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Sentei, refastelado, no incômodo sofá da redoma. Como alguém pode refastelar-se num sofá tão incômodo? Eu posso, porque tudo posso, eu acho, eu acho-me. Refastelei-me e observo interessado minhas pernas nuas, estranhamente brancas e cobertas de significativas marcas da idade. Percorro-as com o olhar, começando nas pontas dos dedos dos pés e terminando onde as alvas pernas terminam e começa o tecido de algodão da cueca que também é branca e encobre a continuidade de outras alvas regiões do meu corpo. Tenho predileção por ficar de cueca e camiseta. É curioso eu tanto gostar de ficar de pernas ao léu e detestar ver-me de tronco nú. Gosto de explorar as minhas pernas porque, penso, elas me transportaram ao longo da vida por veredas tortuosas, por montes e vales e rios a vau, mas sempre lograram conduzir-me a recantos amenos onde, diziam-me, poderia encontrar a felicidade. Lá aprendi, todavia, que a tal da felicidade precisaria sobreviver à ferocidade…

Canino coração

olhar Figura na praia

Dia destes, madrugador inveterado, eis-me uma vez mais pisando a faixa de areia ciclicamente lambida pelas ondas, para elas hora avançando, hora delas fugindo para não molhar os sapatos, mas sempre obedecendo ao comando do meu olhar, obcecado na procura dos melhores pontos para a tomada de imagens com os sensores da minha câmera. Depois, desviei minha atenção do Sol Nascente e do surpreendente numero de surfistas já de molho àquela hora, para observar a Sul, a praia e calçadão começando a ser iluminados.

Uma figura solitária e irreal caminhava pela areia afastando-se de mim e de dois cães que pareciam extravasar felicidade enquanto brincavam na areia, com a areia. Acerquei-me dos cachorros, que pararam imediatamente suas brincadeiras e, amistosos, me observaram com grande curiosidade. Admirei os bichos, fotografei-os, invejei-os. Postei uma das fotos no Face Book com uma frase poética que me ocorreu e que a Maga – Magali Campelo Magalhães sugeriu converter em estrofe, que acabou seguida de sextilhas rimadas:

***

Quanto mais profundamente

olho nos seus olhos,

mais eu sinto que gostaria

de ser um cão brincando n’areia…

…libertando-me do bípede!

***

Assusto-me por um momento,

com tal força de pensamento

que m’impele a ser um cão

e correr solto e livre pelo areal,

célere feito e dito um animal,

do mais canino coração!

***

Mas, Oh! Crua realidade!

Acordo; E no que acordo, a verdade:

Não sou cachorro, não!

Continuo bípede, velho, vertical,

Continuo a julgar-me “racional”

achando-me superior ao cão…

…com um canino coração.

O Ovo

Branco é, galinha o põe, mas a verdade é que o ovo nem sempre é branco. Pode até muito bem ser castanho claro, azul às riscas ou vermelho de raiva como estou agora, que, uma vez quebrado, revela-se invariavelmente amarelo e branco. A não ser que esteja fecundado ou podre, bem entendido (aargh!)

Não, não tenho a imaginação e genialidade de uma Clarice Lispector para me atrever a sair por aí fora dizendo cobras e lagartos do ovo, do ovo, por mais ovo que ele seja. Como ela muito bem disse, “ovo visto, ovo perdido”. Melhor ainda, tem de se caminhar leve, que é “para não entornar o silêncio do ovo”.

Mas então, porque faço eu um arrazoado sobre o ovo e apelo para Clarice, que tanto sobre o ovo disse? A explicação é que estou de ovo virado! Também estou cansado, esfalfado, suado e, como disse, de ovo virado porque não tenho água quente para tomar um decente e relaxante banho de chuveiro. Putíssimo do ovo, aqui fico eu na função de esquentar água no fogão para um banho de chaka-chaka…

Complicado

Existo...

Faz muito que terminei o livro da Letícia Wierzchovsky e nada de me dispor a voltar às leituras, nem mesmo às releituras das obras clássicas omnipresentes nos meus Kindle. Sempre que me pego a pensar que vou finalmente mudar tudo e dedicar-me de alma e coração, acabam me pegando para outra enrascada que ocupa todos os meus espaços. Vai então surgindo, devo confessar, um crescente desejo de jogar a toalha…

Contrario Pessoa, que em algum lugar escreveu que “basta existir para ser completo”, pois o meu completo existir a mim não basta. Não, pelo menos o existir que me imponho – Um tipo de existir-me à margem do maior desejo do meu existir, que é precisamente, Existir! Parece complicado, mas sou eu próprio que me complico e enrolo com essas tão minhas esquisitices existenciais…

