Carlos do Carmo foi pela natura dotado com a voz do fado, penso que através de sua mãe, a excelente Lucília do Carmo. Eu sempre pensava que se eu pudesse comprar uma voz como se fosse um instrumento a escolher numa loja de música, compraria a dele para cantar fado. Porque cantar rimas amargas de dor de corno ou de esperançosos amores com voz afinadinha, com potência suficiente para fazer-se ouvir e admirar au naturel, sem amplificação, foi sempre e afinal, condição essencial para atrever-se a abrir a boca dentro de uma taverna típica de alguma viela obscura da velha Lisboa. Dos idos tempos em que eu afirmava “detestar” o fado, recordo todavia a ponta de inveja que eu sentia por certas vozes masculinas “arrastadas”, meio rouquenhas, aparentemente calcadas nos vapores etílicos e madrugadas varadas enquanto por lá se iam perdendo os últimos resquícios da virtude…
Enfim, não estou insinuando que a imensa e irrepreensivelmente afinada voz de Carlos Do Carmo tivesse características de ginginha e carrascão, muito pelo contrário. Mas era marcadamente fadista e “quem ma dera…”




