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Archive for the ‘Uncategorized’ Category

Tento…

Tento não temer o porvir

no vestíbulo de um novo ano (mas…)

Posto que o findo foi tão insano,

que mais no prato nos poderá cair?

Tento o próximo futuro enxergar

com grandes doses de ânimo;

Mas após o histórico analisar,

o novo ano está é de apavorar

e o que resta é mesmo o desânimo…

Vamos lá: ÂNIMO!!

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Eu próprio

Sapiens

É vero que o meu grande problema sou eu próprio. Penso que se eu pudesse destacar-me de mim e de mim lograr esconder-me, poderia ser “aquela” outra pessoa que jamais consegui ser. Ou não, quem sabe?…Respiro fundo com algum desalento após falhar, uma vez mais, na tentativa de apontar “aquela” pessoa que seria o meu paradigma. Seria eu capaz de sequer definir um paradigma que apenas vive no meu imaginário? Afinal, se reconheço o meu imaginário como um universo impossível, a minha pretensão não passa de mais um dos absurdos desse mesmo absurdo universo. Resta-me a emotividade como prova de que tenho uma alma. Alma legítima, minha, tão ou mais gentil que a de Camões e igualmente emotiva. Talvez até mais…

 

…Soluço, até se a lágrima é furtiva,

a tal ponto minha alma é emotiva

e arrasta meu coração…

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Em frente

sombras e vapores

“Reuno os trastes

que a memória guarda

ao branco da página e

ressuscito meus fantasmas…”

 in “Frágil Armação”, Alberto de Queiroz

 

Abandonar o abandono e voltar a postar, com alguma regularidade, as Mukandas que tanto outrora me divertiam redigir. Divertiam-me e alimentavam-me o ego mesmo que, não raramente, desse em flagelar-me com autocriticas e ferinas palavras. Devo, por conseguinte, deixar de enxergar nas poluídas águas de regatos sociais cada vez mais contaminadas por coliformes fecais de intolerância e insulto, a justificação para isolar-me. Ao mesmo tempo, a época em que o tempo era propriedade quase exclusiva do trabalho, simplesmente expirou.

Em frente, pois…

 

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…E chegou ao fim esta missão que poderá ter sido a minha última. Deixei para trás uma gigantesca cidade engolida nas águas de um impensável dilúvio. Sabemos, ou pensamos saber que as forças da natura podem tornar-se violentas e incontroláveis. No entanto, sempre somos e seremos surpreendidos pelos elementos. Houston, locomotiva da indústria do óleo e gás, encontra-se paralisada afogada num desastre natural sem precedentes e de consequências sociais inimagináveis. Para nós, habituais visitantes, cíclicos “habitantes” e amigos desta inesgotável fonte de tecnologia do petróleo da qual sempre bebemos, é chocante constatar que o gigante é, afinal, fragilidade…
Enquanto voo por sobre o Atlantico de volta a Lisboa, o meu pensamento corre para as famílias de colegas, atuais e antigos, mas amigos queridos, todos eles e tantos outros ilhados pelas águas e em grave risco de se verem compelidos ao traumatizante abandono de seus lares e bens com tanto trabalho e esperança adquiridos.

 

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On the road again

 

…e aqui me acho uma vez mais cruzando ares sobre mares em direção a Houston, que julguei nunca mais rever. Never again, sentenciei! O que iria eu fazer a Houston se não fosse por algum motivo de trabalho ligado aos equipamentos da área de óleo e gás? Eu retirei-me disso! Eu aposentei-me. Pelo menos assim havia decidido. Mas a decisão carece afinal de consistência e isso de certa forma me perturba. Por outro lado, nunca me senti mais vivo, altivo, ativo, capaz, sagaz…Aos setenta e três isso me alegra muitíssimo, sobrevivente de recentes sustos. E devo regozijar-me porque a minha maisquetudonestavida ficou até orgulhosa, mesmo ficando só de novo por algum tempo. Saudade até que é bom, afinal, e alguns dias de ausência turbinarão reencontro e coisa et al…

 

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Porto-Pontes (1 of 1)

Sou e não escondo, nascido na invicta e belíssima cidade do Porto. O que equivale a dizer que nada me impede ou incomoda de em qualquer momento afirmar-me natural do “Poarto, cum carailho!…”  Isto por ser o Porto, por tradição, uma cidade onde aprender e aplicar palavrões desde a mais tenra idade é, em paralelo com a feijoada com tripas, parte importante no crescimento saudável de um verdadeiro filho da terra, carago!