Reli os textos de dois auto retratos fotográficos que postei no FB; Num deles, refiro-me ao passamento do meu pai quando contava setenta e dois anos, destacando o tanto que o correr da idade nos deixou parecidos e, é claro, o fato de eu estar prestes a atingir também setenta e dois anos. É óbvio que me bateu o receio de abotoar o paletó em Março próximo, Isso, pondero, deveria propelir-me a fugir do presente status…

A propósito…

Em criança, fui tomado de amores por uma lourinha do meu bairro. Há alguns anos, recordei essa passagem da minha vida com um texto que pode ser lido no link abaixo. No escrito, destaco as propriedades “Luminosas” da loura criaturinha que tanto me fascinava.

Essa “Luminosidade”, aprendi, não é afinal e de forma alguma, coisa exclusiva da alvura da pele e das claras madeixas louras. Maju Coutinho, a nossa Maju, negra das mais belas que a Natureza criou, ilumina telas e almas com sua presença linda, plena de charme, cheia de graça! A verdade é que o meu coração exulta quando tenho oportunidade de vê-la falar das pancadinhas e pancadões de chuva, geadas e calorões, raios e trovões…

Aqui em casa somos todos Maju.

http://www.recantodasletras.com.br/cronicas/1556650

“Normal”

Há porções de mim que me renegam,

outras  que, gentis, me querem e acolhem;

Há as partes de mim que me segregam,

outras que as diferentes partes agregam

contrariando as que me isolam e tolhem…

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Confuso, leio e releio a quintilha acima sem que lhe divise a razão de ser. No entanto, eu acabei de a parir num acesso de “repentismo”! Teria o meu cérebro a intenção de dar a tal quintilha alguma continuidade?  Mas que tipo de continuidade?  Não importa, porque a verdade é que eu não faço a menor ideia de como poderia ser essa continuidade.

Estendo a mão esquerda e vejo que treme! Não estou com frio nem estou nervoso, logo, se a mão treme sem o meu consentimento, devo tremer junto porque significa que não mais controlo meus membros. O mesmo acontece com a minha pensatrix: Como se atreve ela a dar à luz quintilhas não prévia e expressamente por mim aprovadas?! Nisso, garanto, meu nome é dona Solange!

Agora a sério: Eu sempre me soube cindido em personalidades preocupantemente disjuntas, antagônicas, beligerantes entre si…Com o avanço da idade, elas passaram a promover violentos e frequentes tumultos dentro do meu casulo, que dão enorme trabalho para controlar. Externamente no entanto, garanto que sou “normal”, mesmo de pertinho.

P.S.: Alguém por aí para definir a palavra “Normal”?…

Destino

Sem resposta concreta, sigo questionando-me sobre a razão destas minhas corridas feito um “shuttle” num vai-vém Macaé X Niteroi/Niteroi X Macaé. Corro eu contra, ou a favor do Destino? Reparem que escrevi Destino com maiúscula, porque não é ao destino do trajeto que me quero referir. Lembro em criança ouvir falar que “ninguém foge ao seu Destino”. Quererei eu fugir ao meu? Pensando bem, acho que fui predestinado a driblar o meu Destino, seja lá o que o meu Destino ainda me reserve. Nas minhas lucubrações, “Destino” é “Fado” que se canta em tom magoado, mas sem relação com a morte, que por isso se chama morte e não destino.

Esse meu papo é porque senti-me corar (ruborizar, se preferirem), ao abrir a porta do green house aqui em Macaé sem  conseguir encontrar explicação cabal e de plena justificação para a minha descida para Nikiti ontem de madrugada. Porque fui?…Fui porquê? Rodar 2X175 Kms só pra rodar o fifty shades of f*#”ktup?! Inverossímil! É claro que eu estava com saudade da minha mais-que-tudo e fui dormir com o cheirinho do travesseiro dela; Isso seria a explicação certa,não estivesse eu com uma das minhas crises de alergia respiratória, mais anósmico que nunca. Não sentiria o cheirinho dela, nem que lhe fungasse o cangote em pessoa.

Enfim, fui, provavelmente, para sentir-me em casa, solitário e carente, no limiar de completarmos cinquenta e dois bem contados e rápidos anos de relacionamento, em busca de inspiração para um retorno à poesia tão afastada de mim. Acabei por me sentir satisfeito com esta alternativa mas, ó tristeza: Do poema, nem um esboço…

Calafetando…

“Todo o bom calafate poderia ser, por certo, um poeta. São rimas, as linhas do calafeto ao longo de um costado ou de um convés trabalhado com sabedoria e alma”

A frase acima foi por mim criada e escrita no espaço de comentários de um amigo que postara sobre o Poeta setubalense Antonio Maria Eusébio, calafate de profissão cujos poemas foram assinados com o nome Antonio Calafate.

