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Archive for the ‘Uncategorized’ Category

Revelo-me e rebelo-me amiúde contra uma paralela identidade que em mim julgo habitar e cujo difícil, irascível e depressivo temperamento nem sempre logro controlar. O pior é que com demasiada frequência eu ofereço-lhe meu próprio apoio, particularmente nos momentos em que me encontro com a tristeza, como se me sobrassem razões para com ela, com a tristeza, sair por aí de braço dado. Nesses lentos e tortuosos passeios, flagelo-me e digo que…

 

“…nada, afinal, ao longo da vida aprendi!…

Na verdade, acho que até desaprendi

tantas e valiosas lições do passado;

Reconheço-me em pleno retrocesso,

a memória parece ter entrado em recesso

deste jeito, esquecido e desinteressado…”

 

Depois, de regresso a mim, de mim sacudo diligentemente os contaminantes antes de me encontrar com ela, com a minha maisquetudo, minha alegria, abraçá-la, beijar seus lábios e com ela sair por aí de braço dado. Nesses lentos e maravilhosos passeios, massageio-me e pondero que…

 

“…devo «curtir» o todo do futuro que me resta

do presente viver melhor tudo o que presta

e que no dia a dia surge e se me oferece;

Devo extrair o que de bom possa encontrar

todas as belezas do meu mundo fotografar

e, sobretudo, nunca cansar de te amar, amar…”

 

 

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Colega de muitas aventuras e agruras no mar lembrou-me sua existência através do Skype. Disse-me que sobrevive com sérios problemas cardíacos e que achava que eu não queria mais falar com ele, já que eu resistia a responder às suas mensagens. Dou-lhe razão, mas não tenho nenhuma razão para evitá-lo. A não ser pela mesma razão que me leva a evitar-me a mim próprio. Contou-me de uma próxima “cirurgia de coração aberto” para consertar uma válvula, e do seu afã de resolver as pendengas da vida, para que sua atual esposa tenha tudo claro e escrito em testamento. Reconhece ser uma operação de risco, lembrando-me com isso, os vários riscos que eu próprio corro, sem que haja em algum momento pensado em testamento. De alguma forma, essa simples palavra confunde-me e pode até drenar alguma porção de autoconfiança da qual sentirei depois falta. Nesta idade, autoconfiança não se encontra no dobrar da próxima esquina. Acho que a nossa querida Poeta Alda Lara tem a ver com esta minha reação de melancolia e tristeza ao soar a palavra “Testamento”…

 

“À prostituta mais nova

Do bairro mais velho e escuro,

Deixo os meus brincos, lavrados

Em cristal, límpido e puro…

 

E àquela virgem esquecida

Rapariga sem ternura

Sonhando algures uma lenda,

Deixo o meu vestido branco,

O meu vestido de noiva

Todo tecido de renda

 

Este meu Rosário antigo

Ofereço-o àquele amigo

Que não acredita em Deus…

 

E os livros, rosários meus

Das contas de outro sofrer,

São para os homens humildes

Que nunca souberam ler

 

Quanto aos meus poemas loucos,

Esses, que são de dor

Sincera e desordenada…

Esses, que são de esperança

Desesperada mas firme,

Deixo-os a ti, meu amor…

 

Para que, na paz da hora,

Em que a minha alma venha

Beijar de longe os teus olhos,

 

Vás por essa noite fora…

Com passos feitos de lua,

Oferece-los às crianças

Que encontrares em cada rua.”

 

(Alda Lara, Benguela, Angola)

 

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Testamento

Eis-me aqui, ainda vivo, vivo!

Ainda nem fiz testamento…

Aqui estou eu, ainda ativo!

Brinco de jovem forte e altivo

Ninguém me escuta um lamento!…

 

Pois sim, digo pra mim;

 

Bem que tento me enganar

Mas idade é coisa séria

Meu tempo está a minguar

Não adianta bravatear

E soltar toda esta léria…

 

O testamento, dizem, é devido

Mas testamento do quê, por favor?

Tudo que em vida haja auferido

Deverá seu crédito ser deferido

Integralmente ao meu Amor

 

Epitáfio, disso eu não careço

Minha carcaça o fogo vai queimar

Em cinzas o destino que mereço

É, em mui vigoroso arremesso

Ser lançado às ondas do mar…

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Tão célere nossa vida se escoa

Tão curta a vida nos parece

Às vezes a vida é tão boa

Mas tanto nela se padece…

 

Diz-se que a vida é boa

Mas nem tão boa nem afável

Sobreviver não é coisa à toa

A vida, afinal, é nada amigável

 

A vida contém bons momentos

De ardente amor, amores

Mas não lhe faltam tormentos

E mágoas para alimentar as dores

 

Mágoas que a gente perdoa

mas a mente as não esquece

se a mente não as esquece

como é que a gente as perdoa?

 

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É a maldita palavra “Política” estalar nas imediações e eu me sentir vergastado. Ora acontece que essa ordinária invadiu-nos, está agora omnipresente e o pior: Essa coisa está interferindo no nosso casamento de mais de meio século! A minha reação alérgica a toda essa escumalha compele-me a manter-me afastado de notícias – sequer admito ouvi-las! Como a Nina, ao contrário, passou a viver seriamente os meandros desses malandros em confronto, dei por nós numa estranha frieza…

 

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Ah, Rio!…

de Janeiro a Janeiro,
venerei-te por inteiro,
por décadas da minha vida!
Mas agora resolvi deixar-te…
decidi as costas voltar-te
a ti, que me deste guarida!

