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O nome da coisa

Foi especialmente longa a espera em silêncio, enquanto o ilustre doutor em medicina lia, interpretava e tomava notas dos parâmetros encontrados como resultado da análise do meu sangue e urina. Depois, foi a vez de analisar uma a uma as muitas chapas radiográficas feitas dos meus joelhos, quadril, ombros, cotovelos, torax…

Finalmente o silêncio foi quebrado e ele deu nome e sobrenome ao mal que me aflige: Artrite reumatoide. Falou-se bem mais enquanto ele se fixava nas prescrições de mais uma batelada de fármacos que terei de ingerir, cumulativamente ao que já engulo para as maleitas cardíacas e outras.

Levantando em mais uma manhã com as pernas e braços emperrados e doendo muito, repito sem parar: Que mal terei eu feito para merecer tal coisa?…

Vindima 21

A faina da vindima terminou na vinha dos Caria. A colheita foi considerada muito boa e os rostos estavam risonhos, enquanto a última caçamba partia para a entrega nos lagares de um dos mais renomados produtores de vinho da região. Desta vez só a Nina tomou parte no trabalho árduo que muita gente erradamente avalia ser um tipo de diversão. Com a saúde debilitada, nem para as fotos tive ânimo, que dizer para manejar uma tesoura, agachar para descobrir os cachos e arrastar baldes carregados. Quem sabe ano que vem…

Incontrolável

Mergulho em mim, na vã tentativa de encontrar forma de fortalecer-me e solidificar um pouco mais meu coração. Mas, mesmo depois de 20 vezes que me atrevi a assistir um vídeo da Orquestra Holandesa em concerto apresentando temas do filme “A Lista de Schindler”, quando durante o dueto entre a violinista e a oboísta esta última executa seu solo em lágrimas, eu invariavelmente despenco em profunda ravina emocional e choro incontrolável…

“Lunáticos”

No dia de ontem, às vésperas do início da vindima do ano, eis reunidos em confraternização na “Fazenda Nova”, alguns dos dedicados e experientes rádio amadores, que, tal como o próprio anfitrião, presentemente se entregam aos desafios do uso da reflexão da Lua para suas transmissões de sinais, voz e imagem. Isso não é nada de novo, mas as técnicas e meios vão se desenvolvendo e a troca de experiências é concomitante à troca de amizade. A atração foi a antena parabólica de sete metros de diâmetro e suas instalações eletrônicas de controle à distância, totalmente construídas e montadas pelo anfitrião.

Para preparar e confecionar o alegre almoço deste “Club do Bolinha eletrônico”, muito e muito bem trabalharam as “Luluzinhas” a saber: Elisabete, esposa do anfitrião, Arminda, minha menina, ajudadas pela Paula, filha dos Caria, nossa sobrinha.

Fragilidade

Com a mobilidade seriamente afetada e dores permanentes nas articulações, a disposição e humor ficaram, afigura-se-me, a distância quase inatingível. Tento, sem sucesso, encontrar posição que me dê comodidade para ler, ou escrever, ou mesmo dormir. O meu caminhar é trôpego e doloroso. Um especialista em reumatologia prescreveu uma boa quantidade de exames radiológicos e outros tantos clínicos, esperando descobrir a raiz disso tudo. Entretanto, ao terceiro dia de ingestão, as drogas receitadas para matar as minhas dores, falharam…

A histórica fragata, em sua privativa doca seca, continua sendo atração a mostrar aos visitantes que a não conheciam e muitíssimo surpresos e encantados ficam durante a visita. Neste domingo forcei minhas combalidas pernas a escalar a prancha de portaló e as íngremes escadas internas, para acompanhar e guiar familiares de Coimbra. Os canhões e baleeiras estão no cais, removidos para trabalhos de manutenção, a mastreação alta assim como todo o poleame foram temporariamente removidos. Do mastro da mezena, só as mesas das enxárcias e um vazio que incomoda quem conhece o navio em sua íntegra. A majestade remanesce, todavia…

Bocage

Neste dia em 1765, nascia Manuel Maria Barbosa Du Bocage. Aqui mesmo, junto do estuário do Rio Sado, bem pertinho de onde me encontro neste momento. Em tempos pré Covid, quando ocorria a oportunidade de estar por aqui nesta data, não faltava aos mais importantes eventos em sua memória. As comemorações bocageanas estão realmente em curso e vão prolongar-se até dia 30. No entanto, em que pese minha admiração pelo grande poeta, não me sinto com condições físicas para encarar…

Agustina, Agustina!

Confesso minha enorme dificuldade para, conquanto seu grande admirador, entender, na sua plenitude, Agustina Bessa-Luis. Acuso-me, pela frequência com que me perco no decorrer do texto. Retorno, retomo, para pouco mais tarde dar por mim no meio do nada, sacudindo a cabeça em idiótica atitude. Em legítima defesa, tentando encontrar-me em sintonia com a autora, eu leio alternadamente os textos de vários dos seus títulos, de forma concomitante! Isto também não deu muito certo e eu acabo por concluir ter, ou estar com falta de capacidade em razão da idade. Agora estou com medo dela – acho que aterrorizado até!…

Madrugar

05:00 da madruga, noite escura, escuríssima. Cama vazia dela, da minha companheiríssima. Eu durmo mal e incomodo seu soninho com meus gemidos. Encontro-a deitada no sofá do escritório, explorando a net no seu Ipad. “Desde as 04:30”, diz-me ensonada. Prometo-lhe ir em busca de ajuda mais efetiva para as minhas mazelas, que, obviamente, não estão sendo tratadas como deveriam. Segunda-feira está agora ante nós, com céu encoberto e ameaça de chuvicas. Sei que precisamos de movimentar-nos, forçando as doloridas pernas, porque parar não dá não.

Vamos lá…

Antologia

Nos meus tempos de kandengue, quando na impressão e encadernação de um livro ainda usavam técnicas de Guttenberg, se eu adquiria um novo livro, preocupava-me em separar todas as folhas com uma faquinha, para que fosse possível ler todo o volume, ou, caso não o lesse, não ficar envergonhado se a obra caísse na mão de alguém a quem havia afirmado a pés juntos tê-lo lido, sim senhor!

Cheguei a casa com a Antologia da Poesia Angolana intitulada “Entre a Lua, o Caos e o silêncio: a Flor” e comecei imediatamente a folheá-la, no que fui forçado a separar muitas das folhas levemente coladas umas às outras pela tinta avermelhada aplicada na periferia. Enquanto as soltava, soltava recordações, boas e más, da já longínqua juventude.

Na primeira e rápida folheada, já fiquei com a satisfação de considerar bem aplicados cada um dos apenas 20 euros pagos pela obra. Boa informação sobre as formas de Oratura, ou Arte verbal, sobre os idiomas nacionais angolanos e, muita, extensíssima e rica poesia cantando a terra e suas gentes por autores que remontam aos séculos XVII e XIX, até aos nossos dias, ao longo de 679 páginas!