Feeds:
Artigos
Comentários

Archive for the ‘Uncategorized’ Category

Solitária menina

Sun Prayer

Acordar de madrugada, espiar pela janela os primeiros e tímidos sinais de um novo dia ensolarado e quente de um verão pavorosamente quente. Um copo de água, a higiene matinal, uma fruta um pãozinho integral, um copo de água, a medicação matinal para controlar os desbalanços químicos dos meus desgastados órgãos. Depois, é a rotina, a rotina, a rotina dos dias vendidos. Se vendi os dias, é claro que os dias não mais me pertencem. Os compradores têm todo o direito de deles, dos meus dias, disporem e usufruírem . “Que insanidade, abrir mão dos parcos dias que me restam”, digo-me amiúde enquanto me revolto! Mas a revolta dá em nada – eu vendi e pronto, tá vendido! Ao trabalho que se faz tarde!

Mas, no caminho do trabalho tem um atalho. Atalho que algumas vezes me leva à praia, de onde posso enxergar o erguer do poderoso Sol em toda a sua omnipotente imponência! Omnipotente, imponente e pleno de dominadora arrogância! Emociona-me, todavia, antes de assustar-me com a grandiloquência e absolutismo do seu poder. Sou, pois, um adorador do Sol, fulcro central do meu Universo e da Mãe Natureza que a minha vida sustenta! Sustenta também, reflito, as vidas dos que compram os meus dias, convencidos, pobres mortais, de que são muito poderosos.

Uma destas manhãs, descobri nas sombras outro Ser meditativo da madrugada. Solitária menina, ajoelhada sobre um banco, segurava um livro e dividia-se entre o processo de nascimento do Astro-Rei e o que estava escrito no livro que segurava. Estava ainda escuro para uma fácil leitura, pelo que acredito que a solitária menina sabia o texto de cor e que o recitaria para o todo-poderoso que assomava lá no rubro horizonte. Invejei a solitária menina, tão menina, terrena, serena, pequena-grande menina terrena! Terá ela, tão jovem, já começado a vender como eu vendo, seus dias a troco da sobrevivência?…

Read Full Post »

A voz de Carminho garante-me um gostoso cafuné de alma enquanto devoro quilômetros calor adentro, dentro da minha bolha rolante comodamente refrigerada. Emparelho minha pensatrix com os versos que repousam sobre a melodia deliciosamente enfeitada pelos gemidos das guitarras. São sempre rimados, aqueles versos tão bem cantados! Ah! E como eu gosto da poesia rimada, ao ponto de jamais me atrever a dispor prosa poética em quadras, quintilhas ou sextilhas não rimadas.

O meu sistema dessincroniza-se de forma automática ao final da faixa e o pensamento acorda para a crua realidade: Encontro-me aos comandos de uma máquina de idade avançada, porém dotada de cavalaria para, enquanto eu deixava que o fluxo da poesia penetrasse nas veias e se juntasse ao fluxo sanguíneo, correr quilômetros sobre tempo inadequado à segurança. Ainda bem que acabei de trocar pneus e todos os amortecedores…

Desligo o som e concentro-me na condução, porque o trecho duplicado da BR 101 acabou. Daqui em diante os erros serão de mais difícil correção e podem acabar muito mal. O Charlie Hebdomadaire dirigia por trilha extremamente perigosa e acabou assim, muito mal, muito mal, muito mal. Tiro o meu chapéu e rendo-lhes minha homenagem, porque, no momento em que nos defrontamos com uma nova inquisição religiosa e cruzadas no sentido inverso, é preciso ter a coragem de os mandar por todos os meios à merda e ousar enfrentar esses malditos para garantir a liberdade de todos os credos, ou de simplesmente não crer em porra nenhuma.

