As primeiras barras de Mahler 3 excitam meus sentidos através dos fones de ouvido, ao mesmo tempo em que abafam o fluir dos noticiários das TV´s, execráveis para mim, mas de aparente importância para a companheirinha, que as não dispensa. Ideias parecem surgir por entre o ultracomplicado e profundo desenrolar da obra sob a regência do saudoso Caudio Abbado. Ocorre-me que foi com Abbado que pela primeira vez escutei a ópera Carmen em sua íntegra, com Plácido Domingo como Don José e Teresa Berganza no papel de Carmen. Antes, só excertos e árias. Decorei o libreto inteiro, tantas foram a vezes que escutei. Mas filtrei o francês francamente ruim de Plácido e não só! Agora já entramos no “Tempo di Menueto”, os oboés vão fraseando sobre o pizzicato suave e preciso dos celos e contrabaixos, até surgirem em força todos os violinos, suportados por clarinetes e fagotes, mais a ajuda das flautas. Mais um andamento – “Comodo – Scherzando. Ohne Hast” e fiz uma pausa para aportar um queijinho, um vinho tinto alentejano e pão de batata doce produzido aqui em casa. Devo confessar que, à segunda taça de tinto de 13,5%, minha atenção decresceu, decresceu, até que capitulei e deixei o resto da sinfonia para amanhã…
De repente, não mais que de repente, calafrios e tremuras, seguidos de calamuras e tremafrios. Quando pararam, a temperatura foi aos 39. Seguiram-se consumo de paracetamol, suadouros, noites mal dormidas e, finalmente, senti melhoras na minha disposição, passados quase três dias. Teste caseiro de COVID19 = Positivo! How dare you?, perguntei-me chocado! A Nina culpou o avião da Azul, enquanto que eu tendo a culpar o azul do avião e acabo concluindo não ter quem acusar além do sinovírus…
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Sou de poucas palavras e de escutar muito. Silencioso, arrisco um sorriso aqui e ali. Tenho, no entanto, a consciência de que o meu maior risco é o de ser falado como um fulano impenetrável, de mal com a vida, ou doente. Até que seja servido um “gatilho”: uma ou duas taças de um bom vinho, por exemplo, mas pode ser champanhe, que eu também muito aprecio. Em Spirits como whisky e outros destilados eu, presentemente, não alinho. Acionado o gatilho, poderá o meu discurso fazer-me falado como um fulano que não concorda com nada do que foi dito, antes do gatilho, é claro, podendo sair do evento com alguma mal querência, caso os temas deslizem para belicosos campos. Melhor não convidar, pois!
Agora, falando sério e desdizendo o supra afirmado; Não deixem de convidar-me, porque, garanto, sou um bom ouvinte. Bom, silencioso e respeitoso ouvinte. Mesmo depois do gatilho…
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Enfrento, uma vez mais, um incomodativo resfriado. Mas, pelo menos por enquanto, sem temperatura. Então, expliquem-me a razão das tremuras como se estivesse com febre altíssima! Tomei Paracetamol e senti melhoras. Pior é que a companheirinha diz que a culpa é minha, por não usar roupa adequada ao clima de Curitiba. Aceitemos, então a culpa, minha máxima culpa, nesta santa sexta feira santa. O almoço incluiu uma gostosíssima tilápia ao molho e vejo que, pelos preparativos, terá um jantar com um caldo verde como a avó ensinou.
Aqui em casa, muita coisa gravita em torno da música, embora, inteligentemente, ninguém alguma vez tentasse sobreviver dela. Tem professor de música para as meninas, que é também professor de canto da mãe das meninas. Instrumentos e periféricos não faltam por aqui! A gata chiara parece gostar do que escuta. Os outros instrumentos são computadores, porque o meio de vida é TI, cloud engineering, programação, RH…
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Palhaço internético “luva-de-pedreiro” que de humilde trabalhador de roça alavancou-se a personalidade conhecida mundialmente e muito, muito rico! Vi no programa do Faro agora há pouco. “O meu mundo”, pensei, “virou um gigantesco hospício”! Mas diverti-me, contudo, com tal pantomina milionária. Serviu pelo menos, para mitigar um pouco a tensão de saber de um familiar de novo internado em emergência cardíaca em Salvador, Bahia…
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No encontro com uma procissão de Domingo de Ramos aqui do bairro, afloraram muitas recordações de infância no seio das famílias católicas. Para nós, crianças, havia muita diversão nas bandas de música, nos foguetórios, nas delícias expostas nos tabuleiros das doceiras. Mais de sete décadas se passaram e os valores religiosos dessa época, aprendidos nas catequeses e na escola foram, ao longo dos anos, perdendo para valores outros de valor sempre discutível. Porque nada é indiscutível. Só a fé de quem de fato a tem e mantém inabalável. Daí a realidade da procissão, desfilando diante dos meus cansados olhos…
