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Imortalidades

Nada aprendi, afinal, com os erros cometidos e sofridos, a julgar pelos erros que insisto em cometer no outono da vida. De nada vale afirmar com convicção que não repetirei, porque é considerável o risco de que, em algum momento, o afirmado desrespeitarei. Concluo ser o errar tão imortal quanto a própria morte…

Papo musical

Dia destes, alguém do meu círculo desdenhou do “samba de uma nota só” como “coisa” sem qualquer valor para quem tanto cultua o purismo erudito da música barroca. Sendo eu próprio também um apaixonado pela música antiga, não hesitei, todavia, a sair em defesa de uma peça de tão simplória base melódica. Referindo-me a “Amadeus”, argumentei, falando da simplíssima pecinha que Salieri escreveu para o imperador praticar sua performance e o efeito transformador dos geniais improvisos de Mozart sobre o tema.

É vero que, virtualmente, qualquer tema musical pode ser vertido para um pote e resultar em maravilha jazzística, tudo dependendo do génio do druida. O “Samba de uma nota só” pode até soar como uma enfiada linear de notas repetidas ad nauseam, mas que ganham todo o sentido uma vez engrenadas à metalinguagem do texto. Na sequência, tudo muda a partir do momento em que a genialidade instrumental a transforma num rítmico e sempre mutante Poema Harmônico!…

Maudormir

Ah as cãibras, as cãibras, que mau dormir me provocam! É o despertar com dores insuportáveis, é a insuportável dificuldade para voltar a mal adormecer para em seguida ter nova crise, novo passear no escuro, a pisar gemidos surdos…Depois já é de manhã de amanhã. Será do vinho que bebi? Mas só duas tacinhas ingeri! Do caldo verde é que não foi, certamente. Foi talvez do doce pavê, mas conjeturar praquê? Não vou mesmo saber porquê…

Hoje…

Proso-me embrulhado em poesia, posto que este belo dia foi-nos dado pra viver. De noite uivava o vento, que soava qual lamento de presságios de temer. Credito o temor ao cansaço, porque estava um bagaço quando cedo me deitei. Mas eis que novo dia pintou, o humor logo melhorou, porque, afinal, vivo acordei!

Cansado, na cama desabei

e já na cama te encontrei

tão cansada quanto eu…

Olhamo-nos enternecidos

mas estávamos tão rendidos

que o sono logo nos venceu…

Outroacordar

Acordei disposto a sextafeirar uma semana atípica, resultante de atipicidades e loucuras outras. O Sol está lá, surgindo mais um pouco à direita das minhas referências. Reflito que daqui a uma semana deixarei, deste meu posto de observação, de assistir e fotografar o nascimento do Rei. Os dias sucedem-se, planos e metas também, apesar de aparentemente descabidos e questionáveis…

Manhã

Mais uma manhã, tão bonita manhã! A poderosa fonte da vida se alevanta e exibe sua palete de cores em policromáticas promessas de que, ainda em mais um dia, poderei fingir ser alguém.

E agora eu era alguém…

que a vida enfrenta sem temor,

que a vida goza sem sentir dor

que minimiza o mal que a vida tem

Agora eu era alguém…

com imunidade a vírus e andaços,

a pestes políticas tolhendo passos,

que ironiza a maldade que a vida tem

E agora eu também era alguém…

Que a cada sístole do coração,

realiza que a vida não é em vão,

malgrado as maldades que contém!

Doçuras

Vindimas são violentas empreitadas para quem a elas não está habituado. Dores musculares e de coluna ficaram por alguns dias após a colheita das docíssimas uvas que já terão sido transformadas no que resultará em docíssimo e espirituoso moscatel de Setúbal. A abelhinha da foto aproveitou os últimos momentos da doçura in natura. A colheita já aconteceu há quase duas semanas, mas a vontade de escrever só agora pintou…

Respeitosas putas

Sabadei cedo da manhã, sentado à escrivaninha fazendo que escrevo, fazendo que leio enquanto leio um manuscrito que, em abertura aleatória, me surgiu ante os olhos: Em “Feminina”, Mário de Sá-Carneiro diz que queria ser mulher e porque tal queria, em quadras rimadas. Depois de ler, fiquei com a impressão de que o Sá-Carneiro, se mulher fosse, seria uma puta de grandes dotes literários…

Atrás de mim, sentada no sofàzinho do escritório, a minha mais-que-tudo está embebida nos ins and outs internéticos com seu Ipad, que chama carinhosamente de “bichinho”. Ela nem imagina que seu homem há cinco décadas e meia, está avaliando a probabilidade de que poderia ter resultado uma mui respeitosa e filosófica puta, caso houvesse nascido mulher.

Da Feira

Feiras de Livros são irresistíveis, não importa em que coordenadas geográficas. Feiras de Livros com extensão igual ou acima da de Lisboa, requerem também tempo e muita disposição para dedicar um mínimo de atenção a tantos stands com tal variedade em literatura. Especialmente com tanto calor, ainda que ao fim da tarde! Cansativo, porém delicioso…

Serena é a Lua