Sergio Mendes foi e deixou um “até mais tarde”, lembrando que a ele nos juntaremos, mais cedo ou mais tarde. No que me concerne, preferivelmente muito mais tarde. O passamento de tantos músicos admiráveis cujo trabalho nos conquistou em muitos e inesquecíveis momentos da nossa vida, alerta-nos para o Outono da existência de quem, como ele, virou mais de oito décadas…
Porque será que tanto mexe comigo Florbela Espanca? Aliás, Flor Bela de Alma da Conceição Espanca, assim batizada em 1894, Vila Viçosa. E lá, na sua terra natal eu a encontrei hoje, no seu mausoléu de branco mármore. Emocionei-me como se viva ela estivesse ali, falando comigo! Eu queria contar-lhe a piada do comerciante de Évora, mas não tive oportunidade. Preferi deixá-la carregar-me nos seus rubros versos…
“Das noites de volúpia, noites quentes
Onde há risos de virgens desmaiadas
Ouço as olaias rindo desgrenhadas…
Tombam astros em fogo, astros dementes,
E do luar os beijos languescentes
São pedaços de prata pelas estradas…
Os meus lábios são brancos como lagos
Os meus braços são leves como afagos,
Vestiu-os o luar de sedas puras…
Sou chama e neve branca e misteriosa
E sou, talvez, na noite voluptuosa,
Ó meu poeta, o beijo que procuras!“
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Realidade é constatar que famosos tão admirados em períodos da minha vida, vão paulatinamente deixando este vale de lágrimas. Alain Delon tinha apenas 8 anos mais do que eu. Não era fan dos filmes dele, mas invejava-o pelo quanto de beldades ele levou para a cama, por ser um fulano muito mais que “bem apessoado”. O filho da mãe era realmente bonito e as mulheres em geral ficavam mesmo de quatro. Que eu tenha retido na memória, só um filme carregado de erotismo, que ele rodou com a Romy Schneider. Noite passada, enquanto a Nina falava sobre o quanto Silvio Santos significou para as famílias brasileiras aos domingos, por várias décadas, eu fotografava a Lua Cheia. Ela surgiu vermelhinha e enorme e foi ficando brilhante, sugerindo que ela é, afinal, “Cheia de Vida” e não somente uma rocha flutuando no espaço…
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Minha aerocuriosidade é incurável, porque intrínseca (acho). Despendi bastante tempo sobre o terrível acidente do voo 2283, chegando até a ler, na íntegra, o manual do sistema “anti-icing” do ATR72, na hipótese de que o desastre terá ocorrido, por ação de congelamento das asas e superfícies de comando aerodinâmico. Mas, atualmente, não estou totalmente convencido de ter sido icing o que derrubou o avião daquele jeito. O ATR veio para o solo tipo “folha seca”, sem qualquer propulsão longitudinal, o que é extraordinário, na medida em que pode ser ouvido nos vários vídeos que estão à disposição na net, fortíssimo ruido típico dos motores turbo-hélice em alta rotação, denotando o desespero por obter tração. Como se ambos os hélices estivessem solidamente bloqueados em passo completamente neutro! Sem tração, não há velocidade. E velocidade é vida…
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Em Outubro de 1994, o voo 4184 da American Eagle, um ATR 72-212 Reg. N401AM, durante a descida e pouso em Chicago-O´Hare, experimentou problemas de comando que se foram agravando até à total incontrolabilidade, ao ponto de a aeronave inverter e assim embater no solo. Impressionadíssimo, segui e arquivei os documentos gerados na investigação. As 68 almas a bordo tiveram tempo pleno para viverem o pavoroso mergulho para o inevitável. A perda de controle teve como base as condições de formação de gelo nas superfícies e articulações dos planos de comando.
