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“Normalidade”

Os dias sucederam-se, na minha miseranda apatia de velho octogenário. Oh! Céus, que descalabro! “Velho octogenário”, terrífico pleonasmo, precedido pela mais que depreciativa “miseranda apatia”! Qual o motivo, ou conjunto de motivos, que me leva a fustigar-me a mim mesmo, com tais violências verbais? Estarei eu escorregando num tobogã veloz e sem freios para um profundo vale sem retorno? Nada disso, asseguro, por seguro que ainda me sinto em mim mesmo, malgrado momentâneas apatias…

Acontece que nada sai do teclado da minha máquina, desde há umas duas semanas. Falta de assunto até não há, se eu me autorizasse a manifestar-me sobre todo esse estrugido político em curso. Mas a caçarola, por política, é malcheirosa e por tal eu sigo evitando o tema. Vai que dou em reagir, e até vomitar?! Mas, tenhamos fé, porque, pelo menos um golpe fulminante na maldita ideologia “woke”, parece estar, finalmente, em curso. Será mesmo um retorno à “normalidade”?!…

Dependência

Acordo duas da madrugada, levanto pro xixi, volto pra cama sentindo frio, muito frio, como se estivesse num igloo. Tremo, tremo, descontroladamente, agarro a minha mais-que-tudo, pedindo socorro e o quentinho dela. Na fase seguinte, eu estou suando e afasto de mim tudo o que me cobre e irradia calor, a mais-que-tudo incluída. Levanto de novo pro xixi e enfrento, na volta à cama, não mais estranhíssimas amplitudes térmicas, nem o desconforto de bexiga cheia, mas sou assolado por ameaças de tal forma reais, que se torna impossível dormir, porque sinto a aflitiva necessidade de me manter bem acordado, para me defender de horrendos atentados à minha integridade. Com a respiração alterada, não tardo a julgar encontrada a razão do meu pesadelo: O Youtube, a crudelíssima guerra nas neves da Ucrânia, o inferno ardente da cidade de Los Angeles, o descalabro do ameaçador panorama político. Ordeno-me renunciar à frequência das internetas, exigindo-me a mesma força de vontade que me acudiu quando, fumante extremado, abandonei abruptamente o tabagismo. Será que consigo?…

Resignação

Ao sexto dia do novo ano, gostei do texto que me foi recordado, que redigi e postei neste mesmo dia há nove anos atrás:

“Virei o novo ano de ponta cabeça para tentar adivinhar o que me espera. Só consegui conjeturar, baseado nas nada animadoras, para não dizer aterradoras premissas que o futuro contido entre este sexto e o tricentésimo sexagésimo quinto dias do período poderão oferecer-me. Penso que se eu fosse um homem de fé, verdadeiramente crente e temente, eu recitaria com ar resignado: “Projeto o melhor, espero o pior e aceito de ânimo igual o que Deus me der”

Levando mais adiante o pensamento, acabo por aceitar a frase como uma boa frase que reflete a obviedade ululante do paredão escuro e opaco do incerto futuro. Crendo ou não que o que vier virá pela força do Divino, prometo-me manter o ânimo para aceitar, resignado e com mais ou menos tranquilidade, o que me cair no colo…”

Estado de Espírito

Cinco dias decorreram no presente ano. O gáudio das festas, etílicos ou não, ainda persistem e as rodovias estão lotadas de viajantes retornando, porque amanhã é, para muitíssimos, o primeiro dia de trabalho. Para nem tão poucos, será a hospitalização ou até o término da vida, porque graves acidentes nas estradas são, infelizmente, coisa bem real.

A Nina lembrava-me há pouco, que neste Natal nós nada registámos em fotografia. Nem árvore, nem ceia, nem pose familiar. Dir-se-ia que, porque ficou mais fácil a fotografia com os IPhones da vida, sem a habitual preparação das pesadas câmeras e lentes, o ato de fotografar parece ter deixado de ter a importância de outrora! Ou será porque realmente, a idade me reduziu à ínfima espécie, sem interesse por nada? Eu prometi, e aqui deixo prometido, que reverterei esse apático estado de espírito…

Virou…

Acordo com um solzão abrilhantando este dia primeiro do ano de vinte e cinco, com uma estranha e teimosa compulsão para trautear “A Mula da Cooperativa”; primeiro em silêncio, como se ainda sonhando, depois a viva-voz. Nas primeiras e ainda ensonadas olhadas através das janelas, vejo que largaram uns sacos de lixo do outro lado da rua grande e que, na outra via, os vizinhos moradores de rua, lá, no mesmo quarto de dormir, na entrada magnífica de um Banco, viraram do velho para novo ano de miséria igual. Então me pergunto onde está a novidade além do calendário? A nossa virada, no acolhedor ambiente da familinha local, incluiu uma tacinha de autêntico Champagne que, ainda que bruto, teve a virtude de suavizar o meu dia meio mal-humorado e de pressão sanguínea acima do normal.

