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Cafédamanhã

“…te vengo a ver/Cuando será domingo, cielito lindo, para volver…”

Nos meus dourados dias de middleteenager , quando tentava fazer um cover de Luiz Alberto Del Paraná mas só o conseguia, no mínimo, dois tons abaixo e mesmo assim nem sempre os dobrados para falsete saíam bem, domingo era mesmo domingo. Dia de ir à praia, crestar a pele sem qualquer proteção, mergulhar, cheio de vida, em águas cristalinas igualmente cheias de vida…

As recordações afloraram porque a Nina contou-me das confusões noturnas a que o seu subconsciente a submeteu sobre o calendário, realidade do dia da semana, o ser ou não ser domingo. Para mim, a noite foi meio tempestuosa mesmo, com muita chuva e ensonadas caminhadas pelo quarto, contrariando as cãibras.

Domingou, afinal, cinza-chumbo de veladas ameaças de tempo incerto, nestes tão incertos tempos. O café da manhã alegria me deu – Café forte que preparei naquela habitual cafeteira italiana de pressão, sobrevivente de múltiplos esquecimentos meus. No pratinho, os kitutes by Nina: Pãozinho caseiro, aletria gelada, bolo de banana. Tudo da melhor e mais gostosa excelência domingueira!

 

Trinados

O Leque

Surpreendo-me atualmente muito mais interessado e dedicado à guitarra portuguesa. Havia praticamente abandonado o instrumento, nivelando-me abaixo de zero quanto ao que sobra das minhas capacidades autodidatas. Não seria, julgava, sequer um iniciante, sem frequentar aulas com um mestre com alguma paciência para mim. Estou ainda longe de dominar as escalas com alguma presteza e as unhas que tenho e uso são impróprias para o fado Lisboa, mas começo a sentir-me mais à vontade com o Si-Lá-Mi Si-Lá-Ré, além das ajudas que se encontram hoje pelos You Tubes da vida…

Quadras suspensas

Que poderei fazer senão sonhar,

se a minha vida está no ocaso,

se o futuro já não é meu caso,

que poderei fazer senão sonhar?

 

Que pelo menos com o sonhar eu conte!

E que pelo menos parte da imaginação

eu logre preservar para a construção

dos meus mundos de faz-de-conta…

Recesso

Hoje é feriado, por defeito, dia do trabalhador, não do trabalho, que trabalho é palavra em completo recesso. A cada dia dos intermináveis feriados desta aparentemente suicida reação a um vírus, legiões de desempregados desembocam nas ruas da amargura, da miséria, da desesperança e da fome. Meu stress e consequente má influência no meu funcionamento cardiovascular está na razão inversa da rápida descida dos meios de sobrevivência ao mais fundo dos poços.

Enfastiado deste isolamento,

reajo mal a todo o momento

com humor de má catadura.

Mas neste meu mau reagir,

não há um insultar ou agredir,

sequer uma palavra mais dura;

Tão só um tal gritar do silêncio,

que no meu silêncio perdura…

Digo-te que…

 

…ninhos de traição e cavalos de troia sempre os houve, coração.

Por via deles, torrentes de sangue correram, correm e correrão.

No mundo político, interesses nacionais só em discurso eleitoral,

porque na verdade política, interesses partidários são o principal

Não exijas que político reconheça que é de ti que o poder emana;

Ele rirá da tua cara e, de arma e cassetete, te alienará por insana

Não existe político bom – quando muito, bom político encontrarás:

Ele te convencerá que é o maior, que feliz te fará; nele tu votarás!

Se eleito for, teu político poderoso se tornará e seu inútil poder pagarás,

porque, acredita-me, só nos impostos alguma mudança notarás…

Pé de camelo

Com o desenfreado e traiçoeiro oportunismo galopando por aí em volta do enorme fosso que engole a sociedade, neste belo domingo de sol eu digo, bem disposto: “Quanto mais conheço o político, mais eu gosto do camelo!”. “Mas”, pondero, “porque é que eu gosto do camelo, se nem lembro de ter chegado perto de um?!” Bem, também não lembro a última vez que estive perto de um político, mas acho que a resposta está no pé do bicho. Ou no que o pé do bicho me sugere. Esqueço, pois, o político, com um sorriso sacana, enquanto me volto para os íntimos detalhes das minhas guitarras…

Triste data

Agora já o Sol está alto neste dia de trágica lembrança, que não esqueço nem perdoo.

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Por outro lado, ou melhor, deste lado, é forte e nauseabunda, a inundação de merda provocada pelo transbordo das fossas políticas. Gigantesco e riquíssimo Brasil, sempre tão empobrecido e manietado pela maldição política! Amaldiçoados sejam todos os políticos do universo, sejam eles de que vertente sejam.

Ser Feliz…

“O que será ser feliz?”; ecoou a minha companheirinha esta manhã, após tal questionamento lhe surgir em alguma matéria que ela estava lendo na internet. Dispus-me imediatamente a responder: “Ser feliz é…”  Queria ter concluído com um “É ser feliz, oras!” Mas o silêncio que se seguiu não foi até este momento quebrado com a volta ao tema. Eu não consigo responder e essa é a crua realidade. Felicidade é mesmo de difícil definição porque é um sentimento relativo ao nível de ambição e expectativa de realização material ou status social, ou mesmo de vida amorosa. Raramente as pessoas se consideram totalmente felizes apenas por continuarem vivas e certamente não se incomodariam em ser, supostamente, muito mais felizes, se tivessem um pequena fortuna…

Se era um teste, eu concedo duvidar que ela, ao termo de 57 anos de vida em comum, entre namoro e casamento, se sinta de fato o que se possa chamar de “Feliz” assim mesmo com “F” maiúsculo com este fulano com quem convive agora ininterruptamente, encarcerada num pequeno apartamento por conta da pandemia e que ao longo da vida trabalhou como um louco, mas sempre tomou decisões e rumos contrários à sua vontade.

Microseres

Soldown6

Assisto fascinado à descida do Rei Sol, agora livre do prédio que me impedia apreciá-lo e fotografá-lo em toda a sua plenitude desde a janela do meu quarto. Enquanto o faço, reverencio a bela e poderosíssima Natureza, da qual sou parte integrante na minha, a qualquer momento aniquilável, fragilíssima pequenez.

Pequenez de alma grande, todavia! Alma grande, permeável à emoção da música fluindo do excelente trompetista no apartamento ao lado a meio da tarde. Melodias que ecoaram nas fachadas dos prédios e nos corações dos que preservam a sensibilidade. Preciso agradecer pessoalmente, logo que possível.

 

 

Pesadelos

Cataclismos de efeito planetário do tipo do que estamos envolvidos, deveriam unir os terráqueos, já que o sujeito do cataclismo parece ser o inimigo comum. Mas, como vemos e muito mais veremos e amargaremos, o mais impactante vetor desse enorme desastre, é o econômico. E nos trilhos profundamente abalados das economias está lá, de fileiras cerradas, a política com todo o seu oportunismo ideológico adicionando combustível ao pavoroso incêndio. A divisão é brutal, o ódio e sectarismo crescem, a julgar pelo que podemos ler nas páginas anti sociais; o cavaleiro da guerra agita-se, empina seu ginete com impaciência…

Aterrorizantes, essas minhas lucubrações noturnas