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Saudade

Garimpando fotos meio perdidas no caos do meu HD, encontrei este superclose da minha falecida gatinha Belina, tirada em 2005! Era superativa, destruidora de plantas, mas era também linda e eu gostava muito dela…

Exercício

Frases podem ser tão óbvias que não haveria porquê lhes dar algum destaque, não viessem elas da boca, ou da pena de celebridades. Algumas revistas incluem um par de páginas com  “quotes” de figuras da literatura, das artes e da política, como se  todas aquelas frases fossem o suprassumo da genialidade e da verdade irrefutável. Divirto-me, analisando cada uma delas ao detalhe até que me sinta satisfeito no meu julgamento, puramente pessoal, bem entendido. Boa parte dessas frases parecem pinçadas de livros ou artigos, pelo que, não raramente, perdem sua substância ao serem reduzidas à condição de simples “statement”. Ao final do meu exercício, reverencio os autores das frases realmente inteligentes e plenas de conteúdo.

Releituras

Eu teria meus desasseis quando um amigo do meu pai mandou lá para casa um caixotão cheio de livros até à boca! Devorei avidamente uma coleção inteira das aventuras dos corsários das Caraíbas de autoria de Emílio Salgari e três volumes enormes de Alexandre Dumas: Os Três Mosqueteiros Volumes I,II,  e  “Vinte Anos Depois”. Nunca ao longo da minha vida voltei a ver essa obra de Dumas em publicação com tal extensão. Continha também dentre outras, obras de W. Somerset Maugham, John Dos Passos, Steinbeck, vários títulos de Hemingway em edição francesa e até o clássico da literatura erótica “O Amante de Lady Chatterley”, que o meu pai se apressou a segregar sem no entanto fazer muito para evitar sua leitura.

A razão do tema deste post é estar, tantos anos depois, relendo “O Crime do Padre Amaro”, que igualmente fazia parte dos volumes ofertados e que ao tempo li com enorme interesse. O exemplar que estou folheando é de encadernação antiga obviamente comprado em um sebo, que ficou na estante fechado e ignorado por anos a fio junto a outros títulos de Eça, intocados depois que a Mônica se formou em Letras. A velha capa castanha solta fragmentos nas minhas mãos e roupa, enquanto fragmentos das emoções juvenis de então afloram e se entrechocam com as do quase setentão…  

De efêmeros amores

Juntam-se os trapos,
roupas e farrapos,
revolução no roupeiro!
Duas escovas de dentes,
mais acessórios e pentes
dão alegria ao banheiro…

É um “Sei que vou te amar,
minha vida te dedicar”,
por entre beijos de paixão!…
Amor explodindo em frenesi,
corpos suados, fora de si,
doces delírios em turbilhão…

Pra eternidade é este amor,
que nada, seja o que for
será capaz de abalar!
Almas gêmeas que se unem,
apaixonadas se fundem,
pra vida inteira enfrentar…

Mas um dia (há sempre um dia)!
Outro alguém rouba a fantasia
da eternidade desse amor…
Volúveis são os corações,
de curta dura as paixões,
Oh! Perjuras juras de amor!

Depois, é o déjà vu…
É um “Je ne t’aime plus”
com fria determinação!
Agora me digam, doutores,
como enfrentar os horrores,
desses males da separação?

(Publicado anteriormente no “Recanto das Letras”

 

 

São cinco deles! Iguais, sincronos, irrefutáveis. Os colegas que estão em Okpo, no meu pensar, envelheceram doze horas em relação a mim e isso me deu um prazer insano que deveria preocupar-me! Confesso, portanto, que fiquei bastante perturbado com a novidade de todos esses contadores de tempo bem em frente dos meus olhos. Por um período suficientemente longo para prejudicar o andamento do trabalho pelo o qual sou pago, imaginei os relógios a derreterem enquanto se dobravam em agonia. Depois, milhares de carrilhões tocaram em unísono infernal dentro do meu cérebro, até que baixei a altura da minha cadeira e os malditos ficaram encobertos pela tela do meu monitor…

Aniversário

Presente em quatro quintos da tua vida, confesso não saber dizer em quantos desses quintos eu estive presente. Estou convicto apenas de que nenhum dos quintos foi dos infernos, mesmo que pesando os períodos em que dividimos o pão que o diabo amassou.  Pela quadragésima nona vez desde que caminhamos juntos, eu beijo teus lábios enquanto repito “Feliz aniversário, Nina!”. 

