
O que este dia tem de especial, é que a minha neta Isadora completa mais um aniversário. Completa-o em companhia de sua irmãzinha Clarice e de seus pais Vanessa e Alison, ainda encerrada, encerrados, em longo lock down dentro dos limites de um apartamento. O dia de ontem foi véspera do de hoje. Dia de preparações que as irmãs muito bem usaram enquanto seus pais se desgastavam em horas de tumultuadas reuniões profissionais on line, fazendo possíveis e impossíveis malabarismos para manterem seus empregos e prestígio. As meninas juntaram todos os shampoos e cremes e, diligentemente os espremeram sobre sofás e móveis. Continuaram o serviço de desinfeção e limpeza, trazendo água em quantidade que consideraram suficiente e passaram a enxaguar todas as superfícies duras e moles que haviam selecionado para tal função. Um dos pais, não sei qual deles, teve finalmente a chance de uma pausa no trabalho e veio investigar a razão do estranho silêncio das manas: A bagunça e o estrago eram absolutamente indescritíveis!…
Nesta manhã de aniversário, as irmãs encontraram os outrora cômodos sofás arrastados para a varanda, todas as louças sobrantes retiradas do móvel – digo sobrantes, porque durante a função de remoção uma prateleira desabou destruindo em cacos uma boa parte delas; As duas pestinhas, arrasadas pelo C-19, arrasaram o apartamento!…


Minhas mãos acompanham-me a idade: Têm manchas senis, veias grossas no dorso, as palmas estão castigadas e, em sua brancura, transparece em profusão o azul venoso. Das calosidades do trabalho pesado de outros tempos, nem sombra; só as calosidades nas pontas dos dedos da mão esquerda, de tanto trilhar as cordas das minhas guitarras. Mas as chamadas linhas da vida continuam inalteradas, “legíveis” por uma competente cigana. Recordo aquela velha de longas, complicadas e rodadas saias, com pano suficiente para fazer uma tenda de campismo; Eu teria os meus doze e sentia-me bem importante com os meus ralos pentelhinhos.