Meu peito está engalanado de fios ligados a eletrodos e a um bric-à-brac que me pende da cintura, onde se espera, leiam e interpretem as pequenas e grandes misérias do meu funcionamento cardíaco. Mas parece não ser só cardiopatia, labirintopatia, apatia, telepatia e outras antipatias que me afligem. Agora, dizem, eu sou um feliz portador de novo rótulo: Pré-diabético! Então que seja, porque qualquer rótulo não chega nem perto do definitivo: “Defunto”.
…mas meu sonho é espúrio, medonho sem chegar a pesadêlo, irreal como os sonhos não devem ser, apavorantemente doce, de tão amargoso. É o fel que flui d’onde não deveria…ou será que deveria? É o fel nas linhas mal redigidas das notícias da UOL! Na cretinisse mal intencionada dos senhores das malditas coisas políticas. Ah! A mulher que escala montanhas…ela disse que é “Pilôta” de helicóptero e que espera escalar cada uma das montanhas nos sete (7) continentes…não sei se deste planeta ou de outro também! Ah, sim! Há barulho, muito barulho, bárbaro, esquisofrênico-iconoclasta-ectoplasmico-anacoluto, diria o Capitão Haddock. Um porraloucático xispêtêó madrugadóide de agressão hiperssonora em picos descomunais de escabrosos decibéis muito acima da escala estabelecida. Como nada é tão ruim que não piore, logo aos sons da selva se juntaram instrumentos outros que berravam “tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá…”. Concerto para funk e metralhadora! O caos é aqui, senhores, no pesadêlo do meu acordar! A minha mais-que-tudo ligou nosso jurássico condicionador de janela, cuja vibração e ruido contínuo salvou o resto da noite. “Bendita seja”, pensei já nas núvens. “Ela ligou o botão do foda-se”!…
Alta madrugada, Niteroi, Rio(de quê?!)Janeiro, Brasil
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…que sabes tu ou sei eu, ignorantes que somos e seremos?
bem aventurados seremos, ao menos, na nossa ignorância?
Sei bem que a vida por nós passou e tempo curto teremos
para de ignorantes chegarmos a sabichões de circunstância…
(De mais uma altercação com meu outro eu)
Foto:da net
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É resistente, meu coração que dizem doente! Posto à prova, ele resiste e persiste, ainda que em batidas meio descompassadas e passadas desengonçadas. Eu fiz as fotos da minha filhota que tomou a decisão de unir-se de papel passado e tudo. O casal está lindo nessa composição “vintage”! Que sejam imensamente felizes…
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Trabalhar com tocatas e fugas de Bach nos ouvidos poderá passar a ideia de não ser exatamente a melhor forma de alegrar-me o espírito numa manhã pós noite mal dormida. No entanto, cada um dos meus impulsos cerebrais parece transmitir maior presteza aos dedos da mão esquerda sobre os botões e da direita no traço do desenho através dos movimentos do mouse, como o faria um organista acionando harmonicamente teclados e chaves. Por alguns momentos, sinto-me um virtuoso…
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Meigo, singelo e amigo, “Oi” foi abusivamente vertido e convertido em marca. Ah! E como eu detesto essa marca que toma o meu “Oi” e o meu dinheiro pelos precários e instáveis serviços de internet 3D e fixa que compro !…
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Ah Nina, como o tempo passou!… A minha pele perdeu o brilho e consistência, meus olhos estão mais fundos e tristes, o rosto irregular e flácido, o cabelo todo branco. Minhas pernas estão cobertas de manchas senis e os braços, aqueles braços que achavas “lindos” quando te cingiam apaixonadamente, os anos distorceram sem dó nem piedade. Um pouco deprimido, mergulho nos abismos da minha alma até sentir-me como que suportado no espaço pelos mesmos misteriosos e finíssimos leitos de cor verde esmeralda já d’antes experimentados. Sinto-me a salvo neste estranho e delicioso plano, que me permite realizar coisas extraordinárias, como ir ao teu encontro naqueles mesmos locais de encontros, furtivos, maravilhosos, de enlevo inolvidável e vivê-los com a mesma intensidade como se os relógios houvessem congelado! É aqui que eu quero estar quando partir…
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Quisera-me em ermo sítio, feito beatífico-bem-aventurado-meditabundo, descompromissado escriba!…
