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Gente feliz

Reunimos no almoço onze de nós, para degustarmos o choco frito do Capitão Cook, sendo que Lídia, a décima segunda, regressou ontem a casa em Flower Mound, Texas. Neste grupo, podemos ver um núcleo familiar nascido em continentes diversos, a saber: Europa, África, América do Norte e América do Sul, com ascendentes portugueses, espanhóis, italianos e índios brasileiros. Belíssima mistura, não é não? E fomos atendidos por uma bela e sorridente cabo-verdiana de Santiago. No topo da mesa, os decanos da família presente, aparentam felicidade pelo momento, deixando no passado, as agruras, amarguras e revoltas da diáspora…

Tédio

Sòzinho em casa, eu escrevo sòzinho, como aprendi em alguma escola primária dos primórdios, com uma professora que usava chapéus e vestidos feito realeza e me dizia que tinha de ter acento grave, que outros dizem “crase”, para que se pronuncie com o “o” aberto. Sòzinho em casa, dizia, parei de repente de gastar estupidamente meu tempo nos nauseabundos esgotos internéticos. Abri “au hasard” um livro de poemas de Mário de Sá-Carneiro, e leio que ele, não eu, nos idos de 1916, “Queria ser mulher para me poder estender/ao lado dos meus amigos, nas banquettes dos cafés”. Em outra quadra, ele repete que “Queria ser mulher, para ter muitos amantes/E enganá-los a todos – mesmo ao predilecto/Como gostaria de enganar o meu amante loiro, o mais esbelto/Com um rapaz gordo e feio, de modos extravagantes…” Com o perdão de quem tomar um tempo lendo estas linhas, se Mário tivesse sido mulher, que puta ela teria sido!…

Memórias

Impossível olvidar o passado vivido. Mesmo confrontado com pessoas que recusam retornar no túnel do tempo, martelando a tecla de que o passado não constrói, o que até tem sua lógica, mas as memórias são guardadas como se fossem fotos, em indeléveis álbuns, que sempre desfolhamos até que a morte sobrevenha e os destrua.

E vejam como a morte é mesmo implacável, que acaba de levar, sorrateiramente, o Fausto (Bordalo Dias), amigo-artista do círculo de amigos da música jovem em plenos anos 60, dos Beatles, Rolling Stones e também de metralhadoras cacarejando, porque a guerra era também a nossa realidade a par com a música. De tantos músicos da época no Huambo, Angola, raros foram os que lograram sobreviver dos proventos obtidos nos palcos da vida. Fausto foi um deles. Seu sucesso de musico, cantor e compositor elevou-o à fama nos melhores palcos e no disco, por décadas…

Duas Vidas

Sessenta e um anos, não sessenta e um dias ou meses, decorreram nas nossas vidas e eu confessava há alguns minutos atrás à minha companheirinha, que a lembrança que mantenho daquele dia, é a de um garoto completamente vidrado naquela belíssima criaturinha de aspeto frágil, cabelo escuro e um par de olhos verdíssimos, no fundo dos  quais eu adivinhava e logo confirmei, que a tal fragilidade era aparente e estava longe de ser real…  

Loucura!

Terreiro do Paço, foi sinônimo de concentração cívica-militar em datas históricas, para quem, como eu, nasceu ainda na primeira metade dos anos 40 do século passado. Sobrevivi a tempo de ver as honras militares d´antanho serem substituídas por um esculhambo sexualizado de desvairados/das gays abrilhantados por um milhão de alto-falantes com tal potência, que do local me evadi com meus pobres ouvidos latejando. A “musica” berrada pelo poderoso som, era indescritivelmente ruim. Quando me refizer, vou informar-me se tal festival foi só evento de hoje, retornando todos aqueles doidos aos respetivos sanatórios…

Pairando…

Eu ia dizer da celeridade do tempo, que é afirmação óbvia demais; rabisquei então algumas linhas sobre a brevidade da vida, mas desisti também porque, ponderei, são afinal, duas formas de dizer a mesma coisa. A Nina me diz que o tal Christian, irmão do Ralph e em tempos, companheiro de Gretchen, abotoou ontem o paletó aos 67. Veio então à minha ideia, uma ponte aérea Rio-São Paulo nos tempos dos velhos Lockheed Electra II. Era um domingo solarento e de calmaria tal, que sentamos, eu e o agora falecido, nos assentos laterais da salinha da cauda, que em outros tempos havia funcionado como bar, apreciando e comentando, embevecidos, o efeito das praias de Angra dos Reis, com as águas tão límpidas, que os barcos pareciam voar em relação ao fundo do mar! De igual forma, ficou na memória a sensação, mesmo com a vibração barulhenta dos 4 propulsores turbo-hélice, de que não estávamos avançando, mas sim pairando sobre aquele paraíso! Christian tinha uma bela voz, mas eu não apreciava seu repertório. Mas admirava sua versatilidade, em canções em língua inglesa que gravava para novelas, porque sobreviver não era brincadeira não…  

Lusitano coração

…LEVANTAI HOJE, DE NOVO, O ESPLENDOR…

Viver para viver

Dentre as coisas que afligem o meu dia-a-dia, destaco que nunca me sinto completamente feliz e realizado. Não importa onde geograficamente me encontre, sempre acho que seria em outro lugar onde eu realmente deveria estar. Chego ao absurdo de temer que, inconscientemente, eu esteja almejando o repouso final. Mas isso aí não faz sentido nenhum, porque colide com a minha enraizada convicção de ser realmente um Ser imortal. Esta manhã mesmo eu acordei convicto disso, apesar de ainda sentir dores daquela pancada nas costelas. Tem também o desejo de imitar a tia Miquinhas, campeã familiar de longevidade com 104 anos completados…

Notas tristes

Imbecilidade nunca dantes imaginada e em extraordinária expansão, deixa antever trágicos e sangrentos desfechos. Futuro não faz sentido, porque parece estar em risco de desaparecimento, aquele tipo de gente jovem com sólida formação e capacidade, fora da estupidificação “wokista”. É um retrocesso que, gelemos de terror, parece programado por poderosas, podres e totalitárias eminências…

Mas eu queria mesmo era falar sobre gente de valor e trabalho, do quilate de Manuel Rey Cordeiro, AKA “comandante Coco”, que há uns dias perdeu a vida numa infeliz manobra na apresentação dos “YAKSTARS” em Beja. Eu conheci, admirei e fotografei essa esquadrilha de velhos aviões soviéticos da segunda guerra em outubro de 2021, durante um summit de aeronáutica em Ponte de Sor. Gente de garra, movida a paixão pelo que fazem, com verdadeira alma de artistas, no seu arriscadíssimo circo aéreo. O comandante Coco era espanhol, gallego de fibra e piloto de linha aérea na empresa Vueling. RIP

Junino

Junho está já no segundo dia e eu pracádemarraqueche. Tomei alguns dedais de vinho tinto para ajudar nos kilos digestivos, sem qualquer tipo de abusos gastronômicos ou etílicos. A atividade tem sido muito abaixo do que seria de esperar, com visitas esporádicas à minha irmã e família. Nada do mergulho na fotografia que eu me prometia, nada de viver com intensidade, a vida que supostamente me resta. Há queridos familiares no pedaço, diretamente chegados dos States, surpreendentemente fluentes num português temperado com suave gringo sotaque. Essa fluência no vernáculo luso-brasileiro falado e escrito, eles devem à mamãe, mestre em português e Literatura por universidades fluminenses em tempos áureos!…