinha cozinhados com temperos gostosíssimos, com que me deliciei ao almoço! E há quanto tempo não provava a iguaria que tanto gostava em criança? Poderá haver quem tenha esgares de horror à ideia de comer as patas das penosas, mas eu garanto que, temperadas por quem sabe, são excelentes, além dos benefícios do colágeno para as minhas peles flácidas de octogenário. A tudo isso, adiciono as tantas recordações dos meus verdes anos, que foram surgindo enquanto chupava os ossinhos. Tem pouco para comer, mas muito para rememorar…  

Bom-mocismo

A propósito do despropósito das polémicas sobre CR, sugeri que deveria ele ter sido politicamente mais inteligente e segurar as raivas sentadinho no banco, porque, a meu ver, ele só teria a ganhar, a saber: teria “ganho a partida” junto com a equipe; com calma, prepararia, treinando com toda aquela raiva e o que ainda lhe resta de engenho de bola e força, uma resposta muito mais gloriosa dentro de campo; seguir-se-ia uma saída final através da grande porta da imortalidade. Parece que me falta moral, porque a minha companheirinha jogou-me na cara o quanto de arrogante e reativo eu tinha de sobra na juventude; “Tu”, disse ela de dedo em riste: “farias exatamente o que ele fez”!…

Nobel

Vi que Sabine Hossenfelder, que admiro, não está empolgada com os Neutrinos do Nobel de Física deste ano, Francis Halzan, não porque ele não mereça o prémio pelo trabalho e dedicação ao materializar a experiência do gigantesco cubo de gelo no polo sul, mas pergunta para que realmente servirá como benefício para a humanidade. Ela deve ter razão, mas se tem ou não, certamente todos os físicos do planeta ocorrerão a apedrejar, ou não. O que eu acho? Oras, eu não faço a mínima ideia…

Alma minha…

Clarice disse, em algum momento, sobre Brasília: “Aqui a Alma não faz sombra no chão”! A afirmação vale hoje para imensos lugares, não só para Brasília, que só conheço por fotografia. Minha Alma, ainda que pequena não seja, não mais projeta sombra no chão e com isso eu não posso segui-la com os meus passos, mesmo tendo o Sol por detrás de mim. Não sei se perdi a Alma, ou se ela simplesmente de mim se esconde, envergonhada, sem graça, que desgraça…

Não sendo eu um fulano de dar atenção aos futebóis e suas tretas, assim como presentemente nada interessado nas nebulosas e perigosas coisas políticas, tendo a deixar-me arrastar pelas artes, desde que, bem entendido, nelas não estejam contidas política retrógrada, wokismo e outros tipos de retardo mental. E, dentre todas as artes, eu privilegio as musicais. . Sucedeu então ser convidado, na noite do dia mundial da música, para um concerto, digamos, diferente.

António Vitorino D´Almeida, reza a Wikipédia, dista de mim em idade apenas quatro anos, mas ele encetou sua longa estrada musical e artística em palco, com apenas sete anos de idade, ao piano, tocando peças de Mozart, Beethoven e composições dele próprio! Daí os seus oitenta anos de carreira, sendo comemorados em apresentações acompanhado pelo excelentíssimo músico que é Manuel Teles, formado pelo conservatório Giuseppe Verdi, muito conhecido na Itália e de mágicas habilidades nos saxofones – do soprano ao barítono! Mas, devo dizer em abono da verdade, nenhum desses dois nomes eram por mim conhecidos, antes de ser convidado por familiares, que se encarregaram de adquirir os caríssimos ingressos ao preço de um euro cada! A performance, que chamo de jazzística e reconheço não ser para todos os ouvidos, foi uma miscelânea de temas, que incluíram peças da autoria de Vitorino para filmes, mas pesadamente marcadas pela improvisação, daí eu classificar o show de jazzístico. Várias foram as vezes que o pianista dedilhou ou martelou as cordas com as mãos, para criar sons inéditos para emoldurar suas interpretações!

Soirée

Schönbrunn Palace Orchestra, desfilando diante de nós e nossos ouvidos as maravilhas vienenses de Johann Strauss filho, Carl Millöcker, Lumbye, até Franz Lehár! Pequeno mas maravilhoso ensamble de cordas e sopros, acústica excelente da sala Luisa Todi, aqui em Setúbal. Do princípio ao fim, um concerto leve, inesquecível, ultraprofissional. Direção soberba e por vezes engraçada de Sándor Károlyi. Os cantores Simona Eisinger (soprano) e Michael C. Havlicek (barítono), estiveram irrepreensíveis. Simona Eisinger, cantando “Frülingsstimmer” disparou meu conhecido problema híper emocional, não só por sua interpretação, mas especialmente, porque evocou a malograda jovem soprano Patrícia Janecková, que tanto eu admirava ouvir nessa mesma peça…

Diferente

Hoje acho-me diferente de ontem:

vinte e quatro horas mais velho.

com todas essas horas, que pesam

em cada pedacinho do meu corpo,

vou-me sentindo frágil, vulnerável,

respeitável na avançada idade que

ostento, sem querer ostentar, no meu

resistir, sem poder resistir…

Males

Quando a conversa converge para doenças, envelheço junto e tendo a aborrecer-me. O pior é que, quando se reúnem várias pessoas da minha faixa etária, é certo e sabido que listas extensas de males e maleitas vão saindo em longos queixumes e lamúrias. Se porventura estou bem-humorado, até posso achar graça, observando a similaridade das sofrenças relatadas, ou até disputadas pelos presentes. Se o humor não é lá dessas coisas, armo um sorriso complacente o menos idiota que puder enquanto procuro sair de fininho. Por outro lado, sei que eu próprio tenho momentos de descair e falar e até de escrever sobre males que me consomem. Mas afinal, males de saúde, quem os não tem?…