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autorretrato

Trinados tristes, triste alegria

a guitarra por companhia,

braço dado com a poesia

que no peito a opressão mitiga;

 

Nos versos que agora faço,

dos meus passos deixo o traço,

sejam sucesso ou fracasso,

nas rimas da poesia amiga…

 

Nestes tempos tão amargos

suspiros juntam-se aos ais

incertezas e riscos largos,

confinamentos, embargos,

liberdades, por onde andais?…

 

Já é outono na minha idade

É (sempre) primavera, na Liberdade!…

Medo

Obitos Covid19

Até ontem, dia 11, o Brasil apresentava, por resultado do surto de C-19, 50 óbitos por cada milhão de habitantes, conforme gráfico de dados mundiais acima. Isso coloca o país numa posição um pouquinho acima dos resultados no mundo em geral, mas extremamente baixo em relação a países europeus e aos EUA. Sabemos que esse número vai subir, como estão subindo também nos países que estão já a promover a abertura para estancar a desastrosa sangria econômica. Haverá, sem dúvida, muitas mais mortes a lamentar em consequência direta do surto, até que medicação efetiva seja alcançada. No entanto, se o planeta continuar estagnado por mais tempo, crescerá a outra calamidade já em curso, que é o desemprego, a miséria e a fome, crescendo em consequência a curva da mortalidade pelas doenças relacionadas à desnutrição e falta de meios. Seguem-se o descontentamento, a baderna de rua, a violência e até o pior: a guerra.

Escolhas e decisões precisam ser rápidas…

Aplauso

Aplauso

Sorri e agradece o artista, sob a cachoeira de aplausos que sobre si jorra simultaneamente dos dez andares de frisas acima. Sua música delicia e alegra a alma dos condôminos e mães homenageadas, enquanto mitiga amarguras e maus humores gerados pelo confinamento. O agradecimento é nosso ao Ricardo Nascimento, excelente trompetista forjado nas bandas militares e temperado nos palcos, ultimamente acompanhando a cantora Mona Vilardo.

Enquanto escrevo estas linhas, lembro de menino as várias e sempre goradas tentativas de tirar algum som de um trompete ou de uma simples corneta. Delas eu imaginava-me extrair melodias como o fazia Eddie Calvert, jazz n´blues rivalizando com o Louis Armstrong, improvisar ao cair da tarde, como o fazia o malogrado Zé requinta nas noites quentes de verão da sua varanda naquela aldeia milenar das minhas origens. Mas topava na embocadura e na falta pura e simples de pulmão…

Mães

Bacalhau da Mamãe

Há uma semana que as mães estão em evidência, como se em evidência elas não estivessem a cada sístole dos nossos corações de filhos, por elas tão engenhosamente construídos. Mesmo que esses corações apresentem aqui e ali rateadas no funcionamento, não obstante aqueles de sentimentos endurecidos, talvez até desapiedados, elas, as mães, lhes hão dado vida para que, incessantemente, pulsem, pulsem, até seu último pulsar…

Bem-haja, a todas as mães do planeta!

(Foto: Maravilhoso almoço by Nina, que diz não ser minha mãe quando as coisas azedam!)

 

Arbítrio

Refugio-me num isolamento pessoal, toda a vez que a Nina surfa naqueles insuportáveis canais de televisão ao serviço dessa burra ditadura à qual estou acorrentado, passando constantes ordens e proibições, além de imagens aterrorizantes de valas e valões esperando os esperados mortos, do tipo daqueles que se vêm nas fotos da segunda guerra. Fico em pânico, quando passa aqui na rua um carro de som ditando ordens, semeando palavras tais como “proibido”, “vedado”, “obrigatório”… Corro a olhar para me certificar de que, pelo menos por enquanto, os arautos dos grandes irmãos não estão armados. “Questão de tempo, acreditem, se este estado de coisas se prolongar!”, pensei…

