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Neste dia…

Manhadesol

O Sol brilhou em mais um amanhecer;

Entre brancas nuvens, algum azul celestial!

Digo-me, num sussurro, que é bom viver,

que o mundo é mesmo lindo de se ver!

E, profundamente, inspiro o leve ar matinal…

 

Flano por sobre as quintilhas da poesia,

pra não surtar sobre as veredas da tristeza.

Solto-me, para extasiar-me na pura fantasia

do meu faz-de-conta tão pleno de magia,

que a amargura vira doçura e gentileza…

 

 

 

Divagando

Como seria a vida que eu pedi a Deus? Ou melhor: será que algum dia pedi a Deus a vida que eu achava que queria ter? Na verdade, devo colocar as coisas de forma diferente: Será que algum dia eu defini exatamente numa especificação escrita, a boa vida a que me achava no direito de ter e deveria oficialmente solicitar a Deus? Acho que, depois de filtrar o assunto, concluí nunca haver pedido coisa nenhuma a Deus e acabei recebendo de ânimo mais ou menos resignado o que Deus, por moto próprio, não por requerimento, me deu e o que terá recusado conceder-me. Assim fui vivendo até atingir o ano de graça de doismilevinte com a idade de setenta e seis, só por si cheio de mazelas próprias de tal idade, agora perigosamente acrescidas da maleita coroada que faz deste ano de graça uma desgraça, afinal. Pedir a Deus para sobreviver à maleita? Isso não adiantaria nada, porque, porque…Bem, não dizem que esse tipo de coisa está já escrito não sei onde?…

RIP, Christophe!

“J’avais dessiné / Sur le sable / Son doux visage / Qui me souriait”…

A Voz límpida, sonora, romântica, fluía dos sulcos do disquinho de 45 rpm através da agulha sem pedigree, até se abrir aos meus ouvidos e sentidos pela boca do alto falante instalado na tampa do meu toca discos baratucho. Com tal equipamento, dir-se-ia não poder ser a voz tão límpida e sonora como desejaria; no entanto, se bem recordo, nada perdia do seu romantismo que tanto a alma me massageava.

…” Et j’ai crié, crié, / Aline! / Pour qu’elle revienne / Et j’ai pleuré, pleuré / Oh! J’avais trop de peine”…

Corria o ano de 1965, experimentava as duras realidades da caserna e a saudade do meu lindo amor. O compacto girou, girou, até que os riscos e ruídos passaram a arranhar meu frágil e sensível coração…

Christophe faz parte de indeléveis memórias de um período de vida extremamente rico, onde não faltaram riscos e momentos muuuuiiito loucos…

Ter medo

Neste dia, mesmo que com diminuída alegria,

prometo controlar meu tão antipático simpático;

Achar uma força positiva para baixar a tensão,

porque o stress é uma prensa hidráulica de opressão.

Hoje eu digo que vou me recuperar, reabilitar, me achar,

porque perdido eu estou no meio do niilismo medroso.

Ah, sim, porque eu também tenho medo, muito medo,

porque afinal, sou humano e tenho um cú…

 

 

Eu digo que a preocupação aumenta a cada minuto. E como ficaram longos e penosos os nossos minutos! Porque a insanidade está mundialmente estabelecida a todos os níveis, muito especialmente a nível dos que, em seus respectivos países, se fizeram eleger para as lideranças dos poderes, alardeando-se superpreparados para decisões para as quais, oh previsível surpresa, estão completamente despreparados. Detalhe: Nenhum nome escapa, seja esquerdeiro ou direiteiro, porque todos eles são, tão somente, desonestos oportunistas. Restava-nos a esperança nos magos dos laboratórios e nos médicos-de-palavra-d´honra , mas estes estão também manietados pela matilha infame, que parece determinada a garantir o maior estrago e mortandade possível para, das cinzas fumegantes, atingirem seus miserandos objetivos.

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Olha…Não chora não!

Me dá aqui a tua mão

enlaça teus dedos nos meus…

Sentiste? Meu coração bateu

em exato uníssono com o teu,

ainda síncronos, graças a deus!

Temos as nossas coisinhas,

querelas, discussõezinhas,

com um ou outro dissabor

Sou nem metade do que era,

reconheço, mas espera:

não há entre nós desamor!

Afetou-nos a quarentena,

impaciência não é pequena

de estática de amargurar

Internos no sanatório geral,

espécie de alienismo mundial!

