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Adrift

Os dias fluem para o estuário das semanas e deixo-me carregar ao som das águas como um destroço inerte, sem vontade própria. No espaço para mukandas, mukandas não há. Se não as há, o que pode justificar um espaço ao abandono, a monte, onde nem ervas, daninhas ou não, dão em nascer e medrar? Sim, o blog está agonizando, nas vascas da morte e eu, pelo menos no momento, não sinto nenhum interesse em levá-lo para uma sala de reanimação. Injeto-me uma derradeira dose de “Mas quem sabe amanhã, ou depois de amanhã não será diferente?” e levo ainda mais adiante o meu estado de letargia…

Dúvidas

Este lugar resulta um gelo de afetividade. Porque nossa afetividade resulta afetada pela fria lacuna que se expande a cada dia que passa, penso que devo radicalizar em possivel mudança renovadora. O “timing” para a mudança parece ser, todavia, o xis da questão. Sinto que urge, mas não sinto coragem para atender a urgência. Aliás, Sinto-me como se me não sinta. Isso me leva a beliscar-me amiúde. Testo-me, porque tendo a desenvolver dúvidas sobre minha presença em mim. Depois, ela, sempre ela, acaba por me fornecer provas de que sim, sou eu próprio envergando minha própria pele, sempre coberta com armaduras de dubia proteção…

Promessas

Ponte D.Luis

Minha veneranda e invicta cidade do Porto eu não vi. Nem senti das velhas estruturas a mágica vibração ao cruzar a ponte D. Luis para o cais de Gaia. Ficou apenas na saudade o habitual tour para espraiar a minha vista pela foz do Douro, receber no rosto o vento forte cheio de promessas sempre renovadas. E promessas não houve, não haverá, pelo menos este ano. O ano que vem é amanhã, promessa para ninguém…

Aprendi…

Reflexos Castelo Vajdahunyard

…que visitar países e seus monumentos integrado a grupos guiados, nada tem a ver com quem é de fato aficionado por fotografia. Por outro lado, se o guia é dos bons e o frustrado fotógrafo tem algum interesse por história universal, as aulas diante do fausto dos palácios ou de obras que lembram a crueza e estupidez da guerra, da ocupação, da submissão pela força bruta, etc.,poderão até terminar como inesquecíveis! Não me arrependo desta aventura pela europa central, com que comemoramos, eu e a minha mais-que-tudo, nosso meio século de vida em comum.

Sinto-me muito longe de pretender usar este espaço para descrever quaiquer peripécias das muitas que vivemos nesta semana de verdadeira maratona desde Budapeste até Praga, através das estradas da Slovaquia, Austria e República Checa. Aos poucos, subirei para o Flickr algumas da fotos realizadas a duras penas, que não raramente me obrigavam a correr que nem louco ao reencontro do grupo perdido e da bronca pelo atrazo provocado…

Foto “Reflexos do Castelo de Vajdahunyad” por Nelsinho

Constatação

Houston

É fato que a Houston City falta bastante do charme de outrora. O balanço entre o que gosto e o que não gosto, que foi n´outros tempos largamente positivo, só tem caído a cada visita. Prefiro abster-me de tentar uma explanação do porquê desta constatação que, aliás, acredito seja válida para a América como um todo. Que mudou, mudou…para muito pior e em todos os terrenos. A América é hoje um alfobre de traidores apátridas e o paraíso de uma parasitagem organizada e confortavelmente relaxada à sombra do “politicamente correto” e do que resta de desiludidos mas ainda esforçados pagadores de impostos.

Culpa do Millôr

A curiosidade leva-me ocasionalmente às correntes de mensagens que rolam no twitter. Desfolho algumas besteiras da Joan Rivers, passo rapidamente sobre o nada de interesse das violinistas Sara Chang e Maxine Kwok-Adams, pela Yoani Sanchez e suas frases de ilhoa-esperança-que-talvez-um dia…que nunca chega. Depois detenho-me eventualmente em algum dos twits do Ancelmo ou da Patricia Kogut, sem no entanto me sentir propelido a realmente tomar parte nesse jogo.

Acabo mesmo por convencer-me que a culpa é do Millôr. Na minha conta anterior que acabei matando, eu era muito mais presente e o Millôr tinha muito a ver com isso. Tanto fiquei seguindo e tietando silenciosamente suas frases e afirmações, que de repente me enchi de coragem e passei a disparar algumas tiradas da minha lavra diretamente ao @famoso. Até que um dia, há sempre um dia, eu li algures o terrífico e acachapante statement do mestre: “Chato, é um sujeito com mais interesse em nós, do que nós temos nele”…

Em matéria de twitter sou, pois, um substrato de porra nenhuma e eu deveria envergonhar-me de ter como único seguidor (de quê, por Deus?), pelo menos até este momento, a maestrina Ligia Amadio, diretora da Orquestra Filarmônica de Mendoza, de quem sou admirador!

