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Pavoroso

Em Outubro de 1994, o voo 4184 da American Eagle, um ATR 72-212 Reg. N401AM, durante a descida e pouso em Chicago-O´Hare, experimentou problemas de comando que se foram agravando até à total incontrolabilidade, ao ponto de a aeronave inverter e assim embater no solo. Impressionadíssimo, segui e arquivei os documentos gerados na investigação. As 68 almas a bordo tiveram tempo pleno para viverem o pavoroso mergulho para o inevitável. A perda de controle teve como base as condições de formação de gelo nas superfícies e articulações dos planos de comando.

A tragédia de ontem com o voo Voepass 2283, levou-me de volta no tempo e ao meu antes sentido pavor, imaginando estar enlatado numa máquina de voar que perdeu as condições de voar, arrastando-me inexoravelmente para a morte. As causas poderão nem ser “icing”, na medida em que acredito que o fabricante terá extraído lições do acontecido há três décadas e evoluído em tecnologia para evitar situação semelhante…

Verão

Segundo dia de agosto que, se para uns é mês de desgosto, para outros será de imenso gosto e também de impensável mau gosto. Calor senegalês do verão sul-europeu, sem chuva e forçados a respirar as poeiras do Sahara, que aqui chegam tocadas pelos ventos do sul e se misturam ao mau-cheiro das águas do Sena e toda fedentina exalada pela ridícula olimpiada trazida pelos ventos do norte…

Queijo & vinho

A idade vai avançando, estranhas recordações de vida assomam e assombram meus dias e noites. Estranhas porque tão a despropósito. Ou talvez venham a propósito, porque o presente é mesmo um despropósito. Os amaldiçoados wokes terão, sem dúvida, bastante a ver com esse estado de espírito, mas não só. Neste caso, reencontro-me, numa dessas recordações, brigando com a mecânica de uma Solex, uma desgraça francesa cujo motor teima em me deixar no pedal. E entro, incapaz de resolver a avaria, pedalando num pátio onde se reparavam bicicletas; enquanto o faço, interfiro de alguma forma com outro cliente. Era o dono de uma enorme “Jawa”, que solta o verbo sobre mim, enquanto me ameaça fisicamente. Chamou-me de “branco de segunda”, porque ele, o poderoso dono da Jawa, vociferava, aos berros, ser branco de lá, da Europa, enquanto que eu, provavelmente não teria esse status e portanto seria, no seu julgamento de jerico preconceituoso, de uma casta inferior.

Enquanto degusto com gosto uma talhada de queijo de ovelha e uma taça de vinho, surpreendo-me divertido pela súbita recordação de um tal incidente ocorrido há tantos anos – cerca de 65 ou 66, em morenas terras africanas. Mais queijo e mais vinho se seguiu, que esta vida é muito curta…

Olimpiadas

Me desculpem, franceses e francófilos, mas o desfile foi ruim demais. Se contarmos com o indescritível circo de horrores woke debaixo de chuva, foi mesmo une merde. Minha opinião, é claro, que tenho direito a ela. A própria sequência de acendimento da pira, foi looonga e cansativa demais, mas salva pela genialidade cênica da pira voadora e pelo magnífico espetáculo de luzes, com a torre Eiffel no meio da girândola! Estrelas, estrelas mesmo, só as que se fundiram numa só: Na divina Céline Dion! Explosão de voz poderosa e irrepreensível, numa personalidade que há tão pouquinho tempo, eu lamentava pela sua situação de saúde gravemente afetada! Heroína, Heroína, repeti profundamente emocionado!…

Gente feliz

Reunimos no almoço onze de nós, para degustarmos o choco frito do Capitão Cook, sendo que Lídia, a décima segunda, regressou ontem a casa em Flower Mound, Texas. Neste grupo, podemos ver um núcleo familiar nascido em continentes diversos, a saber: Europa, África, América do Norte e América do Sul, com ascendentes portugueses, espanhóis, italianos e índios brasileiros. Belíssima mistura, não é não? E fomos atendidos por uma bela e sorridente cabo-verdiana de Santiago. No topo da mesa, os decanos da família presente, aparentam felicidade pelo momento, deixando no passado, as agruras, amarguras e revoltas da diáspora…

