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Falar de Fado

Carlos do Carmo foi pela natura dotado com a voz do fado, penso que através de sua mãe, a excelente Lucília do Carmo. Eu sempre pensava que se eu pudesse comprar uma voz como se fosse um instrumento a escolher numa loja de música, compraria a dele para cantar fado.  Porque cantar rimas amargas de dor de corno ou de esperançosos amores com voz afinadinha, com potência suficiente para fazer-se ouvir e admirar au naturel, sem amplificação, foi sempre e afinal, condição essencial para atrever-se a abrir a boca dentro de uma taverna típica de alguma viela obscura da velha Lisboa. Dos idos tempos em que eu afirmava “detestar” o fado, recordo todavia a ponta de inveja que eu sentia por certas vozes masculinas “arrastadas”, meio rouquenhas, aparentemente calcadas nos vapores etílicos e madrugadas varadas enquanto por lá se iam perdendo os últimos resquícios da virtude…

Enfim, não estou insinuando que a imensa e irrepreensivelmente afinada voz de Carlos Do Carmo tivesse características de ginginha e carrascão, muito pelo contrário. Mas era marcadamente fadista e “quem ma dera…”

Felicidade

Estou, estamos, a meio da tarde do dia terceiro dos trezentosessessentaecinco que teremos à disposição, com opções várias de caminhos para a felicidade. Ou para o que, bem entendido,  convencionemos a nosso próprio arbítrio, chamar de “felicidade”. Sabemos que a felicidade real é habitual em curta duração, mas sabemos também que ela se estenderá por mais algum (indeterminado) tempo, à medida dos meios de que disponhamos para dopá-la com mais ou menos atrevidas doses de utopia. Porque utopia é sempre doce e realidade tende ao sempre amargo, por tão amarga ser em seu âmago. Felicidade, pode estar, pois, na habilidade de manter a estabilidade de um palatável agridoce ao longo de todos esses dias que, (hopefuly) teremos de vida para viver. De resto, há a felicidade primária, sine qua-non: A sobrevivência a toda essa merda viral…

Papo pós inaugural

Deliberadamente, recuei de qualquer postagem no FB ou mesmo nas Mukandas, durante o dia de ontem, inauguração do novo ano. Silenciei a muita coisa que li e acreditei, assim como ao tanto que me recusei a acreditar. Silenciei até com a notícia triste do passamento do Carlos do Carmo – aquela voz do fado que eu tanto queria para mim. Silenciei o meu revoltado silêncio contra a dolorosa desgraça que é a politização da desgraça. Contra  a traição à sua própria terra-mãe, exacerbando a desgraça da peste com o objetivo de atingir o seu pessoal desafeto político, amplificando a voz do medo, do medo, do medo, como arma de submissão. A falácia de um argumento expondo a megafone um pico de óbitos num dia para gerar terror, afanando matreiramente a realidade dos números totais na duração deste maldido surto, que, pelos dados internacionais falam em 193.057 óbitos, o que resulta em 919,32 óbitos por milhão no Brasil no dia de hoje, o que é surpreendentemente baixo face a um universo europeu no qual se contem e emparelhem os mesmos 210M da população deste país. Eu não sou brasileiro, mas fico injuriado quando o Brasil é injuriado. Especialmente pelos próprios filhos!…

Brinde a 2021

Ano vai, ano vem, como convém,

tenta-se adivinhar o que por aí vem

e que sorte a sorte nos reservará;

Em vão as cartas poderemos jogar,

se em cartomantes formos de acreditar…

Mas o porvir na escuridão permanecerá.

Brindemos, pois, à vida, em vida,

posto que depois dela, a única certeza tida,

é que tudo com a terra se mesclará…

M´bora lá! Feliz 2021!

Desdolorido!

Hoje, penúltimo dia do conturbadíssimo ano de desgraça de vintevinte, despertei contente, se se me consente que contente desperte. É que as permanentes e malfadadas dores que venho há semanas padecendo ao longo da perna esquerda (sempre a esquerda), foram-se nada milagrosamente embora, após injeção intravenosa e mais uma droga oral em adição, de inevitáveis anti inflamatórios. A prescrição, feita por um ortopedista que me garantiu e comprovou pelo raio do xis que o meu mal é desgaste nas articulações, artrite reumatóide e outros nomes feios. Minha capacidade de resistir à dor, fiquei ciente, tem mesmo limite.

A minha maisquetudo está neste momento preparando para a virada, um repeteco de gostosuras tais como rabanadas, aletria, mosaico de gelatina dentre outras já experimentadas na consoada, mas que no meu caso, foram de apreciação assaz depreciada pelas suprareferidas dores que tanto me abalaram naquela noite.