Tenham todos um magnífico ano de 2025!

Sabadando…

Sábado, derradeiro fim de semana do ano sem graça de 2024. Vejo, através da vidraça, o castanheiro carregado de ouriços que em breve cairão, mas não sei definir quando será esse “breve”, desse castanheiro do hemisfério sul. Do outro lado do castanheiro, na magnífica entrada espelhada, envidraçada, de um estabelecimento bancário, um casal desfaz o improviso do leito sobre o qual dormiram a noite. Ela penteia seus cabelos e eu me pergunto onde será que ela irá descarregar suas necessidades e oferecer-se um mínimo de higiene. Noto que o número de moradores de rua aumentou, com o aumento de retirantes vindos da riquíssima, porém paupérrima Venezuela. Quem diria?!!… e o meu pensamento voa para a minha infância, quando, na miséria europeia do pós-guerra, Caracas era miragem de eldorado! Isso explica os meus maus fígados que não suportam políticos. Nos últimos tempos não sou capaz de falar deles, dos políticos, nem para dizer mal…

É Natal!

E um novo Natal é chegado! E, se estou a escrever sobre tão importante efeméride, é porque, indubitavelmente, sobrevivi a mais um ano! Como é tempo dos oxalás, oxalá que eu possa escrever o mesmo no próximo Natal, daqui a 12 meses. São tantos os meus amigos, que não poderia a todos individualmente prestigiar, mas a todos um FELIZ NATAL eu posso e devo desejar!

Um grande Abraço de BOAS FESTAS, FELIZ ANO NOVO a todos os amigos e familiares!

Perdas e ganhos

Na última sexta, teve Mahler 9 com transmissão ao vivo desde o Grande Auditório da Gulbenkian de Lisboa pela Orquestra da Fundação, dirigida pelo maestro finlandês Hannu Lintu. Foi o segundo concerto com a nona de Mahler este ano, sendo que o primeiro foi pela orquestra de Bergen. Este é um mês com muita atividade musical em Lisboa e arredores, levando-me a lamentar não estar em pessoa, nas salas onde magníficos concertos acontecerão. Também perdi as belíssimas iluminações da baixa de Lisboa, o bolo-rei da Confeitaria Nacional, as castanhas assadas em cada esquina. Por outro lado, tenho a oportunidade de passar mais um período de Natal e entrada do Novo Ano com a familinha local…

Dentre o que se possa considerar interessante no famigerado FB, é que, de quando em quando reaparecem postagens há muito por mim publicadas e que poderão ou não ser agradáveis de recordar. Hoje surgiram algumas e, por falta de assunto…

“ Estou aqui para dizer-me que nada tenho para dizer-me. Nem mesmo para me mandar a mim próprio à merda, que isso não faria o menor sentido na esterqueira vigente.” 

Pensamento por mim exteriorizado há nove longínquos anos. Provavelmente era política a esterqueira a que me referia e, bem o creio, o esterco muito terá entretanto aumentado.

Mas, há dez anos, eu usava o idioma inglês (não me perguntem porquê), num encatarrado e lindo dia de domingo:

“You see…Love, is something splendorous that the whole wide world needs loads of. I woke up still alive and still in love! So, despite another bad flew, why should I complain in this splendid Sunday morning?”

Desinternet

É extraordinário como uma súbita falha da Internet azeda o humor! Eu sopro, bato os pés no chão, xingo o que e os que poderão ter provocado tal horrível acontecimento. A TV não é opção e, voltar àquele livro que foi deixado a meio, ou mesmo iniciar outro título, é, reconheço, o caminho de todos os caminhos, mas com certa resistência, e ainda olhando de soslaio para as luzinhas mágicas do WiFi. Então, vejamos: Qual foi o título que me atrevi a abandonar? -Ora! Isso é fácil! -Marcel Proust, Le Côte de Germantes, encalhado na marca de 45% de lido…É que, triste de mim, não encontro coragem e disposição para enfrentar o gigantismo da obra. Sim, leio coisa mais fácil e volto ao desatino da net, quando essa cousa retornar. Antes que me julgueis, eu devo elucidar que leio a obra de Proust na língua original, o que, ainda assim, não me livra de merecidas críticas…