Aturdidos são meus versos, muito mais que a minha prosa poética. Em outros tempos pretéritos, eu beberia em busca de inspiração e coerência, mas, como sempre, só conseguiria perder-me de ambos. Licores fortes, destilados diversos, destilavam-me os medos dos perigos emboscados nas sombras da ameaçadora mata. Sobreviver era preciso. Ainda é, por tantos outros perigos igualmente letais. Viver é uma aventura perigosa, sim, como não? Até hoje rejeito qualquer explicação do porquê da morte, que, dizem, é inevitável, salvo para os imortais, entre os quais eu teimava em incluir-me. Treta que em parte abandonei, por força dos meus relativamente recentes padecimentos físicos…
Amanheci em vãs tentativas de escorraçar o setembro, que julgo ter chegado muitíssimo adiantado. Meus meses, desespero-me, não poderiam transcorrer assim, em acelerado, num tempo em que os meus membros se encontram com tão desacelerado desempenho. Recebi, pois, o setembro, com evidente e impotente desagrado…
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A “Liberdade” continua a ser um papel velho deteriorado pelo tempo e pelos tempos, como aliás me lembro haver sido ao longo da minha linha de vida de setenta e sete anos. Quando julgamos gozar de liberdade, não tardamos a concluir de que se trata, afinal e tão somente, de uma liberdade ilusória, relativa, precariamente concedida pelos detentores do poder, a quem concedemos poderes para, coercivamente, na porrada, reprimir nossos anseios de autodeterminação, livre arbítrio…
Um dia eu escrevi, questionando como seria ser livre:
“Sei que querer é poder, ou pelo menos assim sempre me disseram. Então, eu quero ser livre porque eu decidi ser livre, logo, eu sou livre e pronto, dou alegremente um viva à minha liberdade! Mas, aos poucos, fui-me apercebendo que estava percebendo uma realidade assim meio que encarcerada. E que eu estava e estou do lado de dentro desse encarceramento, posto que é o lado em que cada adulto se olha interrogativamente como se perguntando onde é a porta de saída. Não, o meu querer não tem todo esse poder que o meu parco poder parecia querer.
À liberdade, à liberdade!
Brado eu, voz livre e forte!
Mas, oh triste verdade…
Livre, livre, só mesmo na morte…”
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Amanheci meu sábado sem sinais de que o aparente resfriado tenha descido das vias nasais para a garganta. Acredito, portanto, tratar-se da minha velha alergia, de volta após desaparecer graças às fortes doses de anti-inflamatórios ingeridos por conta dos meus problemas de artrose. Dormi em cama e quarto separado da minha companheirinha, por receio de lhe passar o tal aparente resfriado. Mas a falta dela na cama, mais a cama estranha, mais o colchão de molas que me pareceu uma tarimba, juntaram-se aos habituais elementos incomodativos para uma noite mal dormida. Abandonei a cama pouco depois das 06:00, para, no escritório, confirmar que estou vivendo uma fobia aos meios eletrônicos de que disponho: Computadores, I pads, smart phones. Se os ligo, sinto-me compelido a “uma vista de olhos”, mesmo que rápida, por sítios que são hoje campos de batalha pejados de minas explosivas e de nauseabundas fossas de merda…
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É implacável, o tempo. Os dias vão-se escoando pelos drenos da vida, o corpo perde paulatinamente suas resistências, a mente as capacidades. As coisas do mundo deixam de interessar, as complexas ligações eletroquímicas da pensatrix com os órgãos vão-se corrompendo, interrompendo. Mas porquê tão longo sofrimento? A sério: O nosso corpo deveria vir equipado com uma chave geral que nos permitisse autodesligar-nos, no caso da irreversibilidade de uma doença do tipo da Parkinson…
Rest in peace, Mário!
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Passo a passo, medito, enquanto progrido em direção ao que a imaginação me disponibiliza para essa meditação: Às vezes tudo é de um azul lindo! E eu respiro livre, soltos e levíssimos são os desgastados membros que me carregam! Dir-se-ia que flutuo nesse azul profundo. Em seguida, porém, caio na real e meu casulo é infernizado por tumultuosas e insuportáveis sublevações de mim, em desordem contra a ordem da irresistível tirania que a todos parece arrastar e tolher no planeta. Governantes tão poderosos quanto imbecis, desmontam os baluartes da liberdade, abrindo-os de par-em-par ao retorno das mais sanguinárias bestas das trevas…
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Apresso-me a apagar o que vou lendo
porque nada do que li eu entendo
ou entendo que não devo entender…
Rótulos sibilam por todo o espaço,
valores são atacados a cada passo,
ficou tão complicado viver…
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O tempo continua bom, mas a familinha foi embora como era mandatório que fosse. E isso nos deixou um pouco tristonhos porque o espaço perdeu a face de caos estabelecido pelas duas maravilhosas pestinhas. Netinhas lindas hiperativas não mais e só restou por aqui um baita silêncio que, pelo menos por enquanto, é pesado e assaz barulhento. Mas vamos rapidamente reassumindo nossa solidão a dois, a braços com os nossos pequenos sofreres que tão sofridos achamos até que nos chocamos com gente enfrentando muito mais pungentes e agudos sofreres em verdadeiros infernos astrais. Somos, afinal, escandalosamente felizes…
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Penso dever pedir-te que me desculpes pela ausência dos meus textos, pobrinhos que são em valor literário, mas tão arautos dos meus estados de alma. A crua realidade, bloquinho, é que me sinto invadido por um eu incapaz de viver com as dores que lhe afligem os ossos. Eu, o resiliente, o resistente à dor, às dores me curvo capitulante e sem ânimo, macambúzio introvertido de um só som: “Ai!”…
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Ah! O convite ao recolhimento e contemplação: A nossa Lua, em toda a vermelhidão de recém-nascida! Em alguns, a meu ver, longos minutos, as cores do parto terão dado lugar ao brilho feérico que iluminará minha noite. Digo minha, porque sou eu quem para mim próprio canta ao descaramento prateado da diva. Se você dela gosta como eu gosto, solte-se e solte seu pessoal cantar, que eu, asseguro, não vou me incomodar…
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