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Amálgama

Trituro, amasso e mesclo despudoradamente a amálgama das intermináveis passeatas  que teimam em pisotear meus pensamentos. Como não tenho o sentido do olfato, não corro sequer o risco de ficar agoniado com o eventual mau cheiro desta mescla, enquanto, descarado, vou modelando caricatas figuras de retórica com a ajuda do que de melhor posso encontrar no  seio do absurdo. Lotes enormes de absurdo enriquecido estão por aí à disposição para uso irrestrito e eu já desisti de resistir à tentação de apropriar-me e armazenar boas quantidades dessa valiosa e gratuita materia prima…

Junho, 10

A Camões:“…Se te imito nos transes da ventura, não te imito nos dons da natureza” (Bocage)

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São indeléveis as marcas deixadas pela minha formação. Apesar da amálgama de traidores, entulheira de politicos e oportunistas destes tempos, porto no meu âmago a lusitanidade do jeito que me foi ensinada num tempo de miséria pós guerra, em que os males do culto à personalidade, catolicismo exacerbado e opção unica, tinham pelo menos a virtude de nos disciplinar e nos ensinar a amar e respeitar a nossa terra.

“Havia na parede um Jesus crucificado ladeado por duas grandes fotos encaixilhadas, de dois senhores. Um dêles era muito velho com grandes bigodes brancos e vestia um uniforme com uns pincéis dourados sobre os ombros. A minha professora estava em pé, junto de uma grande escrivaninha sobre a qual estavam livros e cadernos, uma varinha e uma palmatória. Abaixo das fotos e do crucifixo, havia um quadro de ardósia parecido com a minha lousa, só que tão grande, que a minha professora tinha de ficar em bicos de pés para escrever alguma coisa na borda de cima.

Eu e os meus coleguinhas estávamos também em pé com os braços postos ao longo do corpo, palmas das mãos para dentro conforme nos ensinaram, dizendo ser a posição de sentido e respeito por um senhor que acabou de entrar na sala e disse ser o diretor da nossa querida Escola. O nosso diretor falou em boas vindas e muitas outras coisas, como disciplina e bom porte, atenção nas aulas e, principalmente, castigos.

Chegou depois um senhor abade, que explicou que o Jesus na parede foi ali colocado para proteger e iluminar todos nós na classe e também os ilustres senhores das fotos que governavam o nosso querido país e eram o excelentíssimo senhor presidente marechal Óscar Fragoso Carmona e o excelentíssimo senhor presidente do concelho professor doutor Antonio de Oliveira Salazar, a quem devíamos honras e respeito.

O senhor abade falou em catequese, que eu só mais tarde  soube o que era, na obrigação de ir à santa missa, sob pena das penas reservadas aos meninos pecadores, garantindo que essas penas eram castigos muito piores do que as bolhas na pele causadas pelas fustigadas de urtigas quando mentíamos ou diziamos coisas feias.

Depois dos senhores saírem da sala, a minha professora mandou sentar e gritou “silêncio” tão alto, que eu fiquei com medo e comecei a chorar baixinho.

A minha professora era bonita como a minha mãe e não usava chapéus ridículos como as outras professoras. Eu gostava que ela sentasse junto de mim e pegasse a minha mão para me ensinar a fazer o “a” redondinho, mas ela era má quando se zangava e batia nas nossas mãos com a palmatória. Doía muito, sobretudo nas manhãs de inverno. Conforme passávamos de ano, ela foi ficando cada vez mais má e impiedosa no uso da “régua de cinco olhos”, quando não sabíamos a tabuada ou não resolvíamos os problemas de aritmética que ela passava.

O nosso diretor chamava-se senhor Pinho, era gordo e tinha umas mãos enormes, cujos dedos eram tenazes que apertavam e torciam as nossas orelhas com força brutal, se éramos apanhados a brigar com outros companheiros no recreio(…)”

(Parte de um texto no livro do meu caos)

Os olhos que olho no espelho me parecem  menos vivos que ontem. Enquanto esfrego a pele de forma frenética e auto flagelante com a máquina de barbear na tentativa de bem escanhoar os espetos brancos, analiso os pormenores daquele rosto refletido no espelho cruel. Cruel e deslavado mentiroso. Dele eu demando o meu legítimo direito de recusar ser retratado de forma menos respeitosa e passei a exigir correção na exposição da minha cara que me é tão cara e me acompanha desde que nasci. Puz-me a fazer caretas pro miserável até cair na risada. ­­”É então assim, que se chega a doido!”, concluí desgostoso, raspando os pêlos em torno das orelhas. Faço isso vezes sem conta, porque vivo apavorado de, ao deixar crescer a pelagem, amanhecer na pele de um qualquer animal felpudo. Termino o ritual com alguns borrifos de Polo – minha colonia preferida cujo cheiro há muito não experimento por me encontrar completamente anósmico. É assim…Todos os males chegam com a idade. Botei a língua pro espelho antes de sair e arrependi-me. Achei-a muito branca! Será que tenho alguma doença de vaca?!