Tempos difíceis, ó Rio!

Nem eu posso acreditar
vou friamente te abandonar,
ó cidade maravilhosa,
ou, enfim, outrora maravilhosa…
Lembrar-te-ei com carinho,
ao escutar bossa, chorinho
tua música tão gostosa…

Das barcas o vai e vem
rostos sem rosto que passam,
se cruzam, se ultrapassam
buscando quem está além…
Vozes cariocas na multidão
que contam piadas brejeiras,
escondem verdades inteiras
de mágoa e de solidão…

Irei deixar-te, ó Niteroi,
Gragoatá, Flexas, Icaraí
parte de mim fica por aí, olhaí!
Ainda nem fui mas já dói…
Já dói, já dói!

***

A gente anda, anda, anda…depois desanda!

Dos muitos lugares onde morei no decurso da minha vida, foi a cidade de NIteroi, área metropolitana do Rio de Janeiro, o nosso mais duradouro lar: Exatos trinta e cinco anos!

Ao longo de todo esse período fui, em relação à cidade e região do Rio de Janeiro, do deslumbramento e orgulho de nela viver, até à perplexidade presente. Afloram ainda aqui e ali flashes de paixão em relação a locais, monumentos e natureza; Diferente, porém, da paixão intrínseca e permanente que em mim a cidade noutros tempos gerava.

 

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Vereis, senhores, que ao contrário do que afirmais, não são os políticos seres desalmados. São eles outrossim providos de almas cuidadosamente treinadas e formadas para ocuparem as mais elevadas posições na pirâmide, de onde, entronadas omnipotentes almas-do-diabo, vos exploram, roubam e infernizam, até ao implacável momento em que, sendo eles simples e reles mortais, ao diabo sua miserável alma terão que devolver.

Vereis, senhores, que vós próprios entronastes esses trastes com o vosso descuidado e/ou mui servil voto. Valeria então dizer serdes vós os criadores de tão vis criaturas que dizeis desalmadas…

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Como é belo e suave o teu dormir!…

…e é melodiosa a tua respiração!

Quisera que as batidas do teu coração

o meu coração ainda lograsse seguir…

 

Um dia, há muito tempo, eu escrevi:

 

“Meu coração…

…só pode ser gêmeo do teu!

Vou jurar que, quando o teu peito está encostado ao meu,

os dois corações batem exatamente no mesmo ritmo…

Uníssonos e síncronos! Algo assim como…

Como se estivessem ligados por invisíveis fiozinhos elétricos,

cuja corrente os comandasse para que batam em paralelo,

desse jeitinho, sem sair do compasso!

Coração dependente, este meu coração

Irremediavelmente ligado ao teu…”

 

Meio da noite, desperto, escuto o uivar do vento

Deito de bruços, ouvido bom sobre a almofada

O que escuto é uma amálgama descompassada

do meu arrítmico coração o batimento…

 

Coração dependente, este meu coração.

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Ano Novo…

 

As trilhas de um novo ano nada têm de novo, aprendi. Esse aprendizado foi-me servido ao longo de muitos e muitos anos em que pude constatar que as trilhas da vida envelhecem conosco, tornam-se mais pesadas e pedregosas, resultando em caminhadas cada vez mais penosas…

O “Novo Ano”, é nada mais que um lapso de tempo no tempo, no decorrer do qual se repetirão o Bom, o Mau e o Terrível. Como sempre, uma boa parte do que nos tocar dessas três possibilidades terá muito a ver com as nossas próprias escolhas e opções. Outra parte será integralmente atribuída à fatalidade de um filosófico destino habitualmente dito “traçado” e a que vivalma alguma, por mais privilegiada que seja, logrará fugir.

O doloroso calo na planta do meu pé esquerdo está a dizer-me que no seu sítio permanece e lá permanecerá apesar do novo ano, e deixa claro que, de acordo com o meu destino gravado na base de dados da nuvem, me infernizará sem piedade nas minhas já tão sofridas caminhadas pelas envelhecidas veredas de setenta e quatro réveillons…

 

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VOR Deecaffari

Navegar pode ou não ser preciso, a depender do humor e circunstância. No entanto, mesmo que no meu humor vigente neste momento se encontre fortíssimo desejo de navegar, navegar, navegar através de mares de alterosas e frias águas aproveitando uivantes, propelentes ainda que ameaçadoras e traiçoeiras ventanias, a circunstância amarra-me o humor navegante através de múltiplos nós-cegos aos cabeços do cais reservado aos jurássicos seres que no mar deixaram os sonhos. Porque minhas épicas navegações são agora, pois e tão somente, sonhos exalados de tempos idos, adicionados a uma manifestação de pura inveja dos intrépidos jovens que o poderoso mar enfrentam com ousadia e força maiores que aquelas prometidas pela natureza humana, velejando ao redor do Planeta numa corrida aparentemente insana ao encontro do mesmo: Chegar primeiro para ganhar as vantagens do vencedor porque, como nos tempos dos intrépidos conquistadores, “The winner takes it all”.

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