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O coração que porto pode ser complacente, generoso, até exultante nas coisas da amizade e do amor. No entanto, é mesmo um problemático coração, este que vou penosamente carregando comigo e que altera e descompassa suas batidas incontáveis vezes ao longo dos dias, hora com paixão, hora com compaixão. Carrego-o compulsoriamente, por ser ele afinal quem de fato me carrega pela vida. Desconheço se existem corações “comandáveis”. O meu, definitivamente, não o é de nenhuma forma. Corações são órgãos singulares, voluntariosos, com tendência a usarem a ameaça como forma de pressão. O que eu tenho e chamo de “meu”, certamente que meu não é. Eu é que sou dele, feito escravo de um senhor, senhor da vida ou da morte que sabe, com crueldade, levar terror à minha alma. E riu debochado, nas ocasiões em que, atemorizado, balbuciei palavras-tábua-de-sobrevivência tais como “isto não está acontecendo” ou “isto não é nada” ou ainda “Ah esquece! dorzinha à toa…”, para em seguida gargalhar escandalosamente quando, em que pesasse toda a minha tão acreditada descrença, me submeti finalmente para exclamar  “Ai meu Deus…!”

Se eu fosse Caetano, diria sem delongas que “Coração é Foda”!…

A festinha

…Então, ele distribuía sorrisos de improviso que, imaginava, apareceriam a alguém mais atento, como idióticos protótipos de sorrisos sorridos com verdade. Enquanto circulava entre convivas barulhentos e mais ou menos etilizados, inclinava levemente cabeça e corpo tão repetidamente que, dir-se-ia, parecia um judeu orando no muro. Depois, quedava-se sentado, sorridentemente rendido, observando, observando…E tudo observava sem nada entender, porque nada queria entender mesmo e porque também ele tinha a noção de que era vantajoso que, possuindo uma inteligência, a colocasse em “Idle” sem ocupá-la a tentar entender bulhufas do que estava ocorrendo em seu torno. Queria, sim, que essa inteligência que possuia fosse sempre capaz de fazê-lo entender-se a si próprio sem importar em que circunstâncias. Pelo menos que sempre lhe desse a pista certa para achar-se em si, consciente de ter uma consciência de ampla dimensão em todas as dimensões. Estava, é claro, desfolhando pensamentos no local errado! Encontrava-se numa festa privada, e a “música”, em volume absurdamente alto, abafava qualquer pensamento gritado, quanto mais pensado! Ocorreu-lhe que deveria integrar-se, encher a cara e entrar na roda sacudindo o esqueleto em sincronia com as sacudidas das frenéticas bundas ao ritmo do funk. Sentiu-se rir, enfim, com verdade, imaginando-se no inimaginável. Inimaginável, mas não impossivel, admitiu de si para si com pouca segurança. O riso franco e autêntico rendeu frutos tão inesperados quanto imediatos. A mulher magra dona de espantosa e improvável ginga nas magras cadeiras exibida no fragor do funk, acercou-se em ataque direto. Fez perguntas, assegurou-se de que ele não usava aliança e foi aos finalmentes pedindo troca de telefones. Surpreendido, ele ficou sem ideia de onde meter as mãos e os pés, enquanto procurava uma saída. E a saída salvadora veio da própria funkeira de ágeis cadeiras magras: “Mmm..então, cê está sozinho mas é casado, não é? Perguntou. “Sim, sou!” gemeu. Alguém chamou e as magras cadeiras navegaram no recinto, afastando-se sem retorno…

Conjecturas aladas

 

