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Cissa

Cissa de Oliveira é um dos bons nomes da poesia brasileira atual. Sua prosa é igualmente admirável, em contos ou pequenos textos por vezes surpreendentes nos mais variados aspectos. Não escondo minha admiração por esta professora doutora em biologia molecular que consegue, concomitantemente, gerar tão belas peças  no seu laboratório literário! Desisti de resistir à tentação de enfeitar o meu espaço com esta jóia:

“Três horas e meia e uma calcinha preta

A notícia veio pelo correio, entre outras tantas na mesma carta. Numa frase só, assim, como se nem tivesse importância. Finou-se Luiz Antonio Santos, no dia 17 de janeiro. Morte de passarinho. Instantânea. Alguém pode com uma coisa dessas? Asseguro que não. Não nego, chorei um rio maior do que quando ele me deixou pra casar com a moça da outra cidade.

A carta reli, esmiucei diversas vezes sobre a mesa da cozinha, entre uma e outra ocupação. Depois, mãos úmidas de enxugar prato, deixei-as bem deixadas sob o queixo, cruzadas. Má notícia, má verdade. Há tempos que um do outro a gente era coisa fortuita, fumaça rápida, passagem. Mas agora, morto completo, Luiz Antonio, tu parece é fumaça de casinha longe, crescendo, crescendo e crescendo na paisagem. Devia era de minguar de vez, junto com as lembranças todas. Mas qual o quê, então pensei em ficar desavergonhada dos nossos acontecidos, contar tudo em verso, embonitar os escondidos, alardear do calor que tu, só de me olhar, provocava por debaixo das saias, do filho dos nossos reencontros, que eu registrei só no clandestino, assim, como se fosse bebida falsificada. Ao certo, eu devia era botar tudo num livro, Luiz Antonio, num romance. Vingancinha da boa contra aquela que passava o Natal, a Páscoa, o Ano Novo e todos os aniversários contigo. Água com açúcar de cinema, mas cinema. Sessão da tarde. Propaganda de margarina no café da manhã. Desde menina eu tive jeito pras coisas do lápis e do papel. Lembra que eu escrevia cartas pra quem não sabia escrever? Talvez eu deva aproveitar esta ocasião e dizer que quando a notícia era muito triste, desaforada ou dolorida eu inventava um brilho, consertava um tanto. De feio, naquele tempo, bastava a realidade, a pobreza, a sem gracez dos dias.

Ninguém consertou a má notícia da tua morte, Luiz Antonio, por isso eu caraminholei e chorei bem umas três horas e meia. Foi muito? Foi pouco? Depois, enterrei você Luiz Antonio, enterrei pra sempre, não do jeito que eu mesma me prometia ao final de cada uma nas nossas despedidas. Mas foi o nosso filho chegar, eu te desenterrei por instantes. Desenterrei, ressuscitei. Contei teu nome, sobrenome, procedência. Agora ele já sabe que tem pai conhecido. Defunto, mas conhecido. E como todo defunto merece um luto, Luiz Antonio, decidi: hoje a noite eu vou usar aquela calcinha preta e sexy, presente teu. Ela fica meio escondida nas partes, é sabido, mas tudo bem, porque assim como tu dizia sobre as coisas da nossa vida secreta, o que vale é a intenção.”

Cissa de Oliveira

Resplandecência

Ah! Como andam densos os meus dias! Poderia até cortar à faca a mistura que respiro, mesmo enquanto durmo. Em consequência, é diluída e sensaborona a frugral sopa que me sirvo para alimentar o que me resta de sensibilidade. É certo que conto, neste momento, com o doce e fragrante suporte da minha mais-que-tudo, que a tudo renunciou para passar uns dias na quente redoma de vidro, minha domus nesta esburacada, vilipendiada e estranhíssima urbe.

Esta manhã, vejam só, por razões que não sei explicar, o meu espírito se abriu para apreciar o mais valioso bem que ainda conservo: A vida! Dei em analisar em detalhe, tudo e todos que de repente imagino gravitando no meu em torno, como se eu fosse uma espécie de sol, microscópico em tamanho e poder, mas gigantesco em meu ego subitamente inflado ad infinitum!

Ciente e resignado com o fato de que serei sol de pouca dura, procuro aproveitar os instantes de resplandecência para observar e se possível, descrever, as resplandecências que  me rodeiam e me deliciam enquanto sorvo, guloso, o medicinal momento…

                Em cena, a morena,

                tropicana feiticeira!…

                serena, pequena!

                trocista, amena…

                tropicana feiticeira!…

 

                Sua pele é tão dourada,

                seu andar, provocação!

                Ela é da pá virada,

                mexe com a garotada

                que aspira ao seu coração…

 

                E quando a morena passa

                assim tão cheia de graça

                por olhares sempre seguida,

                alegra-se a natureza

                que exulta em luz e beleza

                plena de alegria e vida!