Deu a louca no mundo, quem vai escapar?…

 

 

Cloroquina

Quem nasceu, ou como eu viveu boa parte da vida em África, no meu caso em Angola, ingeriu de tempos em tempos produtos farmacêuticos destinados a prevenir a ocorrência da malária, ou paludismo como mais comumente chamávamos a malária. O produto era fornecido em comprimidos, sendo que quem estava inscrito num dos sindicatos de trabalhadores, dele recebia gratuitamente esse medicamento. O mais comum desses produtos era RESOQUIN, ou Resoquina, que tem como substância ativa, a CLOROQUINA. Era também bastante usado o QUININO, que é a base da Cloroquina. Havia mais produtos, como o Daraprin, que é uma pirametamina também destinada à profilaxia da malária. A Cloroquina e o Quinino são, pois, nossos velhos conhecidos e amigos. Se nós tomávamos ciclicamente a Resoquina cuja substância ativa tem, em conjunto com outros fármacos o benefício de contrariar ou resistir ao avanço do Corona na falta de uma efetiva vacina, não usar o produto para tentar salvar algumas vidas, parece-me ser indefensável. No estado do Texas, com uso da Cloroquina, de um grupo de 150 infectados, houve ZERO óbitos; Em outra região dos EUA com séria rejeição política ao uso do medicamento, no mesmo período, em um grupo de 140, verificaram-se 30 óbitos! Ainda resisto à ideia de que a rejeição ao medicamento seja com intuitos políticos, porque nesse caso e se confirmado, estaremos na presença de crime hediondo. A História, mais cedo ou mais tarde, julgará, acreditem-me.

Quem ordena

Noto meus braços com mais manchas senis e derrames de pele, ultimamente. Não irei culpar o vírus, pelo menos diretamente. Mas o isolamento tem influência, porque sobra mais tempo para dar atenção aos pormenores do meu envelhecer. Velhice, dizem, é uma merda! Até pode muito bem ser mas, concordemos, só não envelhece quem já morreu. Mas sim, encontro-me naturalmente de humor alterado e macambúzio, porque sobram razões para esse meu sentir. E não me digam para me alegrar porque eu poderia estar entubado, de respiração assistida, etecetera et al, porque uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Eu deveria estar onde tão soberanamente desejo estar, não fora este um período em que meus desejos, neste transe da desventura, são quem menos ordena. Se ao menos eu pudesse cortar meu cabelo…

 

 

Assustador

Vejo que a hidroxicloroquina ajuda a contrariar o coronavírus, mas só dependendo de se és ou não  alinhado com a cor política dos que no produto veem uma esperança de tratamento positivo. À medida em que a essa pavorosa mistura da peste viral com a oportunista peste política vai sendo adicionada a componente da ruína econômica e consequente fome, poderão reunir-se as condições para acontecimentos muito mais drásticos…

Os Cavaleiros

Pale Horseman

Felizes momentos podem ser só momentos nos intervalos dos tormentos. E é nos piores tormentos que mais recordo os felizes momentos. Desfolhar fotografias é desfolhar páginas da minha memória, trazendo de volta o que tenho de mais certo tirando a morte: O passado. Porque o futuro da minha vida em vida, separando tempos de guerra, poucas vezes terá sido tão incerto. Reconheço que as ideias expressas nestas linhas são tão ululantemente óbvias, que podem nem a mim fazer sentido escrevê-las. Mas foi o que se me ofereceu enquanto desfilava imagens empilhadas nos arquivos, até me sentir enfastiado. Fastio desta vida, mas certamente não da vida, ou seria ilógico trancar voluntariamente o que dela, da vida, ainda me resta, com o intuito de me poupar à passagem do Cavaleiro da Peste e no meu casulo procurar esconder-me do Pale Horseman que, com sua implacável foice, anda por aí rondando para concluir o serviço…

Inveja

Verde ao lado

O verde aqui ao lado está mais verde sob a chuva mansa e a manhã de pouca luminosidade. Imagino-me a subir um daqueles acessos às trilhas que penso ali existirem, talhadas pelos moradores adoradores criadores e tratadores daquela pequena floresta de paz e passarada. Ali, penso, o isolamento será prazeroso e medicinal; Tento, debalde, aspirar um pouco dessa mistura para mim, daqui, da janela do meu quarto do meu claustro, no décimo andar sobre esta alta pilha organizada de concreto estaqueada sobre concreto sem uma pequena floresta como aquela ao lado, invejável pequenino grande paraíso verde. Temos aqui, é certo, um jardim razoavelmente cuidado – melhor que nada, mas ah! Que pena não termos um florestinha para chamar de nossa…