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Do Casulo (56)

São quase 20:00 horas de um sábado que de destaque, apenas a segunda caminhada pelos quilômetros medicinais do calçadão de Icaraí. Tive ganas de parar completamente de escrever estas pequenas crônicas diárias que eu próprio já cansei de ler, mas reconheço nelas um exercício de alguma valia para manter os restantes e combalidos neurônios com alguma atividade. Noite passada foi de esquisitíssima atividade subconsciente, de sonhos impossíveis por serem sonhos mas perfeitamente possíveis enquanto sonhos. Confundo-me, confundindo quem me leia, mas os tais sonhos incluíram nomes e figuras que já não figuram entre os vivos e isso, sinceramente muito me perturbou. Com o humor mais para menos que para mais, contagiei e irritei a minha maisquetudo que, no decorrer do dia, mais razões em mim terá encontrado para considerar-me algo como o seu menosquenadadenada…

Dia azul

Blue

Uma superbaixamar deixou as rochas ao léu nesta nossa primeira caminhada pelo calçadão desde o dia 18 de Março. Completados, portanto, sessenta e quatro saudosos dias afastados dos azuis, que tão brilhantemente azuis hoje estão, como que comemorando o reinício de alguma vida externa! As pedrinhas da calçada portuguesa estão todas lá sem faltar nenhuma e o mesmo se pode dizer em relação aos conhecidos pontos com falta delas. Não tivemos que desviar de cocô canino nem de ciclistas em desatino. Ninguém da hiperconcentração de guardiões impediu o nosso caminho e da paisagem livremente desfrutar. Os músculos das pernas estão deliciosamente doloridos, mas estão de amargar os calos de estimação há muito sem tratamento profissional. Para reentrar no casulo, o complicado procedimento habitual, que nem tão complicado é se compararmos com os procedimentos para reentrar na ISS depois de trabalho externo no espaço…

 

 

Do Casulo (54)

Procuro freneticamente um moto para iniciar um texto que não inclua a praga vigente. Observo a floresta de retratos encaixilhados sobre mesinhas e consoles, mas nenhum me arrasta a falar dos passados familiares. Os cristais não me convencem a descrever coisas das nossas viagens e os quadros assinados por Willard e Arminda, tampouco me fornecem combustível para alçar voo e elevar-me a mais altos níveis de fertilidade de ideias. Cai-me a vista sobre os instrumentos repousando sobre seus repousadores, mas não, não, não, que deles eu já falei demais. Desistir é cruel palavra e de insistir, o cansaço estou a ponto de atingir. Falar de mim não é boa ideia, porque se de ordinário não me tenho em boa conta, no momento presente eu vou acabar por autoflagelar-me sem dó nem piedade. Finalmente uma saída: Alarme fisiológico de que ainda hoje não senti um vaso sanitário debaixo de mim…

Do Casulo (53)

Saída semanal do casulo para repor alguns víveres, ensejando ao mesmo tempo desenferrujar os músculos das pernas. Pareceu-me haver um pouco mais de movimento de carros e podemos ver que as não muitas pessoas circulando a pé na área e dentro do mercado, todas exibiam, tal como nós próprios, suas focinheiras de pano, como é recomendado. As compras foram leves por estarmos a pé, mas deu para incluir uma caixinha de bacalhau dessalgado. Ao retirarmos o produto do armário frigorífico, eu gritei a pleno silêncio dos meus pulmões: “P u n h e t a!”. Tal foi a estridência do silêncio, que a Nina escutou-me e assim foi o magnífico almocinho regado com um geladíssimo vinho branco bem maduro, bem seco. Ao repasto sucedeu uma curta sesta, interrompida pelo bradar dos alto falantes do big brother da vez no habitual brainwash: “fiquemcasafiquemcasafiquemcasafiquemcasa…” Nas entrelinhas, “Morra à míngua, mas morra em casa!”. Até esta hora, não escutei a presença, para mim aterrorizante, dos habituais helicópteros em looooongas pairadas não muito longe daqui. No meu apreensivo pensamento, eles vigiam, quais mastins na serra da estrela, os movimentos do rebanho de carneiros pagantes; Pagantes e confinados. George Orwell precisava estar aqui…

 

Realidade

De novo:

“Da proteção das cavernas
Há que sair para caçar
Se o medo te tolhe as pernas
À míngua irás soçobrar…”

Acreditem! Não há esperança de sobrevivência que não passe pelo trabalho e desenvolvimento. Estagnação é morte certa – muitíssimo mais certa que por qualquer vírus por mais coroado que seja. O vírus só em parte para matar pega de jeito, onde a miséria acaba matando a eito.