A tragédia de ontem com o voo Voepass 2283, levou-me de volta no tempo e ao meu antes sentido pavor, imaginando estar enlatado numa máquina de voar que perdeu as condições de voar, arrastando-me inexoravelmente para a morte. As causas poderão nem ser “icing”, na medida em que acredito que o fabricante terá extraído lições do acontecido há três décadas e evoluído em tecnologia para evitar situação semelhante…
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Segundo dia de agosto que, se para uns é mês de desgosto, para outros será de imenso gosto e também de impensável mau gosto. Calor senegalês do verão sul-europeu, sem chuva e forçados a respirar as poeiras do Sahara, que aqui chegam tocadas pelos ventos do sul e se misturam ao mau-cheiro das águas do Sena e toda fedentina exalada pela ridícula olimpiada trazida pelos ventos do norte…
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A idade vai avançando, estranhas recordações de vida assomam e assombram meus dias e noites. Estranhas porque tão a despropósito. Ou talvez venham a propósito, porque o presente é mesmo um despropósito. Os amaldiçoados wokes terão, sem dúvida, bastante a ver com esse estado de espírito, mas não só. Neste caso, reencontro-me, numa dessas recordações, brigando com a mecânica de uma Solex, uma desgraça francesa cujo motor teima em me deixar no pedal. E entro, incapaz de resolver a avaria, pedalando num pátio onde se reparavam bicicletas; enquanto o faço, interfiro de alguma forma com outro cliente. Era o dono de uma enorme “Jawa”, que solta o verbo sobre mim, enquanto me ameaça fisicamente. Chamou-me de “branco de segunda”, porque ele, o poderoso dono da Jawa, vociferava, aos berros, ser branco de lá, da Europa, enquanto que eu, provavelmente não teria esse status e portanto seria, no seu julgamento de jerico preconceituoso, de uma casta inferior.
Enquanto degusto com gosto uma talhada de queijo de ovelha e uma taça de vinho, surpreendo-me divertido pela súbita recordação de um tal incidente ocorrido há tantos anos – cerca de 65 ou 66, em morenas terras africanas. Mais queijo e mais vinho se seguiu, que esta vida é muito curta…
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Me desculpem, franceses e francófilos, mas o desfile foi ruim demais. Se contarmos com o indescritível circo de horrores woke debaixo de chuva, foi mesmo une merde. Minha opinião, é claro, que tenho direito a ela. A própria sequência de acendimento da pira, foi looonga e cansativa demais, mas salva pela genialidade cênica da pira voadora e pelo magnífico espetáculo de luzes, com a torre Eiffel no meio da girândola! Estrelas, estrelas mesmo, só as que se fundiram numa só: Na divina Céline Dion! Explosão de voz poderosa e irrepreensível, numa personalidade que há tão pouquinho tempo, eu lamentava pela sua situação de saúde gravemente afetada! Heroína, Heroína, repeti profundamente emocionado!…
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Reunimos no almoço onze de nós, para degustarmos o choco frito do Capitão Cook, sendo que Lídia, a décima segunda, regressou ontem a casa em Flower Mound, Texas. Neste grupo, podemos ver um núcleo familiar nascido em continentes diversos, a saber: Europa, África, América do Norte e América do Sul, com ascendentes portugueses, espanhóis, italianos e índios brasileiros. Belíssima mistura, não é não? E fomos atendidos por uma bela e sorridente cabo-verdiana de Santiago. No topo da mesa, os decanos da família presente, aparentam felicidade pelo momento, deixando no passado, as agruras, amarguras e revoltas da diáspora…
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Sòzinho em casa, eu escrevo sòzinho, como aprendi em alguma escola primária dos primórdios, com uma professora que usava chapéus e vestidos feito realeza e me dizia que tinha de ter acento grave, que outros dizem “crase”, para que se pronuncie com o “o” aberto. Sòzinho em casa, dizia, parei de repente de gastar estupidamente meu tempo nos nauseabundos esgotos internéticos. Abri “au hasard” um livro de poemas de Mário de Sá-Carneiro, e leio que ele, não eu, nos idos de 1916, “Queria ser mulher para me poder estender/ao lado dos meus amigos, nas banquettes dos cafés”. Em outra quadra, ele repete que “Queria ser mulher, para ter muitos amantes/E enganá-los a todos – mesmo ao predilecto/Como gostaria de enganar o meu amante loiro, o mais esbelto/Com um rapaz gordo e feio, de modos extravagantes…” Com o perdão de quem tomar um tempo lendo estas linhas, se Mário tivesse sido mulher, que puta ela teria sido!…
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