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Ceias de Natal…

…ilhado na minha silenciosa solidão, rodeado de barulhentos petroleiros, todos nós ilhados em estruturas flutuantes. Poderia contá-las, cruzando através dos curtos diários que mantive ao longo de mais de duas dezenas de anos; Mas porque o faria? Metade da minha vida nesse longo período foi gasta assim, de raras presenças em ceias e eventos familiares em que só os  mais chegados companheiros de embarque testemunharam, desinteressados, os meus babados sorrisos de orgulho nos precisos momentos em que os meus rebentos recebiam, sem a minha presença, suas graduações universitárias.

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Consoada

Agora, Ilhados na nossa silenciosa solidão, acabamos de degustar a dois a frugral tradição centenária do nosso povo: Batata, verdura, ovo, bacalhau. Cozidos em água, simplesmente, regados no prato com azeite de oliva. Uma taça de vinho tinto sorvido em pequeninos goles, ajudou a passagem nas gargantas penosamente obstruidas em ponto de pranto.  Duas castanhas assadas no forno e uma fatia do mágico Bolo-Rei coroaram a nossa consoada. Sem árvore de luzes coloridas, àparte de todo o longínquo bulício familiar de filhos e netos…

Niteroi, noite de Natal de 2013

Poção certa

Certa vez, asperamente criticado no âmbito doméstico, apressei-me a apagar da postagem e dos arquivos um texto em que brincava descrevendo em minúcias e com muito tempero sacana, a minha própria receita para preparação e modo de emprego da poção denominada  “Água de cú lavado”, lá da terra africana que tão profundamente marcou a minha vida.  O “incidente” tem uns dois anos e de lá para cá fiz um sem número de tentativas frustradas de refazer o escrito em composição capaz de, a meu próprio julgamento, preservar-lhe o humor sem despencar na vulgaridade.

Por isso, eu tinha e tenho grande admiração e certamente um pouco de “inveja” do skill da minha amiga Vanessa Ornella nessa área! A leitura recente de “Fim”, demonstrou-me uma vez mais que sim, que é possivel usar palavras nada recomendáveis em outras condições e até mesmo cabeludos palavrões no calçamento de um caminho, desde que muito bem pavimentado com as pedras de um tema que lhes dêem pleno  suporte. A Fernandinha Torres  fá-lo no ponto certo, sem qualquer tipo de inibição e com o indiscutível brilho do seu talento!

Resta-me arrumar disposição e bom humor para tentar de novo…

Érotique…

Escutei, involuntariamente, conversa de duas mulheres jovens lamentando a notória falta de elemento masculino disponível e com um mínimo de credibilidade, que reuna alguma atração física e uma dose generosa de romantismo. Conjeturei, aparentando total alheamento, que o tal quesito “credibilidade” poderia ter implícita a capacidade econômica, porque amor e uma cabana só mesmo numa ilha deserta. Aumentei mentalmente o ganho auditivo para pegar a parte sussurrada: “Não ter namorado”, disse uma, “só tem uma vantagem: Não preciso de me depilar!”. A outra moça abriu um sorriso maroto e logo a seguir mudaram o rumo da conversa para motes menos intimistas. Antes de desligar-me da vida alheia, pensei naquilo.  E nas fotos de nú frontal de revistas masculinas americanas dos anos cinquenta que, por lei, deveriam  ter meticulosamente retocados os púbicos das beldades. Isso me frustrava e afetava a ebolição dos meus jovens hormônios, por não detectarem toda a carga erótica contida no irresistívelmente adulto detalhe ali implantado pela mãe Natureza. “Implumes são as crianças!”, queixava-me eu, contrariado! Enfim, vai ver que os homens do terceiro milênio vieram dotados de vocação pedofílica!…

RIP, Sir Peter

Volubilidade, pouco comum na minha idade, ou arrependimento, lugar comum na  minha idade?…O que é certo é que, ultimamente, tendo a amanhecer com ideias radicalmente opostas àquelas com que adormeci. Terei eu perdido a personalidade, ou haverei eu jamais contido a personalidade que me julgo com e me digo ter? Sacudo mais uma vez a cabeça como o faria um cão encharcado, na tentativa de livrar-me do ataque cerrado de incômodos auto questionamentos.

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Hans Helmut Kirst escrevia com uma crueza e riqueza de detalhes que me surpreendia e parecia alimentar-me com sentimentos que iam do conflito à resignação. O período era propício a devorar tudo sobre a guerra, pela inevitabilidade de me ver a mim próprio em armas. Acabara de passar nas inspeções médicas e logo me encontraria instruendo de um curso de graduados em uma Escola de Aplicação Militar. À leitura da série de livros intitulados “08-15” – “A Caserna”, “A Guerra”, “A Derrota”, seguiu-se “A Noite dos Generais” e fez de Kirst o meu autor preferido do lado alemão no tema Segunda Guerra Mundial, sem desmerecer Sven Hassel, Eric Maria Remarque e outros mais.

Terão sido, naquele tempo, no mínimo meia dúzia, as vezes que me recordo na plateia de alguma sala de cinema, espectador admirador-quase-estudioso da performance de O´Toole na pele do General Tanz em “A Noite dos Generais, trabalho que pessoalmente considerava extraordinário e inigualável. Tão extraordinário e inigualável, que depois acabei decepcionado no longo e para mim enfadonho “Lawrence da Arábia”!