Arrazoado ao vazio

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Nestas condições, proponho-me arrazoar sobre o vazio, pois, posto que está vazio, nenhum conteúdo espero ver ou sentir sair do vazio para agredir-me ou sequer criticar-me, mesmo que sobre ideias vazias de ideais tão vazios quanto o vazio deste meu arrazoado. Mas, aprendi quando criança pequena na escola primária, nem sempre o vazio se encontra vazio como pode parecer, por haver daquele mesmo ar que respiramos, enlatado nesse vazio. Podemos então esvaziar o vazio com uma bomba de vácuo e obter o vazio absoluto, semelhante ao que pode ser encontrado nos crânios de alguns nada poucos exemplares da fauna política…

Uivos

A noite passada foi muito chuvosa e o vento forte uivou pelas frinchas da deficiente vedação  das janelas. Igual às noites de invernia da minha infância. Aos uivos do vento, juntavam-se os lúgubres uivos das sereias nos molhes quebra-mar fustigados por titânicos vagalhões capazes de reduzir rapidamente a pedaços o mais forte dos cascos. Também lembrei do uivar dos lobos entre os pinheirais cheios de neve e de outros uivares que não sei explicar de onde vinham. Vai ver que eu próprio terei uivado durante o sono, mas duvido, porque o sono dela é muito leve, muito leve; Ela me teria acertado uma joelhada, se eu ousasse uivar. Também lembro de um período em que dei em uivar se um orgasmo era mais extremado, coisa inapropriada e assaz perturbadora do clima, ainda que no climax.

Não sei mais o que falar sobre os uivos, que foi o tema escolhido só para não falar do vírus, que não uiva, mas perturba, que arrasou com as nossas vidas por não sabemos quanto tempo, e ainda por cima, sem a certeza de se ao maldito sobreviveremos…

Luz de esteira

luzdeesteira

“Quanto mais apelo para a experiência de vida adquirida na vida que já vivi, menos proficiente e qualificado me sinto para enfrentar a vida que porventura ainda me resta”. Com esta confissão, eu esperava iniciar um texto com alguma lógica e autossatisfação, no qual toda a enorme carga de despreparo de que me sinto portador seria trazida à luz, trazendo alguma luz. Mas, constato, acabei por desembocar aqui, no meio do nada, sem direção, sem noção de razão e sentindo este chão com a mesma, ou mesmo acrescida, falta de firmeza que em tantas situações me apavorou, achava eu que por falta da tal experiência de vida.
É que o futuro, pondero, jamais se cansa de nos surpreender e surpreender os profetas…

(foto: “Luz de esteira”)

“…Eu hoje me embriagando/de whisky com guaraná/ouvi tua voz murmurando/são dois pra lá, dois pra cá”

Era balsâmica, a voz da Elis. Eu estava cansado e com sono no banco de trás de um Passat TS com dois colegas, cruzando a noite prestes a chegar ao nosso destino, após 320 kms de estrada estreita e movimentada. “Estragou o Whisky, estragou o guaraná…”, comentei bocejando. Os colegas concordaram com um sorriso. As primeiras luzes da cidade quebravam a escuridão da estrada, enquanto a Elis concluía, arrastando as sílabas sobre a melodia: “…São-dois-pra-lá, dois-pra-cá!” Corria o ano de 1975, a Elis era mulher de trinta, cantora de enorme sucesso e eu tinha apenas um ano a mais que ela.

Quarenta e cinco anos se escoaram desde aquela noite em Porto Alegre. A balsâmica voz da Elis há muito se apagou e hoje o Aldir Blanc deixou também este vale de lágrimas. Se eu acreditasse em vida após a morte, não duvidaria que eles os dois já se encontraram, para alegria de anjos e arcanjos…

Resta a fé

Que tédio, que tédio, meus prezados!
Os dias correm, dormentes, tementes;
Só os animais não parecem dementes
e seguem a vida pela natura guiados!
Tanto que gostaria de ser elucidado
sobre os resultados deste esconder:
Se todo o mundo continuar estagnado,
O que é que todo o mundo irá comer?
Dir-se-ia que é a surda luta pelo poder
toda essa tática de espalhar terrores,
toda essa prática tirânica de ditadores,
de populações inteiras fazer submeter.
Nada de bom prometem estes meios
e, sem esperança, ficam-me os receios
de coisas muito mais drásticas e feias…
Resta a fé que em algum momento,
surja enfim um milagroso medicamento,
que destrua o vírus e da política as teias.