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De joelhos…

Voltei ao Marcel Proust e iniciei novo livro, mas não digo qual, envergonhado de tão baixo progresso nas minhas leituras. Repetir que falta vontade, interesse e tesão é uma repetitiva ridicularia pessoal. Basta constatar a minha ausência dos blogs. Quando apareço no feicebúque é para lamentar a morte de algum músico, ou cantor, ou artista da minha predileção. Falar da sanguinária barbárie que grassa pelo mundo ou de quão infinita é a estupidez do terráqueo que se diz “ativista” de tudo e de nada, expondo-se até mesmo a tomar umas porradas dos irados cidadãos impedidos de ir e vir nas suas atividades de trabalho e sobrevivência, não chegaria a definir-me neste momento. Não hesito a classificar minha presente alma como uma bem superficial e desinteressante. Mas não prometo nada de nada, porque a respostas que obtenho do meu corpo decaem a olhos visto: Ontem, mais uma vez, estive presente num estúdio ao ensaio de um grupo musical – rock´n´roll, heavy metal, estridência de guitarras, grave marcação de contrabaixo, batera contundente, vocalista mulher, que penso ser mulher, ou não será, sabe-se lá…

Acedi a fazer várias fotos do grupo no lobby do estúdio. Para melhor realizar o enquadramento, ajoelhei, mas, no que eu tentei desajoelhar, só consegui fazê-lo ajudado pelos jovens; meus músculos e ossos negaram-se sequer a suportar meu corpo, quanto mais levantar-me do chão por mim próprio!

Lacrimoso

Neste momento decorre em Ostrava, república Checa, a cerimônia religiosa de despedida à finada Patricia Burda Janecková. Menina de apenas 25, dotada pela Natureza com voz extraordinária, soprano de talento imenso e promissor. Mas, essa mesma Natura, que tão desapiedadamente dá e tira, a condenou ao sofrimento e morte prematura, privando-nos de sua maravilhosa arte. RIP, Patrícia!

Passadas

Envelhecer tem particularidades que só envelhecendo delas nos apercebemos, enquanto vamos enfrentando as moléstias e sofreres a que a idade vai naturalmente, mais ou menos paulatinamente nos submetendo. E porque para envelhecer é necessário viver o suficiente, redigir estas linhas faz de mim um privilegiado sobrevivente. Então…

…Faço o passo como posso,

do meu jeito faço o passo,

pulando por sobre o fosso,

sem aceitar um fracasso…

Azedume

Desconcentração e desinteresse têm feito parte de mim nos últimos anos, desde que deixei de vender meus dias e os tomei integralmente ao meu serviço. Eu deveria determinar a minha imediata demissão, por incompetência e irresponsabilidade. Incapaz de gerenciar-me, só faço merda em tudo em que meto a mão. Passando a limpo, constato que na prática deixei as leituras, as escritas, (ou tentativas de), a prática de um instrumento, só para mencionar alguns abandonos. Em compensação, eis-me viciado em besteiras, rasteiras e baixarias que procuro no Youtube. Quem procura sempre acha, é vero, e eu, criatura em retrocesso, dei em aceitar tantas das baboseiras que por lá encontro. Há pouco, a Nina lembrou-me, tarde demais, que tinha Mahler 7 em concerto ao vivo da Orquestra e coros da Gulbenkian diretamente de Lisboa! Corri, mas só haviam sobrado para nós os três últimos andamentos. Meu humor nesta tarde azedou ou pouco mais…

…Mas voltei a prometer-me para breve uma virada radical nos meus azedumes.

Cascavéis

Trabalhar a mente com o intuito de achar um mote aceitável para um texto, pode ser um sério desafio. Ideias mil me passaram pela cuca, mas não raramente acabam esbarrando em non-sense, em terreno lodoso, em barbas de molho. Hoje me ocorreu falar um pouco sobre espíritos de porco (ou porca), perigosos narcisistas capazes de colocarem na tua boca afirmações que jamais proferiste, más ações que jamais praticaste, envenenar de forma vil e definitiva teu relacionamento com amigos e familiares. Esse tipo asqueroso de gente sempre existiu e eu, pessoalmente, até hoje sinto com imenso pesar, o incômodo e frustrante afastamento de pessoas que cheguei a orgulhar-me de ter entre os meus amigos. A polarização política não pode ser desassociada de alguns casos que me afligem, mas, desde que me poupem aos descalabros do estúpido pensamento “woke”, não chegam a me incomodar verdadeiramente. Mas são os casos ocorridos dentro das portas familiares, os que mais me perturbam e que tão veementemente lamento…

