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Paixão

O tanto que já vivi,

Não voltarei a viver;

O tanto que já sofri,

Poderei, sim, voltar a sofrer…

***

Perguntaram-me certo dia

Se eu sabia o que é paixão;

Eu disse que sim, que sabia,

que muito bem a conhecia,

o meu cansado coração…

Turbulência

Continuo gostando de tudo o que voa, com ou sem asas. O que mudou, é que já não suporto, com o mesmo fair-play, ficar enlatado por longas horas, sofrendo os efeitos da minha já prejudicada circulação sanguínea nas pernas. Eu preciso levantar-me a cada hora, para “dissipar os formigueiros”. Como apaixonado pelas coisas aeronáuticas, segui com todo o interesse a lenha caótica a bordo do 777 da Singapore Airlines, provocada por inesperada e fortíssima turbulência de alto nível a mais de 35000 pés em dia claro. Bastante gente ferida, um óbito e uma escala de emergência. As notícias de que o avião “mergulhou” 6000 pés “pela força da turbulência” são mesmo ridículas. Tão ridículas quanto atribuí-las às “mudanças climáticas”. A verdade absoluta é que havia grande número de passageiros “dissipando os formigueiros” fora dos seus assentos, à mercê das forças a que todos são submetidos, se de repente se encontra o caminho esburacado. Quanto ao mergulho, conforme se pode ver no perfil do Flightradar, tratou-se de uma descida rápida controlada e autorizada, para trazer o avião para nível respirável sem auxílio de oxigênio. O risco, acreditemos, existe, toda a vez que soltarmos a fivela do cinto…

Intermezzo

Na TV, embrenhei-me de novo num dos jurássicos episódios de pré-históricos seriados, que me tirou a atenção de mais atuais e tristes acontecimentos que tanto machucam meu coração. Desta vez deliciei-me com uma das mais interessantes ações de Vera Stanhope, Chief Inspector Detective, até que repentinamente, a porcaria do sistema falhou e pronto, lá fui eu de volta para a música do Youtube. Acontece que o acaso me serviu a que eu elegi como a mais extraordinária e retumbante performance da por mim tão amada e admirada área da Raínha da noite da ópera Flauta mágica, na fantástica voz e interpretação cênica de Diana Damrau!…

Amar

Os anos vão decorrendo,

a paixão terá amainado;

Mas o carinho vai crescendo,

ao amor sempre amarrado…

Perguntaram-me num belo dia

Se eu sabia o que era amar

Eu disse que sim, que sabia,

ainda que do meu jeito peculiar…

Utopias

Por mais chocado que me sinta com o sofrimento, perdas e mortes com o apavorante período de violência dos elementos da Natureza em várias regiões do planeta, sigo cético e negacionista irredutível, no que concerne a considerar que os acontecimentos meteorológicos extremos cessariam, caso a humanidade descartasse totalmente a tecnologia e retornasse às cavernas…

Diabólicos tempos

Escutar ou ler do dia a dia, é uma pavorosa experiência de assustadora realidade da qual tento, debalde, livrar-me. Por isso, para além das leituras mais amenas e da música, dei em ligar a TV e optar pela relativa violência servida nos velhos seriados policiais, há vários anos repetidos ad nauseam. Pelo menos eu sei que aquilo que ouço e vejo, conquanto sugerindo violência, são dramatizações urdidas na forma de entretenimento. Nos meus oitenta anos, sinto-me cansado e desejoso de alhear-me de tudo, já que todas as desgraças, guerras e disseminação de diabólicos poderes e revoltante inversão de valores acontecidos no decorrer da primeira metade do século XX, estão de novo presentes e em dobro, um século decorrido…

Bolo-Rei fora de época, só Bolo-Rei de qualidade duvidosa. Mas eu queria comer Bolo-Rei, mesmo de baixa qualidade, acompanhado de um vinho branco bem seco, de boa cepa alentejana de, no mínimo 13º GL. E assim aconteceu, porque eu assim o quis. Esse desejo aflorou, após eu haver desabado com todo o meu peso, de peito e focinho, no chão que eu estava diligentemente aspirando com um potente AEG! Certamente que ganhei um enorme hematoma sobre as costelas, tal a forte dor que sinto no meu peito, mas, pelo menos até este momento, sob os efeitos do tal néctar alentejano, não tenho nenhuma intenção de ir procurar onde fazer um raio X para ter a certeza de que não tenho nada quebrado. O pior é que eu gemia alto ainda estirado no chão, apertando o lado esquerdo do peito, quando a Nina veio acudir e achou, muito legitimamente, que eu estava tendo um ataque cardíaco!…

Gripe

Poucas situações me fazem tão irascível como um forte resfriado com tosse e demais componentes. Fico sem vontade nenhuma de conviver e ver pessoas, até porque tenho ganas de me esconder de mim próprio. As mulheres aproveitam para alfinetar que os homens deveriam ter um filho para saberem suportar dores e incômodos e deixarem de “ser frescos” ao enfrentarem uma simples gripe. Mas esta minha gripe, ou resfriado, ou que lhe queiram chamar, está durando muito tempo! Será que eu tenho mesmo de ir ao médico?…

De Macho

Caminho a passo apressado ma non tropo, ruminando qual seria o tipo de semblante a usar ao chegar ao salão de beleza, trazendo a chinelinha certa; “Qualquer coisa menos rir”, pensei; “cara de macho”; e acrescentei reforçando: “macho alfa”, de preferência. A insegurança, claro, havia sido criada por mim próprio, alguns minutos antes. Eu conto: A Nina foi tingir o cabelinho e, enquanto o fazia, decidiu tratar e embelezar as unhas dos pés e mãos – coisa normal e até aí, tudo bem. A coisa começou porque eu fiquei em casa e ela me ligou: “Escuta; eu decidi fazer o pé e preciso que me tragas aqui uma chinelinha que podes encontrar na sapateira do meu lado” – pontoevírgula. Solícito, lá fui eu desincumbir-me das ordens recebidas, entregando-lhe, na presença da mulherada, a chinelinha por mim escolhida. Ela era linda, discretamente rosa e, a meu ver, muito fofinha e tesuda. Mas a chinelinha de quarto que eu tanto gosto de ver nela na intimidade da alcova, parece que não iria servir para sair na rua de volta a casa, preservando as unhas com o verniz ainda não curado! Eu digo a vocês: A gozação foi indescritível e, como imaginam, eu me senti o babaca mais imbecil da história recente de qualquer lugar conhecido ou não. Mas eu fiz valer naquele momento e de novo, o verdadeiro valor de carácter e colhão roxo de um petroleiro vezeiro no arrisco à vida e valente pra caray: Fiquei sentado e não arredei pé esperando por ela, com raiva contida enquanto interpretava sorrisos mais ou menos descarados…

Meio século

Não esqueço, Não perdoo.