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Chocado

 

Incrédulo, li e reli as inesperadas sílabas: “I-NA-PTO”!! Seguiram-se minutos cruéis, sentindo-me encolher, encolher…sendo reduzido à mais ínfima espécie. Então eu era aquilo? Um Inapto? Foi tudo o que sobrou de mim nesta vida?…Custei a sair do torpor e movimentar-me para algum tipo de reação. Levantei da cadeira e caminhei como um autômato, arrastando comigo aquela sensação de pequenez em direção ao nada. Como se de propósito, uma das boazonas do escritório passou por mim e dirigiu-me um olhar esmagador do alto do seu metro e oitenta e cinco acrescido de impossiveis saltos altos…

A via crucis de médicos e exames continuou e continuará. Mas agora, conto com o atestado cardiológico de que sim, eu posso!…desde que porte as drogas que garantem que a minha pressão sanguínea não fará o mercúrio espirrar no instrumento.

 

Oh!…Já nem eu próprio me entendo!…

Mas que importa? Cá vou convivendo

com a realidade das forças em decadência!

O pior é que aflui em mim este saudosismo

que me importuna feito um tipo de sadismo

e me humilha por essa perda de valência.

 

 

Crônica de hoje

A minha semana decorreu com menos momentos de apreensão, por não haverem voltado aquelas apavorantes tonturas que vinham ocorrendo com crescente frequência. Continuo não sabendo a origem, mas os multiplos exames parecem apontar para a probabilidade de labitintite. O sobressalto da semana ficou por conta da passagem de dois tornados pela região de Dallas-Fort Worth, acertando também Coppell, onde mora a Mônica. Felizmente, só resultou em prejuizos na van, no telhado e alguns vidros quebrados na casinha.

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Estamos em Niteroi, com racionamento de água e medo de sair à rua com tanto salteador sanguinário à solta por aí, impune, livre e protegido. A opção é ficar em casa e gastar o tempo da forma que mais nos aprouver. Terminei de ler a biografia de Egas Moniz e desisti a meio de uma coletânea de artigos com  crítica literária aos livros de Antônio Lobo Antunes. A Nina produziu um bolo que me aportou sabores esquecidos de longínquas Páscoas, quando a tradição era receber em casa a “visita pascal” e nós, crianças, deitávamos e rolávamos nos doces preparados para o padre…

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A Cora Rónai postou há alguns dias um video com uma deliciosa entrevista de Millôr Fernandes ao “Roda Viva”, em que ela própria se encontrava estre os entrevistadores. Toda a minha admiração por mestre Millôr redobrou, com suas respostas rápidas e inteligentes, ácidas apreciações sobre personalidades políticas da época, algumas das quais ainda no cenário presente, sua propensão para um tipo de anarquismo que me comoveu, por ter muito a ver comigo!

Falando em comoção, foi exatamente o que senti ao ver a imagem da Cora, então jovem senhora, com delicioso look de curls e grandes óculos, sorriso imenso da imensa felicidade que vivia e veveria por muitos anos! Pensando bem, ela continua a ter razões para seguir vivendo essa felicidade, porque afinal, seu mais-que-tudo não deixou de sê-lo após seu passamento…

Millôr

Pesaroso e pensativo, procuro respostas para as perguntas que sempre me fiz ao longo da vida, toda a vez que alguém cuja obra me toca ou diverte ou seduz de alguma ou de todas a maneiras que existem, se retira do nosso convívio, privando-nos para sempre daquela expectativa de ver surgir sua última criação, frase de efeito, pensamento, crítica, livro: Porque tinha de ser êle (ou ela)?…

Sei que não existe resposta e agora estou especialmente sentido com o passamento de Mestre Millôr, pondo fim aos meus anseios de que ele pudesse ainda retornar por algum tipo de mágica, ou milagre, ou o que  quisessem chamar-lhe…

Um beijo grande, Cora!

As imagens desfocam e distorcem diante de mim, o meu mundo entra num centrifugador, enquanto todas as minhas forças são empregues na resistência à perda dos sentidos. Algum tempo depois tudo pára abruptamente, uma sensação de enjôo aflora e eu passo as horas seguintes como que caminhando nas nuvens. A ocorrência do disturbio passou a ser frequente e, finalmente, reconheci a necessidade de pedir ajuda. Nos ultimos dias tenho frequentado consultórios médicos e clínicas, que me passaram uma quantidade enorme de requisições para testes ergométricos, dopplers, ultra sonografias e o escambau…

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Tadinha da minha mais-que-tudo! Agora ela se vê forçada a me acompanhar e ficar confinada no green house macaense, enquanto eu vou trabalhar todo o dia. Aquele burgo é insuportável para uma mulher que, como ela, detesta praia. Haja tricot, leitura e internet! Tudo isso, porque virei um fulano absurdamente inseguro e temeroso de estar só no caso de nova ocorrência. Quem diria…O poderoso oilman que se aprazia  encarar os mais absurdos riscos, reduzido a um dependente substrato!

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O Chico Anísio foi-se, finalmente, porque sofrimento tem também seus limites. Ele tinha de fato muitas vidas. Umas duzentas e nove no total, que todavia não foram suficientes para manter seu coração pulsando. Eu, seu grande admirador, digo que o Chico foi, nas artes cênicas, um genial criador de tipos, do jaez de um Fernando Pessoa na literatura.