Passado

Do Natal ainda os ecos soam forte, as crianças mal se familiarizaram com os novos brinquedos e os remanescentes dos típicos cozinhados e doçuras acabaram de acabar, deglutidos como convém, porque, como nos foi ensinado, nada que alimente deve ser lançado ao lixo. Descartados, só os retalhos já passados e bolorentos de diversas tentativas frustradas de gerar algum texto durante a quadra festiva, que agora releio enfastiado pela falta de substância e outras fortes razões de não publicação. Acordei de uma curta sesta que eterna me pareceu e, ao encetar uns passos, tive a surpresa de sentir como que diminuídas as dores ao longo da minha perna esquerda, que há já alguns dias persistem, infernizando-me dia e noite. “Vai ver que foi milagre pós Natal”, pensei por breves momentos, até cair na realidade de que ela, a malvada, lá continua me martirizando. Aparentemente é trabalho para ortopedista, mas certeza eu não tenho. O Natal é, pois, evento passado e contamos os dias que faltam para o virar de mais um ano…

Natividade

Pingentes reluzentes, iluminação, estilizadas estrelinhas num pinheiro de mentirinha. É um bonito enfeite que faz toda a diferença para lembrar e comemorar a quadra. Em criança não tive um pinheirinho enfeitado, mas não acho que sua falta tenha influído de alguma forma no meu carácter. Fui uma criança feliz sem árvore e recordo que no meu círculo se dava mais importância à montagem de um presépio simples com figurinhas de barro, para cultuar a tradição. O sapatinho sobre o fogão, poderia receber um quase-tosco carrinho de madeira, que teria o condão de fazer meus olhinhos brilharem de felicidade e agradecimento. Naqueles tempos de sobrevivência difícil, o pouco podia ser imenso…

Feliz Natal para todos!

Droga!

Nesta segunda, em plena semana do Natal, atravesso a rua em direção a uma farmácia. Simples reposição de medicamentos de uso contínuo, nada de mais. Este “nada de mais” no meu pensamento disfarça, não só a preocupação do perigo que nos ronda em relação à ameaça viral, mas também em relação ao crescente valor dos fármacos que preciso tomar para sobreviver às mazelas da idade. Anticoagulante, antihiperplasia, antihipertensão e não poucos outros anti mais, drenam o magro salário de aposentadoria. Quando atravessei de volta, carregando uma sacola contendo drogas no valor de R$ 755,00, gemi baixinho enquanto recitava as mesmas palavras de autocorforto: “Pelo menos estou vivo; Pelo menos eu tive os 755 para pagar; Pelo menos cheguei a esta idade – o meu pai não teve esssa sorte…” Polianei em voz baixa todo o meu caminho até à porta da casa da minha filha. Como de hábito, vou lamentar o gasto por alguns dias até esquecer, até atravessar para outra farmácia daqui por um mês e surpreender-me porque não serão mais 755…

Feliz Natal

Há um ano atrás, mais ou menos por esta data, eu lembrava que aquele seria o último Natal da década e que em alguns dias, quem vivesse veria, entraríamos na década de 20 deste século. De alguma forma, eu sentia uma espécie de receio. Os anos 20 do século passado foram de um pós guerra de acontecimentos terríveis de conflito político, morte, miséria e pestes. “Eu”, escrevi, “enquanto veterano de mui duras provações de sobrevivência, aspiro a, simplesmente, continuar sobrevivendo!”. Este foi meu desejo pessoal para 2020, que afinal trouxe consigo uma peste tão terrível quanto a de há cem anos, que acabou transformando o planeta numa amálgama de consequências inimagináveis.

Estas últimas semanas foram de perda de grandes companheiros, de alguns familiares e outros muito ligados à familia, sendo que alguns deles para o maldito andaço. A sobrevivência com saúde é, pois, o que de melhor podemos desejar aos nossos queridos familiares e amigos para este Natal e para o ano que entra. Esqueçamos então os habituais votos de prosperidades e fortunas porque, sem vida, de nada valerá a riqueza material…

Valeu, Willie!

Mists

Willie Littlejohn deixou-nos, depois de resistir bravamente ao câncer que o devorava. Sobreviverá comigo a recordação de um chefe e amigo, que foi um dos mais fortes, resilientes e engraçados personagens da minha ópera de vida. O enorme escocês que durante décadas fez parte do meu fado de oilman, lograva ser respeitosamente obedecido e até temido, criando em torno de si um alegre ambiente enquanto enfatizava o valor do conhecimento, disciplina e da responsabilidade, em meio ao drama real de uma perigosa atividade de baixa tolerância a erros. Descanse em paz, amigão!