Terminus

Definitivamente, não há em mim réstea de estímulo ou alento para manter este espaço. Tal como o primeiro “Mukandas” no seu tempo, esvaziou-se qualquer razão dele existir. Por isso, cerram-se a partir deste momento suas portas e deixam-se temporariamente as janelas abertas para quem se interessar a espreitar…

Update em 18/12: Haverá cura?…

Das brumas…

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Avós

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Meus avós, recordo, eram muito velhos. Agora, sabendo-me a caminho de ganhar o meu quinto neto, retrocedo no tempo para constatar que os meus “velhos” avós tal como me lembro deles, eram, ao tempo, mais jovens do que sou hoje. A sobrevivência afastou-nos, pouco convivi com eles, mas, se bem me lembro, nunca me senti profundamente afetado por isso. A grande roda girou e a tal da sobrevivência, que é atemporal, determinou que os meus quatro netinhos nascessem, crescessem e permaneçam afastados de mim. Já aprendi que eles, tal como eu em criança, não se sentem realmente afetados por isso. Mas também aprendi, amargurado, que a recíproca não é a verdadeira…

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Foto Jose Barreto

Foto: José Barreto

Sempre ligado às facilidades da modernidade, passei a adquirir as minhas leituras diretamente para o meu “Kindle Fire”. Mas, confesso, em que pese a grande praticidade, o livro de papel conserva a meu ver e sentir, um charme que nenhuma traquitana eletrônica será capaz de superar. Passando a vista pela estante, retirei e dei em reler de forma randômica, passagens escritas pelo meu querido amigo Valdemar Aveiro no ultimo dos seus livros, “Murmúrios do Vento”, em que descreve com paixão sua paixão pelo mar em riquíssimas peripécias de aventura e sacrifício vividas em sua carreira de Capitão dos navios de pesca ao bacalhau nas geladas, inóspitas e perigosas águas da Terra Nova.

Verdadeiras epopeias foram vivenciadas ao longo de décadas por homens rudes de extraordinária resistência e valentia ao ponto de enfrentarem ao longo de muitos meses as agruras extremas da pesca solitária à linha a bordo de seus dóris a remos, sempre sujeitos a serem surpreendidos por súbito mau tempo e se perderem para sempre dos seus navios. Depois, vinham as longas horas de processamento de todo o pescado, as condições precárias, a pungente saudade dos seus queridos…

Ao Capitão, a capacidade de aglutinar na sua pessoa a doçura para confortar, a personalidade fortíssima para disciplinar, o profundo conhecimento para navegar, o misto de sapiência, atrevimento e sorte na liderança da faina de forma a carregar seu navio com o precioso pescado, garantia da sobrevivência de inúmeras bocas. A minha admiração por esses homens vem de muito pouca idade, quando frequentava a Escola Industrial e descia ao rio Douro para tentar ir a bordo dos navios em preparação para zarpar.

Ver Link  https://mukandasdonelsinho.wordpress.com/2011/06/18/lugre/

Ao Capitão Aveiro, grande marinheiro e escritor, o meu respeito e agradecimento pela amizade.

“Se um animal tem de ser abatido para me alimentar, eu não me alimento”. A afirmação, de um colega de trabalho, é autêntica e sincera. O fulano não come mesmo um grama de nada de origem animal. Mas entope-se de vegetais fritos, empanados ou não, principalmente bananas. É gordo, tem todos os colesteróis alterados e a glicose elevada em razão da ingestão de todo o tipo de doces aos quais é incapaz de resistir.

Acabei de ler uma peça que deveria deixar-me extremamente enojado e sem condições de comer carne de qualquer tipo de animal, especialmente carne bovina moída para hamburger. Ora, eu simplesmente detesto hamburgers, carne moída em geral e MacDonalds em particular, que não me descem pela garganta de jeito nenhum, além de comer carne vermelha muito raramente. O livro, intitulado “De Gados e Homens”, escrito por Ana Paula Maia, de quem nunca ouvira qualquer referência, inferniza a consciência e o estômago de quem gosta e consome picanhas, alcatras e cupins. E faz isso, levando-o aos corredores da morte de estranho e pavoroso abatedouro algures na selva, que usa métodos selvagens aplicados por selvagens sanguinários e homicidas. Nessa espécie de Serra Pelada do abate, o executor faz o sinal da cruz e encomenda a alma do animal antes de desferir uma marretada na sua cabeça. Leitura boa para ativistas vegetarianos.

Há uns três meses, descobri-me diabético e cheio de problemas cardíacos. Muito acima do peso, reconheci ter de enfrentar uma mudança radical nos meus hábitos alimentares de formiga. Aboli o açúcar, reduzi ainda mais o sal, passei a comer apenas um pãozinho migalha por migalha no café da manhã, a entupir-me de legumes, frutas e quejandos, arroz integral e tubérculos em doses reduzidíssimas. Como animal de presa, alimento-me com alguma carne de aves e peixes e ocasionalmente, um pouco de carne vermelha estufada ou grelhada. Perdi 15kgs, a barriga e o estômago desapareceram, os problemas hepáticos se foram, a glicose caiu a níveis quase normais, colesteróis mais que aceitáveis. Espero, com todo este esforço dietético, lograr alguma sobrevida…

Nota: Ana Paula Maia é autora de cinco romances

Furólogo

O urologista, amor,
é o meu terror,
fico de sangue gelado…
…quando ele insiste
em vir de dedo em riste
e me deixa assaz vexado…