Read Full Post »

Guerra

nós (1 of 1) - Copy

Um dia eu escrevi:

“Sentado na minha confortável poltrona acolchoada com a maciêz do meu descrêr, prezo-me e regozijo-me por não me encontrar entre os incontáveis milhões de seres biológicos deste pequeno planeta, amarrados a mais ou menos obscuros preceitos e preconceitos filosófico-religiosos que regem e dominam suas vidas por meio de forças diversas: Das mais violentas e sanguinárias autocracias do absolutismo religioso armado e cruel, àquelas de foro íntimo. As vergastadas sanguinolentas podem não ser a mais contundente forma de auto inflingir estúpido sacrifício pelo sofrimento. A auto flagelação pode incluir o não menos estúpido e não menos cruel processo de aniquilação pessoal em seus valores  profissionais, estéticos, de saúde física e psicológica…”

O ataque ao Charlie Hebdo não deixa dúvida de que as trevas estão tão cerca quanto nos tempos da inquisição. Os resultados dessa ação extremista não devem tardar com reações também extremistas no sentido oposto. Por isso, escrevi no Face Book uma referência ao Clã Le Pen, que certamente procurará tirar grande proveito para uma vez mais tentar chegar ao poder. Isso, sem falar que esta execução coletiva foi perpetrada a meio de manifestações de rua na Alemanha contra a islamização em curso naquele país. Pior, é que essa islamização éstá em curso em toda a europa, quiçá em todo o mundo civilizado. É a guerra! Mais ou menos na surdina por enquanto, mas é a guerra.

Read Full Post »

Virada

fogos (3 of 1)

Extinta a ultima girândola de multicoloridos fogos de artifício, podemos ver que a mesa está posta para doismilequinze; A toalha é surrada, cheia de nódoas e manchas. Sobre ela, baixela fina, faianças, rica porcelana e talheres de prata dispostos de modo a encobrir da melhor forma a indelével sujeira. Mais tarde, os convivas chegarão impecáveis nos trajes que tão bem parecem cobrir-lhes as mazelas de alma e corpo. Os senhores do poder se repetirão, garantindo assim a continuidade da rota em direção à continuidade…

Certezas para doismilequinze, só uma: a de que eu próprio e quem eventualmente leia estas linhas, sobrevivemos ao findo período. A propósito: Preciso de alguém que me dê uma boa e irrefutável definição de “Esperança”.

Read Full Post »

Mais um Natal se passou! Não, não era isso que eu queria escrever. Vou tentar de novo: Um Natal mais a menos nos Natais que me restam. Dramático! Também não, também não quero assim. Afinal, pensando um pouco mais, este que acabei de viver, foi um Natal com mui gratas diferenças em relação àquele vivido 12 meses passados, quando escrevi:

 “…Ilhados na nossa silenciosa solidão, acabamos de degustar a dois a frugal tradição centenária do nosso povo: Batata, verdura, ovo, bacalhau. Cozidos em água, simplesmente, regados no prato com azeite de oliva. Uma taça de vinho tinto sorvido em pequeninos goles, ajudou a passagem nas gargantas penosamente obstruídas em ponto de pranto.  Duas castanhas assadas no forno e uma fatia do mágico Bolo-Rei coroaram a nossa consoada. Sem árvore de luzes coloridas, à parte de todo o longínquo bulício familiar de filhos e netos…”

Este Natal teve, sim, árvore de pingentes coloridos atraindo e cativando os olhinhos brilhantes da nossa netinha Isadora, preciosa princesa que atraiu e cativou nossos velhos olhos, que assim voltaram a brilhar, revigorados que foram por tão milagroso colírio! Repetida foi a tradição centenária, porém, desta vez temperada com raras e delicadas especiarias. Pitadas de “Saudade” foram adicionadas para que assegurássemos junto de nós, em torno da nossa mesa, todos os nossos queridos ausentes…

Read Full Post »

hoje (1 of 1)

Amanheci meio cinza, não sabia se porque cinza estava a manhã ou se eram meus olhos que exteriorizavam o cinza que me envolvia a alma. Fotografei para comprovar, mas a foto saiu linda aos meus remelados olhos, apesar do ténue véu cinzento com que o céu pudicamente se cobria. A foto, concedo, forneceu-me um certo “improvement” ao humor e propeliu-me para o chuveiro. Se havia remela nos olhos a remela se foi na chuveirada. No lugar do café, uma caneca bem cheia de água fez o lastro para um delicioso mamão que devorei saboreando demoradamente como se de um ritual se tratasse. Ritual solitário, para um solitário dia que a multidão em torno de mim só fez acentuar.