Amarelado com uma desgraceira desastrosa chamada “Ponte das Barcas” durante a invasão francesa, o portuense tratou de solucionar o problema de travessia do Douro: Desde 1843 até aos dias de hoje, fez construir sete pontes das quais só a primeira, tipo pêncil foi desmontada. Por conseguinte, cruzar o rio Douro de carro, de comboio, de metropolitano ou a pé mesmo, é só facilidade e ainda desfruta de uma vista esmagadora de tão bela.

A minha velha cidade ficou nova e de tal forma atrativa, que fervilha de gringos o ano inteiro. Estreitas vielas onde outrora havia putas esfolando cabritos na madrugada, agora são passagem constante de turistas procurando locais pitorescos, restaurantes típicos de pratos tradicionais ou para simplesmente comer uma francesinha (não se trata de comer uma francesa) e tomar excelente vinho. Visitar a minha cidade, é sempre uma diversão especial para a minha mais-que-tudo, porque eu vou recordando em voz alta todos os lugares e recantos por onde andei e onde aprendi os mais requintados e exclusivos vocábulos…

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Nina no forte (1 of 1)

“…E assim, escoa-se o tempo pelos drenos desta vida…”

Enquanto assim pensava, retirava diligentemente da garagem o pequeno C3, assistido pela minha maisquetudo. Finalmente ela entrou no carrinho e, enquanto afivelava o cinto, lembrou:

­­­–Agora sim, nós somos verdadeiramente companheiros. Há dois meses que não sei o que é sair de casa “sentigo”!…

­­Fiquei algum tempo em silêncio, aparentemente entregue à condução do carrinho. Pela minha mente, porém, fluía em alta velocidade a lembrança de décadas de ausência, de agruras e riscos das minhas batalhas nas bocas dos poços no meio do mar, em mais de metade perdida da minha vida familiar, reduzido a um mero visitante do meu próprio lar…

Apressei-me a afastar o passado e cutuquei a onça com vara curta:

–Mas também tivemos alguns desentendimentos desde então. Disse eu rindo.

–É verdade, brincou. –Mas nunca por minha culpa, porque eu sou muito boazinha!

“Leonina”, pensei, “pode até ser boazinha, mas aprendi que é sempre bom permanecer vigilante; Por isso, desta vez não esqueci seu aniversário!”

Esquecer o aniversário dela, o meu, os nossos, é coisa tão intrinsecamente minha quanto é característica dela jamais esquecer as datas importantes de todos os do nosso círculo, sejam ou não da família.

FELIZ ANIVERSÁRIO, NININHA!

 

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casinha branca

O tempo corre célere e dou-me conta de que já se passaram três semanas inteiras desde que chegamos à nossa velha e acolhedora terrinha! O balanço do que produzi nesse lapso de tempo é muito frustrante e até perigosamente estático, para quem há tão pouco interrompeu os hábitos cotidianos de uma vida de intenso trabalho. Dir-se-ia que foram três semanas de quase absoluto repouso em casa, até que a insuportável vaga de calor se afastasse. Finalmente o tempo esfriou para uma temperatura mais amena e gostosa, permitindo-nos comemorar o dia 30 de Junho, quinquagésimo quarto aniversário do início do nosso relacionamento, dando uma de gringos: Gastamos boa parte do dia em “Sightseeing Tours” por Lisboa!! Isto faz todo o sentido, porque passamos por muitos pontos pelos quais normalmente não passaríamos. A parte negativa de fazer esse tour num dia de trabalho, particularmente numa sexta feira, é que o tempo perdido no trânsito chegou a ser, para mim, exasperador.

 

Hoje, primeiro domingo de julho, o calor parece ter voltado. Duas semanas antes viajamos para as cercanias de Grândola, “Terra da fraternidade” no Baixo Alentejo, convidados para passar o domingo com amigos que ali têm uma pequena propriedade. A região é pavorosamente quente e seca, mas,  para além da cortiça, produz vinhos e azeite de altíssima qualidade. Produz também poetas de alma imensa como Florbela Espanca e cancioneiro popular tradicional único de grupos cantando “à capela”, hoje considerado patrimônio imaterial da humanidade, em longos serões generosamente regados em tabernas típicas.

 

 

Verão do Além -Tejo

 

Nos caminhos do Alentejo

é sombra e água o que desejo,

porque aqui o calor não é léria

e enfrentá-lo, é coisa bem séria…

 

…E nos caminhos inteiros,

há exuberantes sobreiros

muitos deles desnudados!

 

E há secura na erva e capim,

gravetos  mil, feito estopim,

para os fogos ateados.