 

Gravura: Di Cavalcanti; Poema: Nelsinho

Cinzas

O sol desta quarta sai de cena e, sem querer, imagino-me cansado dos dias engalfinhado em folias mil, desfiles em blocos, escolas de samba, bailes e farras etílicas… Estranhamente, não havendo feito nada disso, sinto-me tão estafado quanto! Pergunto-me o que vivi eu no decorrer de todos estes dias no país das mil e uma noites carnavalescas: “Bem”, respondo-me envergonhado: “Fiz algumas coisas prazerosas além de trabalhar…”

A Chegada

A Crônica do domingo de carnaval não chegou a ser escrita, não por falta de assunto, mas porque não haveria assunto capaz de se sobrepor em importância ao evento do dia: O retorno da minha companheirinha! O tão esperado dia chegou e eu mal resistia em sair logo para o aeroporto, apesar desse “logo” ser um exagero de horas antes da chegada prevista!

 

A impaciência resultou em vários e vários cafés tomados em diferentes pontos do terceiro andar do terminal 1, enquanto ficava de olho nas telas, que insistiam no “Não confirmado”. De repente a informação mudou: “Contactar a Empresa Aérea”! Gelado e em pânico, dei por mim galopando escadas abaixo e ao longo dos espaços em busca de algum balcão ou de alguém da AA que aplacasse a minha aflição. Ninguém, ninguém…! O meu olho esquerdo, estourado com um derrame, não cessava de lagrimejar, até que a ameaçadora montanha que criei, deu um rato à luz: A aflitiva informação mudou para uma florida “Confirmado para as 10:52”!

 

Agora, com a minha mais-que-tudo junto de mim, resta-me enviar um silencioso pedido de desculpas às mamães dos fulanos que alimentam as telas de informações no GIG…

Desagrado

 

Nada pior do que sentir vergonha do que se escreve!

Algo desandou nos meandros da minha mente

e agora eu dei em detestar tudo o que dou à luz.

Porque é a coragem de escrever o que me dá na gana

que me desafia e me incentiva – algo assim como…

…como se eu me sentisse diferente.

Mas agora eu estou mais diferente,

às avessas do diferente que “nolmalmente” sou.

Devo ousar e resistir escrevendo um (des)arrazoado

de merdices pleno de non-sense,

ou sentar-me e coçar displicentemente o saco

em frente a uma tela de TV transbordante

de non-sense alheio?

O que pela minha alma corre

e pelo meu coração escorre,

só eu posso dar-me conta…

Funeral

Em casa, assisto o canal “E” e choro que nem um bebê na cerimônia do funeral de Whitney Houston!

Ficou difícil, porque os preachers e cantoras sabem como virar um coração mole do avesso, mesmo que avesso a crer…

 

There can be miracles

when you believe…

Modinha

My world emerges from darkness…

As she gets close, she lights up my way!

And fills my soul  with true happiness,

then takes me levitating with her caress

and I fly sensations of a blue jay…

 

 

She’s a dream,  a symphony,

that fills my soul with joy…

She wraps my heart in melody

and floods me  in her fantasy

when she tells me…I’ m her boy…

Feliz Aniversário!

A minha filhinha Mônica, mãe da Lídia, Lucas, Helena e Carolinha, está de aniversário hoje e eu, não podendo estar junto para ajudar os meninos a soprarem as velinhas, aqui fico pesaroso e com saudade de pai e avô…

 

O Blackberry fez “plom” (ou será “plim”?) e eu acordei de mais uma noite de mau sono, com várias dolorosérrimas interrupções por causa das minhas agora tão frequentes câimbras. Dizem-me para eu comer uma penca de bananas, mas eu temo desatar por aí a fazer macaquices. Acordei, pois, com o dito cujo som do telelê e não resisti à curiosidade de ver o que chegara e depois explorar por alguns momentos o que rolava pelo tweeter. Morreu Whitney Houston! Finalmente a Whitney preferiu deixar-nos de vez e fazer-nos, seus fãs, sofrer de uma vez só por sua perda…Também Whitney, nota 10 em todos os seus dons da natureza, não logrou sê-lo nos transes da ventura. Nunca será esquecida…

 

+++++++++++++++++++

 

Sou e reconheço que sou, poupado nas palavras. Havia um colega escocês que me chamava de “Mr. Quiet”, pela minha capacidade de ficar longo tempo sem intervir na conversa ou comentar algo, enquanto os causos rolavam em gargalhadas. Hoje eu desloquei-me de Macaé para Niteroi em transporte da empresa, porque amanhã há trabalho no Rio. Quando fizemos uma parada no “Graal”, dei-me conta de que havia falado non-stop durante todo o percurso! Senti-me certamente envergonhado por tanto encher os ouvidos do paciente motorista com o meu tema: A ridícula administração pública do município de Macaé! Vou policiar-me, prometo.

 

O convite

Contudo, nada me resta

senão manter firme o azimute…

Não ligar ao que não presta,

fazer da vida uma festa,

degustar este vermute,

-sem vodca, por favor!

-com gêlo, ah que calor…

– sim, aceito mais esse quitute!

Um salgadinho, sim senhor…

Do churrasco aceitarei depois

esse franguinho de bom odor

e do vinho branco, com frescor

entornarei um copo ou dois…

Mr. Noble convidou,

não recusei, aqui estou!…

Cheers!