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Valeu, Willie!

Mists

Willie Littlejohn deixou-nos, depois de resistir bravamente ao câncer que o devorava. Sobreviverá comigo a recordação de um chefe e amigo, que foi um dos mais fortes, resilientes e engraçados personagens da minha ópera de vida. O enorme escocês que durante décadas fez parte do meu fado de oilman, lograva ser respeitosamente obedecido e até temido, criando em torno de si um alegre ambiente enquanto enfatizava o valor do conhecimento, disciplina e da responsabilidade, em meio ao drama real de uma perigosa atividade de baixa tolerância a erros. Descanse em paz, amigão!

Apresentação

Eu, próprio eu, aqui me tenho;

A mim próprio me apresento,

sem as forças pessoais de antanho,

mas, enfim, o meu melhor eu tento

com o que me resta de alento…

Eu, próprio eu, aqui me tens;

A ti me apresento como estou,

sem a figura que na memória reténs,

mas com o que da vida me sobrou

e o mesmo amor que por ti transbordou…

Clarice,100 anos

Conquanto admirasse Clarice Lispector, a verdade é que pouquíssimo sabia sobre sua vida até que, corria o ano de 2014, recebi em casa um inesperado presente de ouro: Um exemplar do livro biográfico “Clarice,” (Clarice vírgula, saliente-se!), do excelente Benjamin Moser. O inestimável presente foi-me enviado por Maria Elisa Guimarães, a “Meg” do Blog “Subrosa” (Flabesgasted), espaço dos mais admirados e bem frequentados nos áureos tempos blogueiros. Seis anos decorridos e havendo lido a obra da autora que completa amanhã 100 anos, continuo nela vidrado, ainda que falhando na tentativa de decifrá-la. Afinal, segundo Clarice, a própria esfinge não conseguiu decifrá-la…

Metralha

Muita gente lembraria o rápido cacarejar da mortífera MG 42 na sua terrífica cadência de 1200 projéteis de 7,62mm por minuto. Porquê lembrar de uma velha mas eficientíssima metralhadora de guerra? É que a bandidagem dos morros aqui à volta, interrompeu há pouquinho um duelo para armas automáticas, das quais sobressaía uma com uma cadência tal, que deixaria a temida MG 42 ruborizada! Foi o show de boas vindas a quem chegou esta manhã de volta à Cidade Maravilhosa…

Alma Minha

Meu espaço gerador de ideias, meu outrora tão confortável como seguro casulo por mim próprio criado e onde habitualmente me sentia incontestável senhor daquém e d´além mim, está desolador, rochoso, vazio, nada acolhedor e, dir-se-ia, resvalando fora da minha influência e comando. Assim, conquanto no espaço eu entre amiúde, dele saio em seguida, invariavelmente amargo e sem perguntas a tantas questionáveis respostas. Naturalmente, debito a carga do meu caos ao caos. À tirania da vez, que usa a peste para me privar de ser um ser livre. Preciso convencer a minha alma a aceitar a nossa triste condição. Será difícil, porque, eu sei, a minha alma nunca irá submeter-se…

Na noite de ontem, percorri as ruas da amargura daquela mesma Lisboa que por esta data no ano passado, trepidava em toda a sua universalidade de velha novíssima cidade aberta, atraente e gostosa de se visitar e curtir em todas as suas peculiaridades. Agora, mingua a iluminação oferecida para o Natal deste ano de peste. Tudo está mais pobre, sem brilho, sobre as calçadas portuguesas vazias não se escutam os sons da multitude de idiomas e culturas, dos habitualmente muitos comediantes e músicos de rua, estátuas vivas e outros street performers. Lojas encerradas, esplanadas e restaurantes que ainda sobrevivem a esta tragédia desoladoramente desertos, pontos de interesse na penumbra. O som lamentoso de um solitário violoncelo apressou meu regresso e influiu na minha dificuldade para adormecer…

Impensável

Pensamentos impensáveis?

Ocorrem-me com frequência,

mas ofereço-lhes resistência.

Posto que impensáveis,

por certo não serão exteriorizáveis,

sendo por mim próprio censuráveis.

Filtrados, meus impensáveis pensamentos

assustam-me por tão reveladores de mim…

Caminho…

…e, enquanto caminho, vejo marrecos em pequeno bando, no que resta dos lagos de águas pluviais da várzea, remanescentes das últimas chuvadas. Os patos bravos, pensei enquanto os observava, são felizes com o tanto que a natura lhes faculta para a sobrevivência. Não precisam de casas com certificação energética classe A de caros impostos municipais. Dispensam camas com colchões tempur, roupeiros de complicado design para as roupas e calçado de griffes estupidamente caras. Olha só, como eles convivem, socializam sem distanciamento, copulam sem grilos sob esse azul de brilho incomparável! Que máximo: Eles não têm dinheiro, não montam árvores de Natal e não precisam sair por aí adquirindo idiotices douradas para trocar com os familiares e amigos por outras idiotices douradas que logo descartarão em infectas lixeiras. Infectas e poluidoras. Invejo, pois, os marrecos, por tudo isso que eles não precisam e, ainda por cima, suprema capacidade, são anfíbios e voam!!  Marrecos voam sem se preocuparem com atrasos e cancelamentos!  Ah! Como eu invejo os marrecos…

Acordei macambúzio, porque o sistema que pago me atraiçoou e fiquei sem sinal no momento da ignição do segundo estágio, logo a seguir à ejeção do primeiro. Tenho uma especial fixação em ver o foguete reentrar e pousar de volta à terra, feito gibi que virou realidade! Gravação não tem graça não.

Macambuzeei mais um pouco através da vidraça, buscando nos nevoeiros que me cercam, respostas para as dúvidas próprias de idoso nascido na primeira metade do século passado: “Vive la diference!”, diziam-me em bom francês! Eu tinha uma pilinha e duas bolinhas, com serventias a saber: Para se constatar que era machinho, para fazer volume na calça, para mijar em pé. Com o tempo, a natura por si própria me ensinou a mais sublime das serventias dos meus penduricalhos, que tantas e tantas alegrias e prazeres nos deram, sendo esse “nos” relativo a mim próprio e às minhas eventuais e definitiva parceiras de maravilhosa feminilidade!

Mas, se já em outros tempos me haviam taxado de “porco chauvinista” – coisa inventada por uma porção feminina com resistência a ser feminina e daí o queimar dos suportes das maminhas deixando-as soltas à gravidade, enquanto nós, os machinhos, reforçávamos a suportação dos balangandãs substituindo as cuecas samba-canção por “slips” ou “trouces” de seguridade mais confiável, as coisas no presente estão coisando ao extremo.

É que agora querem fazer-me acreditar que devo envergonhar-me da minha condição de homem com H porque isso faz de mim um homofóbico heterocentrado sexista, merecedor do repúdio universal…

Ofídico

Mordi de novo a língua. Mordi mesmo, fisicamente, sem metáforas. Como das vezes anteriores, irá doer-me e deixar-me de ovo virado. Concordo que ovo não tem nada a ver com a língua, mas aqui já é com metáfora. Posso até desvirar o meu metafórico ovo mas aquela dor na língua já se espalhou e dói-me o céu da boca também. Se eu fosse um sujeito muito ruim e venenoso, ficaria até receoso. Aqui estou eu, pois, a domingar um forçado recolher e ainda tenho que sofrer a dor da minha língua, que teimo em querer comer. Confesso-me com uma tremenda vontade de soltar o verbo sobre uns políticos, mas recuo com prudência, não vá eu morder minha língua…