Feeds:
Artigos
Comentários

O título, belíssimo e desconcertante, mexeu comigo mesmo antes de sequer dar um passo para adquirir o livro. Recolhi-me ao meu casulo, vasculhei-me, vasculhei-nos, inquiri-nos e tateei freneticamente as cicatrizes de velhos ferimentos na alma. Ponderei então que se eu ainda posso tatear cada uma das cicatrizes, resulta que a minha amnésia não avançou para cicatrizar as cicatrizes. Considerando a insegurança das minhas ponderações sobre o tema, fiz o óbvio: Desisti e li o livro.

“Segredos verdadeiros são sepultos. Enterrados vivos, são aflição constante para todos os túmulos. Por mais que se acredite, nenhum segredo é só seu, todos têm uma vitima oculta, o segredo explica o silêncio que por si o explica”.

Assim enceta o autor sua jornada através da sua narrativa recheada de filosóficas utopias, desutopias e pura poesia plena de surpreendente humanismo, até desaguar no estuário gostoso do amor e romance. Na minha caminhada ao longo do texto, dei por mim nem tão poucas vezes calcorreando penosamente conhecidas veredas cheias de pedras e espinhos em direção ao local onde, diziam-me, morava a felicidade.

Bebi o livro degustando cada página, porque em seu âmago eu me encontrei na minha própria trajetória. Como estou só no momento, servi-nos duas taças de um tinto de razoáveis reservas alentejanas: Brindamos, eu e eu mesmo, à vida, suas alegrias e misérias, suas vicissitudes e ferimentos que a indefectível amnésia um dia cicatrizará.

Ao Autor, Milton Camargo, congratulações pelo excelente texto, esperando pelos próximos!

Insanidades

Caminhava penosamente pelo meu próprio cérebro, como se o meu cérebro fosse um desértico e pavoroso lugar fora deste planeta. Não conseguia encontrar a sensibilidade e em consequência também não encontrava a razão, a coerência.  Só o vazio do vazio, o avesso de todos os avessos. Dei em pensar no que estava a pensar, quando estava a pensar em absolutamente nada de nada, o que resultou em vazio absoluto e numa espécie de quase insanidade.

Acordei extremamente perturbado e perturbado continuo até agora. Surpreendi-me, pois,  a usar inconscientemente a minha pensatrix para aberrantes experiências que poderão até ser perigosas. Perigosas porque fora do meu controle, pondero. Deve ser essa uma das formas de se chegar a doido. Não é que eu seja “na vida real” totalmente isento de alguma porção de insanidade.  Afinal, existem alguns canteiros de insanidade que cultivo com alguma paixão. Rego-os amiúde, protejo-os e até chego a acariciá-los em exacerbados momentos…

Insanidade em doses bem controladas é coisa de bom tom. É só aprender a dosagem certa e ter a paciência de deixar a insanidade dissolver-se muito bem sem deixar vestígios sólidos. Usa-se então essa insanidade em suspensão tomando uma colher das de sopa bem cheia todos os dias de manhã antes da saída para os sanatórios gerais desta vida que, compulsoriamente ou não, cotidianamente frequentamos.

Entardecer

sundown

Às vezes, como agora, ao entardecer,

entristeço e enterneço-me com o Sol

que esmaece e logo lá longe desaparece

exangue, em clarões da cor do sangue.

Agora, começam as sombras da noite

a envolver-me e a tomar-me por inteiro

em lento e imparável processo de assalto

até que me penetram o âmago, a alma!

Agora eu era ninguém, um nada, nada,

perdido na minha pequenez infinitesimal

e achado no que me resta da soberba

de acreditar-me dono e senhor de mim…

Agora eu era um humano, terráqueo,

reduzido à expressão mais simples

e grotesca de animal ensonado,

despojado, indefeso, desinteressado

Vou dormir…Aah…dormir…

Crônicas

Drivin

Sem querer descumprir a promessa de não voltar com o tema das minhas viagens Niteroi X Macaé, descumpro-a, todavia e momentaneamente, para usá-lo como ferramenta para alinhar as agulhas que poderão reconduzir-me aos trilhos das crônicas mais ou menos regulares que tinha o hábito de criar, ainda que, muito frequentemente, decidisse não as postar, abandonando-as ao limbo do tempo.

É verdade que o exercício de conduzir a minha velha viatura durante pelo menos duas horas e meia a considerável velocidade numa via reconhecidamente perigosa, parece revolver o fundo do lago das minhas ideias e memórias, forçando-as para a superfície onde permanecem ao “som da água” por algum tempo. De ordinário, escancaram-se em risos de escárnio se, como é mais vezeiro, não logro recolhê-las para bordo antes que voltem a afundar…

A viagem de hoje, atipicamente numa segunda feira, atiçou-me a vontade de voltar a produzir aquelas crônicas que ninguém lê e a que convencionei chamar de “Mukandas”, mesmo que mukandas não sejam, precisamente porque ninguém as lê. Preciso retomar-me das garras do meu Eu que se tornou perigosamente desinteressado e dorminhoco, tomado de um cansaço doentio que me está adoecendo.

Assumo-me pois, de volta, ou pelo menos assim o espero…

Ah que tempos!…

Que tempos, meus senhores!

Tempos da volta d’ horrores,

d’ horrores já outrora vistos

já d’outrora tão temidos

de tão terríveis, tão sofridos

sangrentos tempos já vistos…

……..