A Crise

 

Cores

Uma vez mais, sobrevoo a substancial quantidade de esboços de poesias e textos interrompidos, com motes cuja conclusão sou incapaz de enxergar. Esta crise criativa é real e palpável, mas insisto que seja tão somente mais uma das muitas que de quando em vez me acometem e me desencorajam. Incapaz de escrever, eu leio. Besteiras, sobretudo! Agora, passando um trapo sujo sobre todas as criticas nada favoráveis que fiz a “Fifty Shades of Grey“, eis-me envolvido com a leitura de “Fifty Shades Darker“, segundo volume da trilogia de E L James. Ah sim: Reli, cinquenta e cinco anos depois, em bom inglês, “Lady Chatterley’s Lover” de DH Lawrence, versão sem os cortes resultantes de toda a estupida polêmica e processos dos anos que seguiram à sua publicação. É de fato uma excelente peça de literatura, mas a empolgação ficou longe, comprovando os efeitos brochantes da “septuagenaridade”. Pelo menos no meu caso…

De mim…

 

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lobo de mim, vou-me comendo as entranhas

bobo de mim, rio-me das próprias patranhas

pobre de mim, senhor de tão magras virtudes

raio de mim, que só me enxergo vicissitudes

 

No entanto…

“Pomerode”

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Cansei do blog ou o blog cansou de mim, o que vem a dar no mesmo…

…mas agora, enquanto espero (im)pacientemente no aeroporto de Navegantes um voo para Sampa, decido que o blog já descansou o suficiente. Comecei por fazer desaparecer o último post cuja releitura fez sentir-me escravo do cravo. Deixo as ferroadas político-militares para o hipotético livro que tem tudo para intitular-se “Jamais-Jamais” (leio Jamé-Jamé para integral deleite).

Passei duas noites no Hotelzinho Bergblick em Pomerode, Santa Catarina. Fiquei com a sensação de que estava em uma fazenda cercada de Natureza por todos os lados, mas sem cheiro de bosta de boi e a apenas um quilômetro do centro da pequena cidade cheia de tradições alemãs. Mas as tradições só saem para rua em alguns eventos anuais e, na minha estadia, só deu para respirar trabalho. Algumas fotos, o convite para um incrível e nada alemão rodizio de pizza e nenhuma oportunidade de enxergar-me envolto na poesia do local…

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 Apenas vaga ideia

resta do ideal

de na poesia estaiar meus dias…

Divago…

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Chove em Houston, o tempo esfriou e senti vontade de dormir uma noite tranquila sem sobressaltos. Mas, em algum momento, o telelê irá tocar, uma voz me dirá a hora que tudo estará a postos para iniciar o procedimento, prompt para que me junte à torrente contínua do intenso trânsito ao longo da West Loop e da Northwest Freeway em direção a uma longa noite em claro.

Penso que não tenho mais idade para isto, para logo pensar que não estou predisposto e preparado para aquilo. “Aquilo”, é parar de vez, estagnar, definhar em inutilidade terminal…É triste a minha alegria enquanto guio, cego, a 60mph no meio de uma núvem compacta de água, reconhecendo que este risco, palpável, gostoso, porre de adrenalina, não será mais viável para mim dentro de alguns pouquinhos anos. A natura irá encarregar-se de me sonegar o que me resta de vontades aventureiras.

maison, lumière et la pluie

Em tarde chuvosa de sábado no greenhouse, tieto, curto e namoro a minha mais-que-tudo, que veio ao meu encontro para uma semana de esperas. Ela espera que os dias não sejam tão quentes, espera que eu tome o café da manhã com ela antes de ser abandonada nesta espécie de aquário envidraçado antes das seis da matina, para depois esperar a minha chegada lá pelas seis e meia da tarde-já-noite, cansado e esperançado no carinho do seu colinho…

Ufano

hh

Dedicar o melhor de mais de uma quinzena de anos de vida ao serviço de uma única organização empresarial, pode ou não ser uma experiência muito gratificante. Como num casamento, são incontáveis os momentos de orgulho por ser-se parte de tudo aquilo, seguidos de outros de amarga frustração, para logo recuperar-se a sensação de ser-se muito feliz, mesmo que sob  extremo stress.

Seis ponto nove

Com o ego já curado da inflamação que sobreveio por resultado das surpreendentes e mui gratas atenções recebidas no meu sexagésimo nono aniversário, retomo a realidade da vida sem resquício de ilusões. Afinal, perturbadora constatação, tem candidato a papa bem mais jovem que eu!! Mera constatação cronológica, reconheço, mas perturbadora o bastante para me lembrar que devo, se calhar, repensar os rumos do que resta do meu “pontificado”.

Adicionando pressão sobre redirecionamento de vida, estamos no ano em que completo meio século de caminhada de mão dada com a minha companheirinha. E porque meio século é um ápice que não se repetirá, sinto uma crescente carência  da mão dela enlaçada à minha com muito mais constância…