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Lone Voyager

Macaé-20140427-00174

Penso que o meu carrinho já faz esta viagem no piloto automático e esse é o motivo pelo qual eu me descobri no apê de Macaé sem que me recorde de nenhum detalhe do trajeto que acabo de completar. Seja isso bom ou mau, é uma habituação que nunca pensei que aconteceria e que me forço mais que nunca a tentar rejeitar, por nela não ser possivel encontrar qualquer sentido ou lógica. É no entanto real que, setenta anos vividos, me encontro na companhia de mim mesmo, num cochicho envidraçado a quase 200 kms de onde deixei a minha mais-que-tudo na solitária companhia dela mesma. A diferença é que meu caso é muito mais sério e inseguro porque, sem embargo, eu sou uma péssima companhia para mim próprio.

Rodei um show de Alejandro Sanz no DVD com o volume alto, o que acabou encobrindo os gritos da pobrecita cafeteira de pressão. O cafezinho sugiu em vômitos sobre o fogão e aí sim, eu corri como o fazia a minha querida mãe, que jamais em vida aproveitou mais que a metade da quantidade de leite que colocava pra ferver.

Alejandro cantava “Cuando nadie me ve” e eu me fixei na ideia de que aquele era o canto da imolada cafeteira! Não sei porquê, mas substituí-o por Harry Clapton, enquanto resfriava a bichinha e verificava que, milagrosamente, as vedações não derreteram – pelo menos desta vez! Preparei outra cafeteirada, limpei o fogão, et cetera.

Agora, no finzinho de uma dia de domingo, decido que absolutamente não vou poluir meus sentidos com o non-sense intragável do Faustão, ou navegando por aterrorizantes notícias de CNN´s ,BBC´s, Globo´s, muito menos acessando o para mim definitivamente insuportável FB que soberanamente detesto. Troquei Clapton por Sinatra bem baixinho e voltei à leitura do interrompido “Lone Voyager”.

Em tempo: FB, só mesmo para deixar uma pista para que alguém, eventualmente, venha ler estas tortas linhas…

Os detestáveis

 

Em princípio, tudo o que repudio eu detesto e fim-de-papo. Mas definir o que é detestável não é tão simples assim na vida real, porque muita coisa que para mim não é palatável ao ponto de merecer o adjetivo, é-o para milhões de semelhantes para quem o antônimo é o verdadeiro…

Detestaria forçar-me a elaborar uma lista de detestáveis, só porque no parágrafo anterior fiz chover no molhado. Poderia resumir tudo em um exemplo de sujeito universalmente detestável: “O Imposto”. De qualquer natureza, se é “imposto”, é-o pela força. Poderá sê-lo “pela força da Lei” que, em última análise tem braço armado para fazer cumprir o imposto, logo, é imposto pela força das armas. Exemplo mais particular: É-nos imposto que paguemos – or else – contribuição sobre o que recebemos pelo nosso trabalho. Mas não há, todavia, qualquer garantia de que haverá justiça e honestidade na aplicação dessa contribuição e isso é algo muito detestável. Parece filosófico e pode até muito bem ser, mas a quantia expressa no “DARF” que tenho ante meus olhos é brutalmente real!

Belisco-me, porque o fisco absolutamente não era meu alvo neste escrito. Aconteceu porque ele – o fisco – tem costas largas e não se incomoda nem um pouquinho que digam mal, desde que paguem! Já os Beatles malhavam no “Taxman” em suas musicas enquanto alimentavam generosamente as goelas escancaradas, gargalhantes e insaciáveis do sistema…

 

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Digo-me, com o marcador no Capítulo 17, sem suficiente “volume no cérebro” para desenvolver algum texto, mesmo simplinho que seja, sobre Clarice Lispector. Atrever-me a tentar decifrar a Esfinge – petulância absurda -nem pensar! Sou afinal e tão somente um deslumbrado caminheiro, inspirando, maravilhado, cada quilômetro de trilha percorrida por tão fascinante personalidade da literatura! Benjamin Moser é um biógrafo admirável!

+++++

Maria Elisa Guimarães, a “Meg” , ocupa seu lugar em um grupo de pessoas , em geral ligadas aos blogs, à literatura, jornalismo, fotografia e artes, que classifico como “de destaque” ou “especiais”, no meu personalíssimo conceito de admiração e até, porque não, de amizade, independentemente de haver ou não contato “em pessoa”. Frequentei com maior ou menor assiduidade seu “Sub Rosa”  e nele colaborei com alguns textos e muitos comentários. A meu ver, era um espaço muito inteligente, com desdobramentos interessantíssimos e até didáticos, que sempre foram do meu agrado. Períodos de fragilidades e vicissitudes de saúde afastaram a Meg do convívio do Blog, mas atrairam meu apoio e amizade, que não deixo de reiterar em todas as circunstâncias.

Muito honrado, Meg, agradeço a lembrança e vou guardar com muito carinho! Quem sabe um dia, numa oportunidade, você coloca nele uma dedicatória?…

 

 

Penso que…

Sequestro, só por si, é uma forma de tortura;

Ser abduzido sob ameaça armada, é tortura;

Ser violentamente privado da liberdade, é tortura;

Ser mantido refém com sobrevivência incerta, é tortura;

 

Nenhum fim pode justificar a tortura como meio;

Nenhuma “causa” é “causa justa” para justificar a tortura.

