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Penas

wrecksss (2)

Confesso-me num daqueles períodos em que da pena só penas me saem. Seria talvez um bom momento para aquele tipo de poesia-sofrência de rasgar o coração na canção. Contudo, minha decisão tem sido a opção do silêncio, até que a alma mais se alegre, eventualmente.

Se estou triste, é porque estou triste,

e triste julgo saber porque estou;

Julgo ser por esse mundo tão triste,

que essa desgraçada peste nos legou.

Nesse mundo em retrocesso

sobreviver ficou tão penoso…

Os valores viraram do avesso:

O mal é bom, o bem perverso,

sobreviver pode ser bem doloroso!

No entanto…

 

Uno

Risingsun (2)

Sinto-me cansado. De tudo e de nada, porque o nada e o tudo confundem-se pornograficamente, como corpos nus numa imensa orgia. Nada faz muito sentido nas extravagâncias servidas ou sugeridas como remédios para as pestes – as várias pestes que me ameaçam a sobrevivência física e mental. Reconheço-me, todavia, coeso em mim. Quero dizer: Meus “Eus” parecem, no momento, permanecer unos em estado de defesa…

Por enquanto ainda sou eu

quem em mim por aí encontro;

pedaços de mim são tão eu,

malgrado um ou outro desencontro…

 

Fragilidade

Frágil! Sinto-me frágil como fazia tempo não me sentia! Ennio Morricone morreu!…Mas como?! Morricone era, no meu conceito, indestrutível! Se ele se finou, sem que de nada valesse sua imeeeeeensa capacidade de músico, sua genialidade, sua gigantesca alma criadora de emoção!…

Finaram-se-me as palavras…

Cinquenta e sete

Porque os anos voam

e as vidas se escoam,

eu quero comemorar;

Neste dia que não olvido,

soprei no teu ouvido,

que te queria namorar…

Há muito que o vento deixou de levar as palavras. Elas, as palavras, são espadas muito mais letais que aquelas forjadas em toledo e temperadas nas águas do tejo. O vento deixou de ser capaz de as carregar consigo e fazê-las dissipar no éter para que percam seu efeito, como sugeria o velho ditado popular. Palavras são maravilhas que, se usadas com maldade, viram armas infernais. Eis que a palavra-arma está em grande uso nas guerras intestinas das redes antissociais.

Declaração

Ainda que eu me desprezasse

pelo que não mais posso ser

Ainda que me desinteressasse

da vida que cansei de viver

E se nada mais me importasse,

e então, escolhesse morrer…

…morrer eu não me deixaria

só para não perder a alegria

de ao teu lado, todo o santo dia,

amanhecer, adormecer, amanhecer…

 

 

 

Sentei na sala…

…dedilhei sem paixão meu violão;

Não tardou, troquei-o pela guitarra,

que pra ser tocada precisa de garra

e não é de tolerar tocador sem tesão.

Deixei, pois, de lado os instrumentos

e dispus-me então a pensar em nada;

mas pensei em tudo, menos em nada

e dei um nó cego nos pensamentos.

Resolvi ler, que é excelente remédio

mas, sem atenção e com muito tédio,

as palavras soavam vãs, sem sentimento.

O sono! Só o sono me salvará!…

Té amanhã!

Medo

Dias e dias se sucedem
e tantas coisas sucedem
que são difíceis de crer
Depois, analisando o sucedido,
quedo-me pasmo, surpreendido,
como podem tais coisas suceder…

Castelos pretensamente inexpugnáveis que outrora construíra em torno de mim e que, confiante, abandonara para sair, livre, pelo mundo, voltam a acolher-me para isolar-me desse mesmo mundo onde a liberdade murcha. Sitiado, vejo avassaladoras cargas de energia negativa carregando sobre nós na forma de pestes viróticas, de pestes políticas, de bestiais pestes humanas, enfim. Eu, confesso, estou com medo; e você, não está?…

A Cigana

A minha mãoMinhas mãos acompanham-me a idade: Têm manchas senis, veias grossas no dorso, as palmas estão castigadas e, em sua brancura, transparece em profusão o azul venoso. Das calosidades do trabalho pesado de outros tempos, nem sombra; só as calosidades nas pontas dos dedos da mão esquerda, de tanto trilhar as cordas das minhas guitarras. Mas as chamadas linhas da vida continuam inalteradas, “legíveis” por uma competente cigana. Recordo aquela velha de longas, complicadas e rodadas saias, com pano suficiente para fazer uma tenda de campismo; Eu teria os meus doze e sentia-me bem importante com os meus ralos pentelhinhos.

Na palma da minha mão,
vejo-me as linhas de vida
onde a minha sina foi lida
por velha cigana d´então

Pensativo, olho-me a mão
assim, engelhada e venosa
recordo que a cigana d´então
por algumas moedas de tostão
anteviu-me uma vida ditosa

A velha cigana segredou
com ar sério e verdadeiro
o que a minha mão lhe contou:
“seria mulherengo, putanheiro…”

E que das águas do mar
um navegante eu seria
e do outro lado desse mar
felicidade eu encontraria

E disse-me que eu casaria
com uma lindíssima dama
e que com essa bela dama
um rancho de filhos geraria

Que seria longa, a minha vida
a julgar pelo que na mão lia
mas não disse quão sofrida
essa minha longa vida seria…

Quase tudo a velha acertou
do tanto que ela me falou
para merecer o seu pão…
e agora da memória avivo
porque eu ainda estou vivo
olhando as linhas da mão.

Pros & Cons

Com versões mais curtas e rápidas de caminhadas matinais pelo calçadão da praia, quebramos em parte, os malefícios dos benefícios de em casa nos resguardarmos. Não estamos interessados em pela peste sermos “covidados” e por isso procuramos proteger-nos. Afinal estamos na faixa de maior letalidade, que é dos 70 aos 80, a dar crédito à informação na página da Transparência dos Registros Civis. Temos a consciência de que o vírus é mesmo perigoso e a quantidade de óbitos não deixa dúvidas. Por outro lado, com as devidas precauções, é imperioso tocar a vida para a frente, porque não será tão cedo que teremos medicação de efetividade completa. Estagnar é a certeza de que outros males nada menores que o vírus em si, aportarão e, rápida e seguramente nos destruirão física e psicologicamente.