Então meus versos tempero

sem o sangue e desespero

destes tempos de terror

Tempero-os com especiarias

mescladas com as alegrias

que me dá o meu amor…

Das Férias

Luar

Férias sempre são e serão dias de lazer, de coisa nenhuma fazer, de esquecer, esquecer. No entanto, é para as férias que lançamos todos os projetos de visitar locais que há muito desejamos ver, de ir a duas ou três casas de fado e outras tantas de morna, de algum magnífico concerto, bibliotecas e museus, além de muitos comes e muitos bebes. Se conseguíssemos realizar tudo isso, mandatório seria estender as férias por alguns dias para delas descansar. Confesso que seria incapaz de justificar as quatro semanas de férias na terrinha, porque nada, absolutamente nada do que pensei em fazer, eu logrei realizar…

Resta então o primeiro parágrafo: Cansei de tanto descansar!

Orgulho

Carlos Cunha

 A lista de personalidades que no meu muito pessoal conceito são classificadas como “admiráveis”, engloba figuras das áreas da Ciência, Literatura e das Artes em geral. No entanto, todas essas áreas contendo obras que nos maravilham e iluminam através das gerações, certamente não teriam a mesma força, não fora a força da Educação e a perseverança dos Educadores. Logo, os Educadores estão na minha Lista de personalidades admiráveis.

Recordo um admirável professor de física que me disse ser “um mero aprendiz” na matéria que com tanta maestria lecionava! Grandes professores são assim: Enormes em sua grandeza de alma, enormes em sua humildade de pessoas enormes. No entanto são, não raramente, tratados e remunerados de forma muito pouco respeitosa…

O preâmbulo abre-me caminho para falar de Carlos Lima Cunha, engenheiro químico e educador emérito, permanentemente envolvido em Projetos  internacionais de Ciência e Tecnologia integrados à European Schoolnet, no âmbito da qual é o embaixador português para o Projeto “Scientix”.

Como a European Schoolnet lhe concedeu o título de “Melhor Professor Europeu”; Da  Microsoft recebeu a nomeação de “Microsoft Expert Inovator Educator” e assisti pessoalmente à Sessão Solene em que foi condecorado com a Medalha de Honra da Cidade de Setúbal exatamente pelas suas qualidades de Educador e Organizador no sistema de ensino, devo, com humildade, orgulhar-me por figurar no círculo de amigos pessoais do Professor Carlos Cunha.

A Bocage

Casa Bocage Casa Bocage 13 Casa Bocage 14 Casa Bocage 10

Julgava conhecer “muito bem” Bocage pelo anedotário que lhe atribuíam e que circulava livre e solto pelos bancos escolares da minha infância e juventude. Manuel Maria Barbosa Du Bocage – o verdadeiro, eu conheci muito mais tarde, quando finalmente comecei a apreciar sua obra, algumas vezes vasculhada entre os tantos volumes existentes no surpreendente e belíssimo Real Gabinete Português de Leitura no Rio de Janeiro!

Na abertura do ano das comemorações de um quarto de milênio do seu nascimento, estive presente em alguns eventos aqui em Setúbal e na casa onde nasceu. Trata-se de um pequeno sobrado de espaços exíguos, em cujo piso térreo se encontram expostos alguns dos seus poemas, gravuras alusivas, o esboço do grande quadro original de Fernando dos Santos, de 1929, intitulado “Bocage e as Musas”, atualmente no acervo do Museu do Convento de Jesus, além de utensílios, livros e de uma recriação do local de trabalho, com a figura do poeta sentado à sua escrivaninha.

São sete as figuras femininas que representam as musas de Bocage, personificando a Inspiração, a Dor, a Ironia, a Boemia, o Lirismo, a Revolta e o Erotismo, que guiaram o poeta ao longo de toda a sua obra. Muito embora haja a tendência de procurar no Erotismo a identidade de Bocage, sua obra é muitíssimo mais que a poesia burlesca e satírica que tantos tanto apreciam…

A Camões

 

“Camões, grande Camões, quão semelhante

Acho teu fado ao meu, quando os cotejo!

Igual causa nos fez, perdendo o Tejo,

Arrostar co’o sacrílego gigante;

 

Como tu, junto ao Ganges sussurrante,

Da penúria cruel no horror me vejo;

Como tu, gostos vãos, que em vão desejo,

Também carpindo estou, saudoso amante.

 

Ludíbrio, como tu, da Sorte dura

Meu fim demando ao Céu, pela certeza

De que só terei paz na sepultura.

 

Modelo meu tu és, mas… oh, tristeza!…

Se te imito nos transes da Ventura,

Não te imito nos dons da Natureza.”

Barbosa Du Bocage

Outra Madrugada

madrugada

Despertar antes das quatro da madruga

Levantar, através das vidraças olhar

o breu do céu, sem estrelas pra brilhar

e ver a revoada dos meus sonhos em fuga…

Em breve, novo dia eu terei d’enfrentar;

Preciso barbear pra manter boa aparência

de velho bem apessoado de corpo e coerência,

além de valência pra vários dragões eliminar.

Meu cansaço já é de manhã

 

Medicinal

Saí de casa algemado

à minha própria liberdade

que me leva arrastado

contra a minha vontade…

Arbitrária Liberdade

que meu corpo contraria

meu corpo bem preferiria

ficar em casa, na verdade…

…Mas o Sol alegria me deu

e as forças me devolveu

induzindo-me à reação

Se o corpo faz corpo mole

e quer que ninguém o amole,

o próprio Sol é a medicação.