 

E há casinhas bem branquinhas,

de janelas tão pequenininhas

que parecem até brinquedo!

 

Mas elas têm cada paredão!…

capaz de isolar este calorão

e dentro delas ficar quedo!…

 

E há poetas nessas casinhas,

que na quietude e solidão

fazem versos tão ridentes

a esta terra e às suas gentes

que os cantam com paixão…

 

 

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outrosmoinhos (1 of 1)

Da casa da minha irmã na zona rural de Palmela até ao bairro do Liceu em Setubal, são cerca de treze sinuosos quilômetros por entre velhas e novas construções, terrenos e pedreiras nas pitorescas vertentes dos montes, caso optemos por um desvio pela velha e estreita estrada da Baixa de Palmela. Velha, estreita, mas de piso excelente e com boa sinalização, se considerarmos tratar-se de uma via que poderíamos chamar de rústica. No último sábado dia 17, a meio da tarde e no momento em que dezenas de pessoas eram imoladas no inferno do Pedrógão Grande, observamos que o termômetro do pequeno C3 exibia espantosos 47 graus celsius de temperatura externa, enquanto o céu escurecia e ventos fortíssimos eram sentidos. Logo que deixamos o carro, notamos que os fortes ventos estavam aquecidos como se houvessem passado por unidades térmicas! Negras formações de nuvens deslocavam-se rapidamente, enquanto extravasavam sua enorme carga estática em relâmpagos e trovões. Nem uma gota de chuva caiu nas áreas que percorremos, sugerindo que as gotículas que formavam aquelas pesadas nuvens terão sido evaporadas pelo intenso calor…

De volta aos tempos de infância, recordo-me viajando em transportes ferroviários propelidos por locomotivas a vapor tendo por combustível a lenha e o carvão soltando fagulhas. A velha linha de Barca d’Alva serpenteava ao longo da margem direita do Rio Douro em direção à fronteira de Espanha, hora suspensa sobre o impressionante vale de socalcos entalhados nas encostas plenas de produtivos vinhedos, hora através de florestas de pinheiros resinosos. Acreditem-me, não me lembro de acontecerem incêndios florestais. Muito menos com a trágica constância e magnitude do que neste momento vivemos. Algo de muito grave se passa, seja pelas condições climáticas, por erradas políticas florestais, por falta de cidadania e amor à terra natal, por tudo isso junto…

Precisariam os velhos Lusitanos – Hoje de Novo – assumir Portugal?.

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—Mexeste no meu celular!

—Não, não mexi…

—Mexeste sim! Eu não o deixei nesta posição!

—Pode ser que tenha se deslocado, porque mexi na bagunça em torno dele.

—Xereteaste o meu telefone, isso sim!

O homem riu, enquanto manuseava seu próprio celular e negava veementemente.

—Qual é a graça? Acho um baita de um desrespeito invadir a privacidade do meu telelé!

O homem deixou de rir e reagiu com mais veemência elevando a voz e chapando seu próprio celular contra o tampo da mesa:

—Porque diabos haveria eu de querer policiar o teu celular?!!…

—Isso!!! Dás na mesa o soco que querias dar na minha cara!!

O quiproquó do velho casal parecia, portanto, desaguar para uma acusação de violência doméstica e o homem imaginou a mesa sendo levada para um exame de corpo de delito e formalizar na mariadapenha uma queixa por agressão física do seu tampo. A mulher saiu de cena para voltar em seguida e anunciar que ia sair para uma caminhada.

Saíu, bateu a porta, mas deixou o seu celular à mão sobre a mesinha da sala!! Nesse ponto dos acontecimentos, o homem esforçava-se por entender como tão fútil razão pudesse dar lugar a uma altercação e amuos mais próprios de crianças que de adultos idosos. Até que lhe ocorreu que a exagerada reação da esposa só poderia ter um motivo: Poderia muito bem haver coisa naquela coisada!…

Olhou para o celular e sentiu um desejo irresistível de, agora sim, devassar todos os segredos porventura ali contidos. Para isso, pensou, é preciso medir com acurácia e desenhar num papel as coordenadas do celular em relação a algum ponto de referência na mesa. Também era necessário medir rigorosamente o ângulo do aparelho em relação à aresta da mesa e para isso era necessária a utilização de um transferidor que não tinha à mão…

Mas era, enfim, muita mão de obra e o homem acabou desistindo dessa besteira e sintonizou a televisão no canal dos mistérios da Agatha Christie.

Pelo sim pelo não, no seu caderninho de apontamentos escreveu: “Comprar um transferidor”…

 

 

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