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Concedo…

…que ao manter o blog abandonado, quedo-me numa angustiada sensação de que estou a entregar-me  a uma espécie de fatalismo de que tudo em mim desliza com lentidão vertiginosa  para um vazio imperscrutável. Posto que o blog tende a refletir a intimidade do meu humor em relação aos momentos que me afligem, colido com a barreira de um medo recém adquirido de expor-me. Talvez por resultado de multiplos e recentes mergulhos no universo de Pessoa, quando releio muitos dos meus textos defronto-me com estranhas e preocupantes coincidências de pensamento. Porque são textos bem anteriores ao meu aprofundamento no trabalho de Pessoa, fico desconcertado e na dúvida de se me permitirei ou não, voltar a atrever-me a exteriorizar meus loucos e belicosos tumultos íntimos.

Aaah!… Mas porque será que tenho tanto sooono?!

Jogada

Ora vejam!…Não tenho mais os cinco relógios na direção da minha vista do outro lado do meu monitor! Mudaram-me de sítio de trabalho e eu não tenho porque queixar-me disso. É certo que o movimento neste  tabuleiro afastou-me algumas casas da porta de saída, mas não sei dizer se isso é bom ou ruim porque, nesta altura da vida de peão deste xadrez, eu confesso-me incapaz de prever as próximas jogadas das pedras mais poderosas…

 

O chão estava muito frio, todo o meu lado direito incluindo a cabeça, doíam como se tivesse sido atingido por…sei lá…alguma coisa contundente. Eu gemia e levei tempo a realizar que estava ao lado da minha cama. Sim, eu caíra da cama sobre a cerâmica do piso, porque não tenho uns míseros tapetes no greenhouse que estupidamente aluguei em Macaé. Ainda no chão,tateei sobre a cadeira que serve de mesinha, porque o quarto só tem uma unica do lado de bombordo e eu prefiro deitar do lado de boreste, onde não tem espaço para outra.  Encontrei o Blackberry e constatei: Três da matina!!! Escalei a cama para ajudar-me a ficar em pé e depois coxeei penosamente em direção ao  banheiro. Até o dobrar-me para levantar a tampa do sanitário exigiu um esforço danado acompanhado de gemidos e doces palavras. Tentei pôr minhas ideias em sintonia com a realidade, até para não errar o alvo, e tratar de fazer um ponto da situação: a) Ipso facto – Eu caí da cama durante o sono ; b) Tal incidente, que me lembre, jamais havia acontecido em toda a minha vida; c) As áreas amassadas do meu corpo doíam mas nada indicava algum “componente” quebrado.

Voltei para a cama com um sorriso amarelo de vergonha, porque o meu outro eu ria abertamente na minha cara pelo insólito. O filho-da-puta encarnava em mim como se nada tivesse a ver com o acontecido! Deitei de ventre pro ar e logo, instintivamente, me afastei do “precipício” em direção ao meio da cama. Gato escaldado de água fria tem medo e eu sentia-me dorido demais para assumir o risco de um repeteco. Surpreendi-me por me surpreender sem auto confiança: Afinal, pensei, se os meus sistemas deixaram que eu despencasse enquanto dormia, essa porra vai acontecer de novo, ou não acreditasse eu nas teorias do Murphy. Engoli em seco: Estaria eu, velho guerreiro, me cagando de medo do escuro e de cair da cama?!…

O meu sono foi-se e, pela primeira vez pós tombo-da-cama-abaixo, eu pensei nela. A minha companheirinha de cinquenta anos (ou quase) por certo que dormia naquele momento um soninho bom e descansado sem a perturbação do meu ressonar. Imaginei  acordá-la, ela ensonada e aflita atendendo o telefone lá na casinha em Niteroi e eu chorando: “Eu caí da caaaaaaama!…snif…!”. Acabei  por rir imaginando a reação dela e dos tapas que eu iria tomar. Concluí que, velho quase-setentão, gosto de chegar nela dando  uma de criança. Acho que envelheci mas não fiquei adulto.  De repente ocorre-me: Se a minha amada estivesse comigo, eu estaria agarrado a ela e não teria caído!…

Oooops! Sobrou pra ela a causa do meu despenque!…

Crítica (Adulta)

Alguns posts atrás eu fiz referência a um caixote cheio de livros doados por um amigo da família no início dos anos 60. Entre os muitos volumes, encontrava-se o must da época em literatura erótica: “O Amante de Lady Chatterlay” que, como é óbvio, se destinava exclusivamente ao meu pai. É extraordinário que, decorrido mais de meio século, eu tenha tão presente a suprema excitação que me tomava as entranhas enquanto devorava e saboreava sílaba a sílaba, frase a frase, capítulo a capítulo, montando minuciosamente na imaginação cada uma daquelas  cenas tão poderosamente carregadas de conteúdo puramente sexual! Esmagado pela avalanche hormonal e pela adrenalina da leitura proibida, todo o meu jovem ser entrava numa espécie de transe de explosivo desejo que, invariavelmente, terminava nas garras de Onan.