Rónai

Que toda a unanimidade é burra, é uma unanimidade. Por isso Caetano está a anos-luz de o ser. Sabe muito bem ser polêmico e prima por exteriorizar seus pensamentos sem muita preocupação com a intensidade e fontes de origem das reações às suas afirmações, convicções, opiniões. Caetano ocupa um lugar especial entre as figuras da minha preferência e admiração neste país. Mesmo quando, não raramente, discordo de suas posições, respeito-o todavia, porque é notável a bagagem de cultura que carrega consigo. Na sua coluna de hoje, no Globo, fala de Paulo Rónai, após ler “Como aprendi o português e outras aventuras”. Suas linhas iluminam de forma até emocionante, a memória de um homem de letras que é um ícon brasileiro da língua portuguesa, que todos nós reverenciamos.

Redes sociais

Tempos ímpares são estes nossos tempos! Antigamente, os intelectuais, pensadores, políticos, jornalistas de opinião,  degladiavam-se em páginas de pequenos jornais, em folhas de manifesto, ou reunidos em tertúlias. Os insultos, difamações, destrutivas e infames campanhas eram até comuns, mas num pequeno universo. Agora, populações inteiras o fazem, numa dimensão jamais imaginada e de forma até letal – ver os suicídios diretamente causados por campanhas de desmoralização pessoal, agora chamadas de bullying.

Confesso não gostar do Face Book, embora nele eu tenha uma conta onde dou conta aos amigos por meio de links, que postei algum texto no meu espaço. Mas reservo-me o direito de não ler, de não circular no FB a não ser por alguma razão especial e sempre usando respirador individual para evitar o mau cheiro no momento de destampar.

 

A Pose

nelson sepia

Foi, sim, uma má notícia a decisão da Cora Rónai de fechar o “InternETC”! O Blog que sempre serviu de paradigma para as minhas atividades na blogosfera, está sendo por sua autora desativado, pelo menos nos moldes em que por tão longo tempo o frequentamos. Resta-me agradecer à Cora por tantos anos de delicioso blogtequim e por sua amizade por nós tão prezada.

A foto acima foi feita no studio “Foto Cine” pelo meu pai, teria eu os meus vinte anos. É óbvia a pose marcadamente Humphrey Bogart que assumi para ser fotografado. Tal como Bogart, se me tirassem o cigarro eu não saberia onde meter as mãos! A foto, perdida sabe-se lá por onde, chegou às minhas mãos em petição de miséria, praticamente inutilizada pelo tempo. Digitalizei e rememorei a arte e paciência do meu saudoso Old Man reconstruindo-a no foto shop. Não estará com a qualidade que certamente sairia das mãos do meu pai, mas fiquei contente com o resultado.

UPDATE
Pessoas: A Córa Rónai voltou atrás e, para o bem de todos nós, seus leitores e amigos, o Blogtequim fica!!! 🙂

Acomodando-me uma vez mais sobre a poltrona acolchoada com a maciez dos meus descreres, observo a massiva manifestação de fé, ao vivo e com todas as maravilhosas e contrastantes cores do Rio de Janeiro durante a missa do Papa na praia de Copacabana. Tal como em imagens que me foram em outras ocasiões oferecidas na TV nas quais multidões compactas de peregrinos aglomeravam-se em Meca, em Fátima ou mesmo no Vaticano, surpreendo-me engasgado por infinita e incontornavel emoção! É real, legítima e inquebrantável a fé que move essas multidões!

Recuso-me e sacudo-me para livrar-me de qualquer rótulo. Nem ateu nem agnóstico nem crente. Sou exatamente o que sou e assim morrerei: Ensinado a temer nunca soube o quê por via de tradições centenárias familiares e dos longos períodos de doutrinação e catecismo, teria de trocar de alma para lograr apagar todos os resquícios desse aprendizado. Nunca me senti de fato interessado em encetar uma espécie de revolução interna que incluísse uma autolavagem cerebral no sentido de eliminar o que em mim existe ancorado e em repouso.

Um dia após o outro ao longo das minhas sete décadas, a leitura, a meditação e questionamento, fizeram de mim um crítico de todas as religiões, sem exceção, que acuso de propensas ao radicalismo, especialmente quando aliadas a forças de estado, responsáveis pelos mais vergonhosos banhos de sangue da história da humanidade. Reconheço também que é exatamente nos países com os menos religiosos cidadãos do mundo, onde o nível de vida e assistência propiciados em troca do trabalho, desde o nascimento até à velhice, é mais elevado e justo.

Mesmo assim, concluindo, posto que sou dotado de uma alma gentil, sensível e com algum recheio filosófico, o nó na garganta sofoca-me e os meus olhos vertem na presença da comovente fé de quem crê…