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Neste dia, em 2014, eu postei:
“Imagine-se um lugar onde os legisladores existissem em grupos a saber: a) Jegues desmiolados; b) Cretinos grandiloquentes sem conteúdo; c) Despóticos ideólogos de ultrapassadas doutrinas; d) Espertalhões da alta patifaria política; e) Espertalhões da alta patifaria econômica! Que bom que é só imaginação…”
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Detesto ser chamado de “paciente”. Fico sem paciência, irritadiço e com humor de cachorro agressivo. Sorte que meu nome foi gritado junto com outros três nomes, todos coletivamente precedidos do título “pacientes”. Mesmo assim, levantei rápido e fui a passo de torpedo em direção à mulher que à porta do desconhecido, com voz desagradável, fazia a chamada. Felizmente conservei intacta uma generosa porção de razoável, que naturalmente desmanchou meus ímpetos e me fez deixar-me suavemente conduzir a um exíguo gabinete contendo duas outras mulheres, a saber: uma sem voz, teclando um PC, outra de voz mansa e aveludada, que perguntou se eu era portador de marca-passo e, enquanto assegurava que era obra e bênção de deus eu não estar amarrado a tal berbicacho, pediu-me para tirar a camisa e anunciou que passaria uma lâmina nos ralos cabelinhos remanescentes dos desastrosos efeitos de anos de remédios para a pressão, para arritmia e fibrilação atrial, para a hiperplasia prostática e outras estúpidas moléstias que o avanço da idade me proporcionou. A bela menina (porque era uma bela menina), raspou meus pobres peitorais pentelhinhos, passou éter e passou a colar em mim os diversos sensores com um molho de fios ligados a um pequenino módulo pendurado no meu cinto. “Pronto”, disse! “Volte amanhã a esta hora para retirar!”. Será que quando eu voltar amanhã vou encontrar a mesma linda menina de voz aveludada, ou será uma megera de mal com a vida que arrancará sem cerimônia aquelas coisas coladas no meu peito?…
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Sou fascinado pelas sinfonias de Gustav Mahler – de todas elas, sem exceção, de 1 a 10. Pouco antes da peste chinesa, fiquei fielmente ligado na LSO – London Symphony Orchestra, sob Simon Rattle, num período dedicado a Mahler. Com alguma sorte, quando a sala do Barbican Centre era completamente vendida, alguns concertos acabaram transmitidos ao vivo. Eu não perdi nenhum deles e não deixava de interagir pelo chat, exteriorizando meu aplauso e mexendo com a admirável Maxine Kwok, virtuosa primeiro violino que sempre usou os cabelos tingidos com as cores do arco iris. Ela é amiga de Sara Chang, outra grande violinista de quem sou super fã. Eis que Mahler me arrasta de novo por novas emoções com o sucesso de um filme de Hollywood em torno de uma maestrina genial, temperamental e de poder à flor da pele, como nem tão raramente poderemos encontrar na vida real. Lydia Tár é uma personagem fictícia, mas foi tão magistralmente trabalhada pelo Screenplay writer e diretor Todd Field e na extraordinária envolvência de Cate Blanchett, que, confesso, cheguei a procurar no Google, convencido tratar-se de mais um trabalho de cine biografia. Na sequência, gastei horas assistindo teasers, entrevistas e discussões, cada vez mais subjugado pela inteligência e capacidade de toda aquela gente. Blanchett não é condutora, é atriz, não é alemã, é aussie, mas a performance dela como condutora é elogiada por eminentes maestros e ainda, nas cenas de ensaio com a orquestra é em língua alemã que ela se expressa! Para mim, grande admirador de mulheres inteligentes, é assunto para continuar curtindo quando assistir ao filme. Sim, porque a verdade é que eu ainda não tive oportunidade de ver o filme e, permitam-me, estou tão fascinado pelo que vi e ouvi e ainda ouço no Youtube, que fico até com certo receio de me decepcionar!…
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“Ah…como meu coração brilha
Com luz própria feito sol…
Piso firme ao longo da trilha
caminho nesta sextilha
trauteando em si bemol
pr´ajudar no colesterol.”
E rio com vontade, caminhando sozinho, feito doidinho, para estranheza dos que por mim passam; trautear em si bemol só mesmo para rimar com sol, arrasando com o colesterol! Mas divirto-me enquanto caminho e diluo presságios nas cores incomparáveis da natura, que me atura, em vida, para me devorar após-vida. “Após vida”?! Sim, após-vida – eu sou o dono do arrazoado e escrevo o que me dá na gana. Prossigo a caminhada, admirando aquela moçada no futvôlei esforçada! Não é mais pra minha idade! Essa é uma verdade, plena de realidade. Bem, hora de voltar para ela não esperar, não desesperar porque estou a demorar. Vamos ver qual é o kitute que ela tem pr´almoçar neste mardis gras…
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