Não voltei a ler a obra de DH Lawrence na minha fase adulta mas, depois da recente leitura de “Fifty Shades of Grey”, passei a desenvolver um crescente desejo (ou será necessidade ?) de adquirir o volume. Tenho por certa a tese de que o motivo de tal interesse é o da comparação e das conclusões que disso poderei extrair. Fifty Shades é, a meu ver,  francamente ruim, repetitivo, cheio de clichés, pejado de lugares comuns e conceitos idiotas que tomam o leitor por idiota. A todo o momento a protagonista se refere à sua “inner goddess” que aparece para propocionar-lhe porres hormonais com ininterruptas cadeias de orgasmos que só me davam para rir e mais nadica de nada!! A minha (broxada) reação pode ter tudo a ver com a minha realidade quasi-septuagenária mas, ainda assim, busco auto convencer-me   que não: que é só porque o Fifty Shades é uma bosta mal escrita e que tudo será diferente se envolto nas irresistíveis narrativas de mestre Lawrence nas mil e uma peripécias de como a doce Constance Chatterley entregava doida e apaixonadamente sua Lady Jane  às delícias íntimas proporcionadas por John Thomas, o brinquedo do  rude e vulgar caseiro, que a transportava às mais longínquas galáxias…

Desequilíbrio

—Ah!…Que pedaço d’asno tu és, meu caro! —Exclama o meu outro eu. —O que te fará dissimular e tentar encobrir a realidade de que é tempo de tomares o curto tempo que te resta, só para ti?!…

Sim, as nossas altercações de sempre voltaram a ser muito mais frequentes, após um razoável período de convivência   um nadinha menos agreste. Agora, ele volta a infernizar-me, aproveitando-se das minhas fragilidades momentâneas (?!) de velho e pesado Condor com dor em tudo quanto é osso e órgão do meu corpo suplicante.

— Mas suplicante pelo quê? —Vocifera ele com voz esganiçada. —Se o teu ideal for continuar a trabalhar dessa forma insana até que a morte te surpreenda sem teres conseguido os teus outros objetivos pessoais que tão caros dizes serem, não há nada para suplicar a não ser por uma providencial bota que te dê de uma vez um bico no trazeiro!

O pior é que esse idiota, minha contrapartida, parece estar lentamente desequilibrando as forças para  o lado dele. Foram muitas as vezes que hoje adentrei os urinóis da vida. Desde a primeira dessas  vezes, detive-me contemplativo nos espelhos enquanto lavava minhas mãos; Juraria que nesta ultima eu estava muito mais envelhecido e descrente de todas as minhas teimosas certezas…

Das Férias

As férias me emudeceram…

 

É como se só um vazio restasse

 

dos dias que se sucederam

 

que nada de nada me deram

 

do tanto que debalde esperasse

O Poeta do Castelo

É ensurdecedor, o silêncio em torno daquele castelo de muitos séculos! Junto dele, à entrada de uma casinha rústica e imaculadamente branca, como rústicas e imaculadamente brancas são as casinhas da região, medita o poeta-filósofo-pintor-ceramista, em sua espera por visitantes do castelo que se disponham a atravessar a pequena porta que separa o infernal calor da tarde alentejana do fresco oásis interno propiciado pelas grossíssimas e idosas paredes de pequeninas janelas de sua casa. Com voz suave e como se levitando, conduz-nos através de suas obras expostas enquanto nos fala no seu falar de poeta sobre o que nos cerca em telas, trabalhos em cerâmica e demais criações, porque “Criar é matar a morte“, como dizia Romain Rolland. Dedicou à Nina um exemplar do seu “Silêncio Ensurdecedor”, por ele definido como uma “ponte entre as margens da utopia e da realidade” e nos conduziu com sorriso cândido, de volta ao pavoroso calor da tarde alentejana…

 

“Diáspora

Refém das palavras, prisioneiro das emoções, devir, desejo evanescente,

reminiscências que emergem do sofrimento, essa ditadura do vazio

As trepadeiras da alma que me abraçam o coração,

que se apoderam do poema, o apego implacável

As palavras que fecundem ilusões e que dilatam sonhos

É a diáspora dos sentidos, magnetismo, a minha armadilha…

…A Poesia!”

 

Luis Pedras

 

 

Admito que sou suspeito, por odiar políticos de todas as tendências, em todas as coordenadas. Dou, não obstante, voltas ao miolo para tentar encontrar uma explicação de como, esse tal de Pedro Passada de Coelho, se fez trapear na ratoeira já armada e engatilhada ao longo de festivos desgovernos vários, que propiciaram prodigiosas e enganosas chuvaradas de euros, créditos e papagaios por sobre as cabeças de um povinho que acreditou mesmo que toda essa dinheirama fácil era de fato sua, ainda que  sem haver calejado suas mãos para que isso fosse verossímil! Acho ridículo que o tal de Passos de Kandimba tanto tenha feito para convencer os eleitores a darem para as suas mãos a lâmina com que acaba de cometer harakiri político. Porque será que ele não deixou o punhal  pros outros? Gostaria de poder ver sua real variação patrimonial – Estaria talvez aí a razão da causa do  motivo?

Grey

Confesso não ter-me empolgado com a escolha do título “Cinquenta tons de cinza” para a edição brasileira do livro de E L James “Fifty shades of Grey”. Apesar de muito mais propenso a acreditar na edição portuguesa “Cinquenta sombras de Grey”, decidi-me por comprar, ainda no Brasil, a versão original. Além do mais, paguei apenas R$29,00, contra os 39,90 que teria de dar pela versão (provavelmente) mal traduzida.

Update pós leitura: Eu não daria nenhum dos títulos adotados para as duas edições em língua portuguesa.

Luto

Férias que se iniciaram com tão inesperado passamento e funeral de pessoa muito chegada e com expectativa de viver alguns anos mais, acabaram sofrendo disturbio suficiente para alterar muita coisa que estava programada. Em outras palavras, as tão desejadas férias foram abaladas e tiveram, como é natural, seu colorido signitivamente esmaecido pelo luto