Na vida real sou, todavia, um obscuro autômato biológico, urbano, orweliano, dependente de energia monetária, compulsoriamente amarrado ao trabalho remunerado e aos comandos de sistemas faliveis, mutáveis, manipuláveis. Fisica e mentalmente rendido ao final de cada jornada de doze horas, desabo e adormeço seguindo o relógio dos galinácios. Invariavelmente, desperto no meio da madrugada cheio de promessas de modificação de hábitos; invariavelmente, desperto para a rotina – urinar, higienizar, defecar, chuveirar, vestir jeans/camisa/sapato, dirigir na madrugada com destino a mais rotina…
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Trituro, amasso e mesclo despudoradamente a amálgama das intermináveis passeatas que teimam em pisotear meus pensamentos. Como não tenho o sentido do olfato, não corro sequer o risco de ficar agoniado com o eventual mau cheiro desta mescla, enquanto, descarado, vou modelando caricatas figuras de retórica com a ajuda do que de melhor posso encontrar no seio do absurdo. Lotes enormes de absurdo enriquecido estão por aí à disposição para uso irrestrito e eu já desisti de resistir à tentação de apropriar-me e armazenar boas quantidades dessa valiosa e gratuita materia prima…
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A Camões:“…Se te imito nos transes da ventura, não te imito nos dons da natureza” (Bocage)
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São indeléveis as marcas deixadas pela minha formação. Apesar da amálgama de traidores, entulheira de politicos e oportunistas destes tempos, porto no meu âmago a lusitanidade do jeito que me foi ensinada num tempo de miséria pós guerra, em que os males do culto à personalidade, catolicismo exacerbado e opção unica, tinham pelo menos a virtude de nos disciplinar e nos ensinar a amar e respeitar a nossa terra.
“Havia na parede um Jesus crucificado ladeado por duas grandes fotos encaixilhadas, de dois senhores. Um dêles era muito velho com grandes bigodes brancos e vestia um uniforme com uns pincéis dourados sobre os ombros. A minha professora estava em pé, junto de uma grande escrivaninha sobre a qual estavam livros e cadernos, uma varinha e uma palmatória. Abaixo das fotos e do crucifixo, havia um quadro de ardósia parecido com a minha lousa, só que tão grande, que a minha professora tinha de ficar em bicos de pés para escrever alguma coisa na borda de cima.
Eu e os meus coleguinhas estávamos também em pé com os braços postos ao longo do corpo, palmas das mãos para dentro conforme nos ensinaram, dizendo ser a posição de sentido e respeito por um senhor que acabou de entrar na sala e disse ser o diretor da nossa querida Escola. O nosso diretor falou em boas vindas e muitas outras coisas, como disciplina e bom porte, atenção nas aulas e, principalmente, castigos.
Chegou depois um senhor abade, que explicou que o Jesus na parede foi ali colocado para proteger e iluminar todos nós na classe e também os ilustres senhores das fotos que governavam o nosso querido país e eram o excelentíssimo senhor presidente marechal Óscar Fragoso Carmona e o excelentíssimo senhor presidente do concelho professor doutor Antonio de Oliveira Salazar, a quem devíamos honras e respeito.
O senhor abade falou em catequese, que eu só mais tarde soube o que era, na obrigação de ir à santa missa, sob pena das penas reservadas aos meninos pecadores, garantindo que essas penas eram castigos muito piores do que as bolhas na pele causadas pelas fustigadas de urtigas quando mentíamos ou diziamos coisas feias.
Depois dos senhores saírem da sala, a minha professora mandou sentar e gritou “silêncio” tão alto, que eu fiquei com medo e comecei a chorar baixinho.
A minha professora era bonita como a minha mãe e não usava chapéus ridículos como as outras professoras. Eu gostava que ela sentasse junto de mim e pegasse a minha mão para me ensinar a fazer o “a” redondinho, mas ela era má quando se zangava e batia nas nossas mãos com a palmatória. Doía muito, sobretudo nas manhãs de inverno. Conforme passávamos de ano, ela foi ficando cada vez mais má e impiedosa no uso da “régua de cinco olhos”, quando não sabíamos a tabuada ou não resolvíamos os problemas de aritmética que ela passava.
O nosso diretor chamava-se senhor Pinho, era gordo e tinha umas mãos enormes, cujos dedos eram tenazes que apertavam e torciam as nossas orelhas com força brutal, se éramos apanhados a brigar com outros companheiros no recreio(…)”
(Parte de um texto no livro do meu caos)
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