Tédio

Sòzinho em casa, eu escrevo sòzinho, como aprendi em alguma escola primária dos primórdios, com uma professora que usava chapéus e vestidos feito realeza e me dizia que tinha de ter acento grave, que outros dizem “crase”, para que se pronuncie com o “o” aberto. Sòzinho em casa, dizia, parei de repente de gastar estupidamente meu tempo nos nauseabundos esgotos internéticos. Abri “au hasard” um livro de poemas de Mário de Sá-Carneiro, e leio que ele, não eu, nos idos de 1916, “Queria ser mulher para me poder estender/ao lado dos meus amigos, nas banquettes dos cafés”. Em outra quadra, ele repete que “Queria ser mulher, para ter muitos amantes/E enganá-los a todos – mesmo ao predilecto/Como gostaria de enganar o meu amante loiro, o mais esbelto/Com um rapaz gordo e feio, de modos extravagantes…” Com o perdão de quem tomar um tempo lendo estas linhas, se Mário tivesse sido mulher, que puta ela teria sido!…

Memórias

Impossível olvidar o passado vivido. Mesmo confrontado com pessoas que recusam retornar no túnel do tempo, martelando a tecla de que o passado não constrói, o que até tem sua lógica, mas as memórias são guardadas como se fossem fotos, em indeléveis álbuns, que sempre desfolhamos até que a morte sobrevenha e os destrua.

E vejam como a morte é mesmo implacável, que acaba de levar, sorrateiramente, o Fausto (Bordalo Dias), amigo-artista do círculo de amigos da música jovem em plenos anos 60, dos Beatles, Rolling Stones e também de metralhadoras cacarejando, porque a guerra era também a nossa realidade a par com a música. De tantos músicos da época no Huambo, Angola, raros foram os que lograram sobreviver dos proventos obtidos nos palcos da vida. Fausto foi um deles. Seu sucesso de musico, cantor e compositor elevou-o à fama nos melhores palcos e no disco, por décadas…

Duas Vidas

Sessenta e um anos, não sessenta e um dias ou meses, decorreram nas nossas vidas e eu confessava há alguns minutos atrás à minha companheirinha, que a lembrança que mantenho daquele dia, é a de um garoto completamente vidrado naquela belíssima criaturinha de aspeto frágil, cabelo escuro e um par de olhos verdíssimos, no fundo dos  quais eu adivinhava e logo confirmei, que a tal fragilidade era aparente e estava longe de ser real…  

Loucura!

Terreiro do Paço, foi sinônimo de concentração cívica-militar em datas históricas, para quem, como eu, nasceu ainda na primeira metade dos anos 40 do século passado. Sobrevivi a tempo de ver as honras militares d´antanho serem substituídas por um esculhambo sexualizado de desvairados/das gays abrilhantados por um milhão de alto-falantes com tal potência, que do local me evadi com meus pobres ouvidos latejando. A “musica” berrada pelo poderoso som, era indescritivelmente ruim. Quando me refizer, vou informar-me se tal festival foi só evento de hoje, retornando todos aqueles doidos aos respetivos sanatórios…

Pairando…

Eu ia dizer da celeridade do tempo, que é afirmação óbvia demais; rabisquei então algumas linhas sobre a brevidade da vida, mas desisti também porque, ponderei, são afinal, duas formas de dizer a mesma coisa. A Nina me diz que o tal Christian, irmão do Ralph e em tempos, companheiro de Gretchen, abotoou ontem o paletó aos 67. Veio então à minha ideia, uma ponte aérea Rio-São Paulo nos tempos dos velhos Lockheed Electra II. Era um domingo solarento e de calmaria tal, que sentamos, eu e o agora falecido, nos assentos laterais da salinha da cauda, que em outros tempos havia funcionado como bar, apreciando e comentando, embevecidos, o efeito das praias de Angra dos Reis, com as águas tão límpidas, que os barcos pareciam voar em relação ao fundo do mar! De igual forma, ficou na memória a sensação, mesmo com a vibração barulhenta dos 4 propulsores turbo-hélice, de que não estávamos avançando, mas sim pairando sobre aquele paraíso! Christian tinha uma bela voz, mas eu não apreciava seu repertório. Mas admirava sua versatilidade, em canções em língua inglesa que gravava para novelas, porque sobreviver não era brincadeira não…