Meg

Maria Elisa Guimarães, a Meg, é professora de Filosofia especialista em Filosofia da Ciência e Ética e sobejamente conhecida entre os blogueiros pelo seu “Subrosa” , sítio muitíssimo bem frequentado por pessoas  magníficas e surpreendentes da filosofia e das letrinhas. Como as Artes sempre estiveram igualmente em grande evidência nas suas postagens, o Subrosa permaneceu desde sempre entre os mais visitados dos meus mais visitados favoritos. Além do mais, as discussões de elevado nível sobre literatura, poesia e filosofia eram lugar comum e de atração absolutamente irresistível! O espaço de comentários do Subrosa foi sempre um palco permanentemente iluminado e aberto a quem se sentisse com coragem e segurança para nele subir, enfrentar as luzes da ribalta e encenar com paixão o produto da sua criação.

Há muitos meses que a Meg interrompeu o fluxo do Subrosa, em razão da sua frágil saúde. Os projetores apagaram-se, a sala encontra-se na penumbra, mas eu posso enxergar uma réstea de luz vinda de alguma fonte que resiste e persiste em fazer-nos ver, sentir e crer que, em algum momento, de repente, não mais que de repente, tudo voltará a animar-se com luz, sons, vozes que declamam…

 

Aniversário

Entre as relevantes diferenças que encontro no meu comportamento decorrentes do passar dos anos, é a de me sentir gratificado ao receber das pessoas, votos de que  “este dia se repita por muitos e felizes anos…”!  Ao recebê-los, acabo por mergulhar numa espécie de auto julgamento por, na juventude, dar às datas tão pouca importância e sequer me lembrar dos próprios aniversários. Recordo um período em que eu vinha todos os dias a casa ao encontro da Nina para almoçarmos juntos e um dia lá encontrei meus pais e a mesa da sala engalanada. “Oh!” exclamei. “É dia de festa?!!” Mamãe ficou escandalizada assim que deu conta que realmente eu não havia lembrado do meu aniversário. Podem  imaginar quantas terão sido as vezes em que fui surpreendido em flagrante e imperdoável falta naquelas datas inesquecíveis, tais como o aniversário dela, do nosso casamento!…

Muito obrigado a todos os amigos que enviaram mensagens de congratulações

Parece-me terrivelmente longa, esta semana! Muito mais longa que de costume, eu diria…Continuo nesta passada insana e reconheço não ter eu o fôlego que outrora teria. Estou também muito contrariado, porque raspei uma porta da carripana e isso, é claro, me deu uma baita arrelia.

Pretendo, pois, no fim desta extensa semana, ao oitavo ano da sexta década chegar! É evidente que devo comemorar o ter sobrevivido para por mim próprio os contar… Ano após ano, durante tantos anos que, desligado como sou, às vezes me confundo no tempo que ando neste mundo! Mundo do qual não raro na poesia me declaro cansado, mas a que afinal continuo muito agarrado…

Feliz dia Internacional das mulheres para todas as meninas!

Ahrgh!…

Careço encontrar respostas urgentes, para bem de mim e de ti! No entanto, em vez de respostas, só constatações afloram de que não passo de uma espécie de idosa criança, hora irrascível, hora insuportavelmente frágil, mas sempre pronta a tomar decisões idiotas e perdulárias. A redoma de vidro que aluguei por prêço incompatível para te atrair para esta espécie de Cabinda localizada em muito mais ocidentais praias outrora igualmente lusitanas, só serviu para te afastar de mim, tal o calor não sei se cabinda ou senegalês! Rendido ao termo de doze sólidas horas de labor, o velho cretino aqui, rola rampa abaixo da impossível garagem precariamente iluminada até que… Crrrash… – gemeram as latas do nosso pobre carango. Agora, estou no seguinte dilema: Telefono-te, ou…

…Tá! Tu ligaste e eu choraminguei como uma típica idosa criança! Em compensação, estou com ganas assassinas sobre o f.d.p. que me alugou esta fornalha envidraçada.

Coisas de mim…

 

Acreditei por um momento, que seria possivel assumir comigo próprio o “compromisso” de publicar com toda a regularidade uma crônica domingueira. Para isso experimentei-me, envergando a pele de um colunista profissional pago, bem ou ou mal mas pago, a quem não seria tolerada a ridícula desculpa de estar em má fase de criação, et cetera et al…

Esqueci, pois, a por mim bem conhecida característica daquele meu Eu ocasionalmente dotado de algumas ténues fibras artísticas. Por via dessa estranha característica, qualquer manifestação de prazer artístico desvanece-se e torna-se insuportável, a partir do momento em que a atividade se transforma em obrigação, muito principalmente se for paga, amarrada a um contrato, essas coisas do outro lado do que é belo…

É claro que ninguém se acercou de mim e disse que me pagaria alguma quantia amarrada a um frio contrato para eu escrever as minhas baboseiras de blogueiro-poeta-de-ocasião e cronista de fim de semana. Mas eu disse-me a palavra errada no momento errado: “Com-pro-mis-so”! Agora, passo a borracha nas fatídicas sílabas, mas não logrei ainda eliminar seus vestígios…

Riscos

 

Como seria, se fossemos obrigados a elaborar análises de risco para todas as nossas atividades diárias, mesmo aquelas dentro das portas do nosso domicílio, que é lugar sabidamente perigoso? Humm…Acredito até que poderia ser por si só, um exercício de alto risco. Quero dizer: A constatação de se ter uma vida arriscada a tal nível, que levasse a concluir ser preferível sair dela!

Arriscados e aventurosos foram afinal todos os caminhos que percorri ao longo desta minha vida, sem que me ocorresse fazer uma análise prévia dos riscos que correria. Dos vales às montanhas, das montanhas aos rios, através dos mares ou de imensos areais, savanas intermináveis e densas florestas, em perigos e guerras esforçado a que eu logrei sobreviver. Resisti a malárias e paludismos, ao cansaço, fome, sede, ao fogo dos contrários e às mais irresponsáveis bebedeiras. Sequer em algum momento pensei em eventuais riscos que poderia estar assumindo ao não resistir a um grande e interminável amor!