 

O meu pensamento aplica-se a regimes e contra-regimes politicos;

A ideologias ou filosofias politicas/religiosas

Às cada vez mais numerosas, poderosas, bem organizadas e armadas, influentes e politicamente bem representadas hordas de parasitas violentos que infernizam a existência das produtivas gentes;

Et Cetera…

Neblina

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O rápido embarque para uma missão de pouco mais de vinte e quatro horas não teria história para contar, não fora o denso nevoeiro que se formou durante a madrugada em torno da Ilha de Santana. Acordei com os lúgubres uivos modulando os dois pontos e um traço repetidos a cada trinta segundos correspondentes à letra “U” em código morse, para avisar os navegantes da presença da nossa ancorada mole de ferros flutuantes…

Tateei o canto do beliche até achar os óculos e o celular, que ali deixei estrategicamente colocados. Ensonado, vi que eram 03H20 e senti que estava com a bexiga estourando. Com a facilidade natural de um bom septuagenário, logrei descer a escada de três degraus. Lembrei-me que aceitei sem problema deitar no beliche de cima, porque o companheiro de cabine, conquanto conte menos de 50 anos de vida, é brutalmente obeso…

Escalei-me de volta para a cama, mas o interrompido sono não voltou. Se o aviso sonoro de “Código U” havia sido ligado, pensei, é porque havia nevoeiro que poderia impedir ou pelo menos atrazar a vinda do pequeno barco de apoio que me transportaria de volta a terra. Não tardou muito e achei-me no convés portando a minha velha Canon D350 equipada com uma lente também fraquinha 1:4 com zoom de 17-85. Para fotos de trabalho é ainda bastante aceitável, mas lamentei não haver levado para bordo equipamento melhor.

A madrugada estava fantasmagórica e eu mergulhei livremente nas profundezas do mais insólito, ilógico e utópico conteúdo do meu mundo interior. Incapaz de descrever, nos limites deste escrito, tudo o que me passou pela mente, deixei gravadas em fotografia as imagens do meu amanhecer envolto na neblina das incertezas…

O Sol nascente derrete a neblina

que me esconde a alma,

que esconde as incertezas

de um dia mais a menos…”

++++

Rising Sun melting the mists

That hide my soul´s uncertainties

Of yet another day

Subtracted from lifetime…”

(prosa poética de outros textos escondidos)

 

 

Esta manhã…

…não sabia se rir ou se chorar!

Porque a vida passa, e no que passa,

na pele e n´alma imprime e traça

as marcas das trilhas que ousei pisar

até ao portal dos setenta chegar…

…decidi então chorar sorrindo,

como forma de à Natura agradecer

o privilégio de até esta idade viver

com um amor eterno e lindo.

Brincar de imortal

Uma vez mais, subo vagarosamente uma imaginária escadaria até um texto em prosa poética aqui  largado displicentemente, incapaz de resistir a posteriores leituras. Argumento e indisponho-me, porque me surpreendi envergonhado por haver escrito o que me pareceu um arrazoado de “loucas e impossiveis incoerências”! No entanto, uma tal constatação, pondero, se levada a sério, inviabilizaria as minhas divagações poéticas, todas elas baseadas em incoerentes, impossiveis e loucas  edificações no mais abstrato recôndido da minha alma. Por outro lado, onde poderá estar a incoerência em escrever da minha resistência à marcha inexorável em direção ao “Fim”, levando ao extremo o meu “brincar de imortal”?…

Desatino

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Como se me soubesse a fundo,

Aproprio-me do meu mundo

como se o meu mundo fosse meu…

Ledo engano, pois não me domino;

Em vão me debato em desatino,

pois o comando é dele, meu outro Eu…

Rei Sol

Rei Sol

Certamente que elas, as musas, de mim desertaram. Musas, tenho dito, são extremamente suscetíveis e há que tratá-las com deferência e cautela. Há essencialmente que manter-lhes a todo o momento a livre entrada para a alma; Uma alma permeável e com ânsia de criar… Enxergo no poderoso Sol nascente um ar de escárnio, mas também de desafio: “Volta! Retorna! Esquece a prosa gerada no seio da realidade das misérias deste mundo e torna à pátria livre, ilógica e filosófica da poesia!” – Assim falou Rei Sol!

“Livrar-me de mim, até que poderia…

…mas como livrar-me da poesia?!”

(De velhos pensamentos meus)

Repeteco

A semana que ontem se encerrou foi de regozijo pela notícia de que serei avô de mais uma menina e a confirmação de que seu nome será mesmo Isadora, como foi por mim sugerido! Dupla honra e motivo de sobra para me sentir alegre e mais agarrado à vida para vê-la crescer e ficar linda, como lindas são as mulheres da família.

Paradoxalmente, pelo repeteco do meu mad driving em direção a Macaé onde acabo de chegar são e salvo, dir-se-ia que esse meu agarramento à vida poderia até ser bastante questionado. O pavoroso calor externo versus confortável clima dentro da bolha de metal motorizada, parece induzir em mim uma ilusória e arrogante sensação de poder e de indestrutibilidade. Miraculosamente, eis que os tais “olhos-como-há-só-dois” surgem defronte do pára-brisa oportunos, faiscantes, repreensivos, refreando parte dos meus ímpetos…

Não existe no traçado da BR 101 entre o Rio e Macaé nenhuma reta onde possamos observar o ilusório ponto de convergência denominado “Vanishing Point” na língua inglesa. Usei a expressão como título do post de Domingo passado porque, durante a viagem, rememorei as loucuras suicidas do personagem Kowalsky ao volante de um Dodge Challenger R/T 440 no filme assim intitulado, produzido em 1970 ou 71. O “Vanishing Point” de Kowalsky foi sem retorno; O meu é muito menos radical, se bem que metaforicamente suicida. A dita “Capital do Petróleo” é o “outro lado” do meu “Vanishing Point”!