Alvíssaras

A poderosa ressonância penetrou

no âmago da minha massa cinzenta…

Tanto que escarafunchou e pesquizou,

mas ao seu termo lá  não encontrou

origem pra tontura que me apoquenta.

Mas por tal sou grato e deveras exultante!

Imagino que se essa máquina xereta

lá encontrasse algo feio e apavorante,

minha tontura deixaria de ser preocupante

mas minha vida estaria bem mais preta…

 

Coisas da TV

Parece faltar-me vocação noveleira, a julgar pela minha reação quando alguma das que estão em curso aparece na tela. No entanto, se me levanto e me isolo no quarto, é para assistir a algum dos vários CSI’s ou correlatos, cujo interesse e qualidade estão em franca queda. Pior ainda, é que perco meu tempo e rio a bom rir com as besteiras que correm soltas em “Fashion Police”, na esculhambação do show da Chelsea Handler ou no inimaginável “The Soup”! Juro que, se me pego a assistir e gostar dos shows das Kardashians e das muchachas do Heffner, eu suicido-me a mim mesmo e fujo pra Coréia do Norte…

À hora do Fantástico Show da Triste Vida, eu costumo jogar-me de mergulho no mundo de Morpheus, desligando a chave geral e, por segurança, todos os interruptores secundários. Por isso, não passei pelo desprazer de ver a dona Collor de Mella, a ex, dizer pro povo de toda a sua desgraçada situação com tão magro e desproposital numerário que lhe é mensalmente destinado como remuneração ao seu sofrido far niente. Penso que, se burrice pessoal fosse música, a dona Collor-ex seria uma banda tocando “Lo que se pasa es que la banda esta borracha”.

Prazer de Descrente

Sentado na minha confortável poltrona acolchoada com a maciêz do meu descrêr, prezo-me e regozijo-me por não me encontrar entre os incontáveis milhões de seres biológicos deste pequeno planeta, amarrados a mais ou menos obscuros preceitos e preconceitos filosófico-religiosos que regem e dominam suas vidas por meio de forças diversas: Das mais violentas e sanguinárias autocracias do absolutismo religioso armado e cruel, àquelas de foro íntimo. As vergastadas sanguinolentas podem não ser a mais contundente forma de auto inflingir estúpido sacrifício pelo sofrimento. A auto flagelação pode incluir o não menos estúpido e não menos cruel processo de aniquilação pessoal em seus valores  profissionais, estéticos, de saúde física e psicológica…

Reflito…

Gil e Cae dispararam meu sensor de proximidade do portal de entrada para o recinto da sétima década e eu passei a refletir um pouco mais, despedindo-me de boa parte das minhas certezas. O meu ideal seria encontrar nesse recinto, uma pousada: A Pousada da Sétima Felicidade. Ali, eu teria um casulo só meu, silencioso mas não hermético, para permitir a entrada da minha mais-que-tudo sempre que ela estivesse disposta a aceitar os decibéis do meu silêncio, o sui generis do meu estranho amar, a vibração do meu ressonar. No meu casulo, eu teria espaço para caminhar suavemente em trilha circular numa órbita em torno do meu outro eu, com destino a destino nenhum. Hóspede de mim próprio, poderia, desligado de todos os medos, desenlear do caos as ideias armazenadas no silo que é a minha alma e escrever sem parar, em prosa e verso, até que meus órgãos se recusassem a prosseguir…