Valores de grande valor
que sem valor acabaram
Amores de eterno amor
que se não eternizaram

Amigos muito amigos
que a política separou
Figadais inimigos
que a política aliou

E o eldorado opulento
agora em decadência
riqueza a levou o vento
fica luta pela sobrevivência

Da proteção das cavernas
Há que sair para caçar
Se o medo te tolhe as pernas
À míngua irás soçobrar…

Certeza

Por certeza, só tenho a de que sou matéria viva na natureza, que à natureza matéria morta retornará, assim que “Da lei da morte me libertar”. Na celeridade do tempo, dominguei ainda mais lento; exasperante de lento. E divago, introvertido, divertido, por insanos pensamentos brincando de ser imortal neste meu estranho, estático e perigoso mundo! Um mundo paradão e sepulcral onde a dominância de milhares de milhões de bípedes entre os quais me conto, têm sua dominância contestada por andaço viral. Algo neste planetóide está muito mal…mas isso nada tem de original.
-Ou será que tem?…

Do casulo (52)

Adiamentos podem ou não ser mal vindos. Este que ontem nos foi anunciado é dos muito mal vindos, por ser mais um atraso para os meus planos e o prolongar do estado de sítio que inferniza os meus eus. “Nada podes fazer para mudar isso!”, dizem-me; Precisamente! A constatação da minha impotência para contrariar o status quo! O afã de fazer valer o meu querer de pessoa que teima em querer ser livre neste tão cantado terceiro milênio. É isso, porque no milênio anterior experimentamos forçados e angustiados perrengues e esperas em situações críticas e de desumanas incertezas que desejamos “nunca mais”. Quando é que se inicia mesmo a Era de Aquárius?… Em “Hair”, eles prometeram-me para este milênio, liberdade, paz e amor, sem armas, sem tiranos; Sendo, bem entendido, estes tiranos, tal como nós, seres bípedes biológicos, só que com massa cinzenta amalgamada com elementos fecais. Em “Hair”, não foram lembrados os vírus e bactérias que de quando em vez invadem, bagunçam  e eventualmente fazem parar o nosso complexíssimo e frágil sistema eletroquímico…

 

 

Geringonça

Para um hipotético livro que jamais verá da impressão os tipos, escrevi há anos o seguinte texto:

“…aqueles eram tempos de regime instalado por processo indireto, fechado, aferrolhado, mutretado em partido único, de legitimidade autocrática…” E continuava:  “Hoje em dia os tempos mudaram, os regimes que se foram instalando assim o foram por processo direto em sufrágio livre, universal, de lisura democrática, mas logo em seguida fechados, aferrolhados, mutretados  em coligações de siglas várias, no sentido de monopolizar o poder decisório, ou seja, fundidos em partidos únicos e plenipotenciários de legitimidade cleptocrática…”

Em suma: quem ganha não leva; Os coligados vencidos governam a seu bel prazer e os ganhadores submetem-se ou resignam. Modernamente, criação da fauna política da minha mui amada pátria lusa, tal tipo de “desgracia” é apelidada de “A  Geringonça”. Parece que o modelo foi exportado…

 

Invejo!

Oi Nelson Que bom ter notícias suas e saber que estão bem !!

Japão está bem relaxado Não há um lockdown verdadeiro Estou trabalhando alternado entre office e home e meu filho está tendo aulas on line mas fora isso continua normal A maioria dos bares e restaurantes estão funcionando Muitas lojas também Parques públicos abertos”

A mensagem acima é copia/colagem direta do “Message” do FB; A minha amiga Débora é engenheira paulista ex Embraer presentemente contratada pela Mitsubishi aeronáutica, residindo em Nagoya, Japão, onde ninguém usa a desgraça de um surto virótico para empurrar a economia, por decreto e à força, para o precipício e provocar o caos, a fome e a desesperança, com o intuito de obter ganhos políticos e promover golpes de estado.

Ah! Como invejo esse pequeno grande país de compactados 128 Milhões de almas de enorme capacidade de trabalho, perseverança, respeito e disciplina cívica! Tudo isso contido numa brilhante embalagem de Orgulho Pátrio!…