Realizei então que, de modo incessante, eu trabalho o madeirame do meu velho casco de forma a mantê-lo flutuando e singrando as águas revoltas desta vida. E logro fazê-lo, calafetando com alma, carinhosamente, meticulosamente, cada junta das tábuas que me compõem…

“Aline”

Aline & David

A foto acima foi feita no Gragoatá e a dupla ganhou-me com sua musica e charme espalhados generosamente por sobre as pedras e almas. Atenderam meu pedido para fotografá-los e eu prometi por meu turno enviar-lhes as fotos, promessa que foi cumprida horas depois. “Aline, muito prazer”! Ora! O maior prazer é meu, é claro! Nem tentei evitar ser assolado pelas notas e voz de Christophe lá nas brumas dos 60: “…J’avais dessiné sur le sable/Son doux visage qui me souriait… Et j’ai crié Aline! Pour qu’elle revienne…”. É tudo de bom sair caminhando no Gragoatá! Aline Peixoto e seu irmão David Lucas são bem conhecidos atores e músicos aqui pelas bandas de Niteroi e também pelos posts musicais no Youtube.

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O fotógrafo que reside em mim continua me propelindo para aceitar que sim, que ainda vale a pena investir não meia dúzia de caraminguás, mas uma soma notável para não dizer escandalosa, no que existe de mais moderno em câmeras de altíssima resolução e objetivas plenas de adjetivos. Estou até, em antecipação, procurando um monitor que realmente me realize para as minhas composições fotográficas. A minha pressa é, obviamente, comprar os objetos do meu desejo enquanto o meu trabalho os pode pagar, porque depois…

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Que pensar de mim, se de mim não mais conseguir pensar para além das crescentes “decrescências” ditadas pelo avanço da idade que me desconstrói lenta mas seguramente a cada segundo que vivo? Todavia, como pensar é existir, garanto o existir pensando o menos possível no meu eu físico e mais nas minhas reminiscências, além de dar mais atenção às minhas singularidades. Singularidades estranhíssimas, é vero, motivo pelo qual não me tenho a mim próprio num conceito muito lisonjeiro. Mas isso são outros papos…

Descuecado

Um probleminha dermatológico localizado conduziu meus passos até ao consultório de uma profissional da área. Iniciada a consulta, aos costumes eu disse tudo, até que surgiu a pergunta sacramental: “Então qual é o problema?”. Levantei-me da cadeira enquanto desafivelava o cinto, virei-lhe em seguida o posterior com alguma solenidade, baixei o zíper e as calças. Depois, doucement, doucement, desci a minha cueca Duomo preta cem por cento algodão, revelando a alvura das bochechas da minha região glútea. A ínclita doutora em medicina navegou até às mais baixas latitudes onde eu informei localizar-se a tal anormalidade do foro dermatóico que aliás não era longe do círculo polar antártico. Munida de lupa, ela observou atentamente até se considerar satisfeita e me autorizar a volta à normalidade. Prescreveu-me o uso de uma pomada duas vezes ao dia e recomendou-me: “Descarte a cueca preta; Passe a usar cuecas da mesma qualidade e tipo, mas claras – Brancas, cinza claro, whatever…nunca pretas ou azuis ou cor-de-burro-quando-foge (castanho escuro). As cuecas devem ser lavadas à mão com sabão de côco – nem pensar em usar amaciante. E acrescentou retumbante e definitiva: DURMA NÚ!

E aí está a razão pela qual estou contando as peripécias do dia em que fui mostrar a bunda prà médica. “Durma nú, nada de cueca”, ordenou. Como a minha mais-que-tudo foi passar uns dias a Curitiba para curtir a nossa Isadora, eu trabalhei que nem um condenado ao longo deste solitário fim de semana, coisa geradora de convulsões  em condições normais. Agora há pouco, liguei o Apple TV e fiz outra coisa normalmente evitada: Assistir alguns dos divertidos vídeos da Acid Girl Taty Ferreira em “Acidez Feminina”! A Taty é uma desbocada coerente. Admiro seu trabalho, sua escrachada obviedade e autenticidade. Penso que se eu não portasse penduricalhos eu gostaria de ser como ela. Tal como a minha dermatóloga, a Taty sempre repete categórica: Dormir pelada/pelado só tem vantagens, nenhuma, nenhuma, nenhuma desvantagem!

Então tá…