Borocoxô

Nem mesmo para tomar banho esta noite eu acho disposição. Sinto-me tão sem vontades, que não acompanhei o meu genro ao programado ensaio e gravação no studio onde em outras ocasiões com tanto interesse estive presente. Tusso e espirro com frequência de não deixar dúvida que vem por aí outro resfriado. O sábado foi de chuva constante, bom para nada fazer. Mas é impossível em nada pensar, pressionado pela carga de preocupações que arrumei para nós, numa idade em que tanto ansiamos por paz e dias bem tranquilos. O arrependimento emerge a cada momento, seguido de cada momento de “vai das certo”, ou “já aconteceu, vamos em frente com coragem”, dentre outras frases de auto incentivo. A leitura não me desperta e finalmente eu opto por perder-me na música de Richard Wagner pescada nos meandros do YouTube…

Cansaço

Repousamos em família e em torno da lareira, porque passamos do insuportavelmente quente para temperaturas abaixo de 8 Celsius, passando por um estágio de chuvas torrenciais que nos impediram a partida, quando estávamos já na cabeceira da pista do SDU. A voz metálica anunciou a volta da aeronave para o pátio, porque o controle fechou o aeroporto. Outra voz não menos metálica ordenou a evacuação da aeronave e a retirada da bagagem nas esteiras. Seguiu-se longa fila de espera para obter, junto de atendentes pouco cordiais, novos cartões de embarque e “vauchers” de refeição. Encurtando, de um pequeno voo direto de 80 minutos, eis-nos voando, após horas de espera, para destino intermediário e, horas de espera depois, outro voo para o destino final, que atingimos já na madrugada de domingo, cerca de 14 horas além do previsto…

À Votre Santé

Calor intenso a meio do intenso momento das nossas vidas. Como escreveu e cantou  Manzanero, aprendemos que “las semanas tienen más de siete dias”, longas como se apresentam, curtas como resultam. El Niño faz o seu papel, esculhambando as meteo, virando de vez a cabeça dos catastrofistas que sonham com impossíveis emissões zero.

Mas eu quero mesmo é falar num vinho preparado e fermentado a partir de uvas das castas touriga nacional, alicante, aragonês, petit verdot dentre outras, granjeadas nas terras do baixo Alentejo, parcialmente pisadas, dizem, em lagares de mármore e seu néctar estagiado em meias pipas de carvalho. Sendo o mármore calcário puro, qual será o efeito? Talvez no Ph, ou talvez seja apenas um apelo. Mas, o resultado que agora degusto, é um extraordinário vinho tinto de cor e claridade quase erótico, de sabor indescritível, de descida ao mesmo tempo suave e agressiva nos seus 14% do volume, com o rótulo “Marquês de Borba” colheita 2020! Beba-se, então, mesmo que sem companhia, já que a Nina nada tem a ver com Baco…

Crônica do Pai

Estamos a treze de agosto, domingo. Um domingo chocho, cinzento, daqueles que não chove-nem-sai-de-cima. A noite anterior foi passada tomada pelas insônias e culminou com um despertar mal-humorado. Nina pisou meus calos antes mesmo de felicitar-me pelo dia dos pais, e lá fui eu suspirando ais, enquanto brigava com a cafeteira na preparação de um fortíssimo café, que sorvi em companhia dela, à mesa, mas no silêncio do meu silêncio. O dia prosseguiu carrancudo, até que Nina acudiu com cócegas e agarros, quebrando o gelo na minha volta de lavar o carro. Logo em seguida, eis que as distantes familinhas se fizeram presentes através do milagre do zapzap, com os habituais parabéns pela data, novidades e conversas associadas. O almoço especial, bacalhau no forno, seguido da sobremesa da minha preferência, selaram a comemoração a dois, sozinhos e reconciliados…

Gato por Lebre

Nina era um queixume só pelas dores que estava sentindo nos ossinhos, depois de havermos caminhado pelo comércio do centro da cidade. Eu fiz o meu papel, alvitrando que fossemos almoçar no Plaza, já que eu sou mesmo aleijado em quaisquer atividades culinárias. Mais uma vez, a abnegada arrumou forças para preparar um almocinho e só me chamou para pôr a mesa onde me sentei em frente às apetitosas batatas coradas, arroz de brocoli e um filézinho na chapa que estava, sem embargo, delicioso. Fui comendo, lentamente, degustando, com toda a calma, até que não resisti perguntar: “Nina, esta carne é aquele filé suíno que compramos ontem no P.A., suponho?!”. Ao que Nina respondeu: ”Isso aí é sobrecoxa de frango desossado, espalmado e grelhado na chapa!…”

Ri muito, desavergonhadamente! Ela ficou séria primeiro, mas depois acabou caindo também na gargalhada! Francamente, que tipo de fulano come frango e acha que está comento carne de porco?!