Read Full Post »

Before the looking glass,

I sadly stared at my reflection:

“Senior!”, I whispered, “Third Age Class!”…

Whatever I am! I have no objection!

++

It’s so painful looking at me and see

that a lifetime elapsed so fast…

Remainings of the man I used to be

That’s all I find in the mirror at last

++…

Wise and clever I’m feeling no longer

and in doubt I am if I have ever been;

Have I at any time been stronger?

I asked my own wreckage in the mirror seen…

++

Laughed loudly at me the looking glass!…

Waves of heat and rage came up on my face

Should I destroy this miserable glass

that laughs at my ageing disgrace?

++

“Calm down!”,  I forced myself;

Then, got the razor from the shelf

and started shaving my chin.

At the mirror I stuck out my tong

then madly laughed and sang a song

and, finally, forgot about my ageing skin…

Read Full Post »

Fingir

Desmonto-me a pouco e pouco, e vou colocando meticulosamente peça sobre peça em vitrines de exposição do meu passado, só para alimentar nostalgias… O presente escoa-se a cada irrecuperável segundo e o futuro é uma curta jornada com destino mais que certo. Finjo, todavia, que a idade não está a desmontar-me de forma paulatina e inexorável. E como é bom ser um bom fingidor! Penso até em fingir que não é a morte quando a morte não estiver a fingir…

Read Full Post »

Cochilo

Havia...

De vidro é meu fojo onde dormito…

As vidraças vibram sob o forte vento

uivando pelas frestas do pensamento.

Do breve sono súbito acordo, aflito,

como se das trevas saísse num agito

com respirar pesado em sofrimento…

Por onde andei eu enquanto dormia

pra meu acordar ser em tal agonia

a ponto de me deixar em desalento?!…

Read Full Post »

At Toa

v (1 of 1)

Futebol nunca esteve entre as minhas predileções, resultando que o valor que pessoalmente atribuo aos expoentes da bola é geralmente de indiferença e, por vezes, até pouco lisonjeiro. É que tendo a escandalizar-me com as cifras astronômicas pagas aos ases da modalidade que se tornaram celebridades globais reconhecidas nos lugares mais remotos do planeta. A minha mais-que-tudo, nas incontáveis vezes que cruzou as fronteiras Singapura/Malásia/Singapura, sempre se surpreendia quando os oficiais de imigração de um e outro lado, ao abrirem seu passaporte, exclamavam: “Cristiano Rrronaldooo!!!!”, enquanto desferiam alegre e ruidosamente as necessárias carimbadas!

O pedreiro foi lá a casa completar um serviço a cargo do condomínio e deu uma real e alegre caprichada nos acabamentos, enquanto se empolgava contando à Nina que seu filho é candidato à escolinha do Vasco e que o garoto é fã-nático do CR7 sobre quem lê tudo e a quem mais que admira por seu empenho profissional, riqueza, carrões de sonho, etc. Não foi o passaporte, mas foi a pronuncia lusa que ela conserva quase incólume. No que ela abriu a boca…

De volta Macaé, meio macambúzio por me sentir cansado e, confesso, até meio fragilizado, não me achei com firmeza para sair sob este solzão para uma caminhada no calçadão da praia. Fechei-me na redoma com o AC em temperatura bem baixa e ensaiei o inicio deste texto, experimentando-me. Estou com uma sensação de vazio de alma. Preciso voltar à poesia, mas tudo o que produzo eu acho ridículo e isso é desencorajador e frustrante. Na expectativa de mudar de apartamento, fiz algumas fotos das vistas que das duas varandas desfruto por preço alto demais para um lugar tão quente e mal mobilado. O meu Domingo anoiteceu e nova semana de trabalho está chegando…

Read Full Post »

« Newer Posts - Older Posts »