Enlatado num alado tunel de metal por dez enfadonhas horas comprimido numa cadeira “econômica” extremamente desconfortável a que por aqui se convencionou atribuir a pomposa classificação de “Poltrona”, carrego comigo as mazelas naturais relativas à minha idade e tenho grande dificuldade para dormir em voo. Desfilam então pela minha pensatrix, torrentes de questionamentos e conjecturas. O que será “elite branca”? Soa-me como uma designação racista inventada por políticos racistas e mal intencionados para explicar manifestações desfavoráveis, com ou sem xingamentos. Mas, analisando ao perto, a tal elite branca é afinal uma classe bastante multiracial e heterogênia da sociedade que se preparou, que empreende, que trabalha muito duro, que alimenta a garganta escancarada e debochante de uma máquina fantástica e nunca vista de compra de votos mediante distribuição de bolsa-parasita a uma massa que não se preparou, que não tem emprego nem tem nenhuma intenção de procurá-lo, ameaçando paralisar um país de potencialidades ímpares no planeta, mas de infeliz, paupérrima, retrógada e auto destrutiva mentalidade politico-administrativa…

Southbound soul

Voo a minha sonolência a trinta e sete mil pés de altitude e o meu espírito ergue-se para os que pereceram hoje numa máquina semelhante à que agora me transporta pelos ares, rasgada no céu em tiras cadentes, candentes, tenebrosas, escabrosas. Malditos sejam todos os politicos e militaristas do mundo, porque deles é o reino dos infernos. Preciso dormir, mas quero convencer-me de que não. não preciso e prefiro pensar, mas só consigo pensar que a pensar morreu um burro com albarda e tudo…De repente sinto dó de mim sem saber se tal é porque mereço esse dó que sinto, ou se sinto muito por sentir esse dó. Sou, afinal, um ser caótico com tendência à auto flagelação, concluo! No entanto…

Aniversário

 

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Quinquagésimo primeiro aniversário!

Parece ter sido há apenas um mês!…

É como um conto extraordinário

no qual só contasse o imaginário

e onde o tempo não tivesse vez…

Ah Nina! Que poderei eu falar?

Melhor ficar calado, então,

e  na eloquência do meu silenciar,

com mais felicidade recordar

o dia em que ganhei teu coração!

 

Opinião

Dito o abaixo dito, eu, em que possa pesar ser um septuagenário de crescentes reações alérgicas a todos os políticos de todas as tendências, cartilhas e posição geográfica, transferi este terceiro parágrafo para o início para afirmar com mais destaque que sou contra e lamento tal nível de insulto feito à senhora Rousseff em praça pública global, porque, no meu entender, desrespeitando sua posição de presidente, magistrado máximo da nação, desrespeita-se gravemente o cidadão a si próprio.

Sou de um tempo em que o culto à personalidade dos governantes e a decorrente postura respeitosa em relação aos senhores que dirigiam os destinos da pátria eram coisa muito séria nos ensinamentos recebidos nas escolas encarregadas da nossa educação. O tempo era de regime instalado por processo indireto, fechado, aferrolhado, mutretado em partido único, de legitimidade autocrática.

Os tempos mudaram, os regimes que se foram instalando assim o foram por processo direto, fechado, aferrolhado e mutretado em coligações de partidos vários no sentido de monopolizar o poder decisório, ou seja, mutretado em partidos únicos e plenipotenciários de legitimidade cleptocrática que, temos visto, procuram (pelo menos tentam) eternizar-se no poder distribuindo o melhor do bolo fiscal em hipergenerosidades de rótulo dito socialista, moeda de troca pela garantia do tão almejado voto…

Continuado no primeiro parágrafo…

A Cave

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A busca pela difícil sobrevivência levou minha família para outras latitudes. Eu fiquei para trás com dez anos, entregue aos cuidados do senhor Bonvoisin e, especialmente, aos maus tratos da sua truculenta esposa. Não é, todavia meu intento fazer, nos limites deste pequeno texto, um relato dos maus bocados que tal megera me proporcionou.

Fui, num magnífico dia de quase verão, instruído a descer à cave da casa e organizar em pequenos caixotes, todas as revistas que ali se encontravam amontoadas. E garanto que eram muitas as revistas da guerra, terminada havia apenas dez anos, espalhadas em confusão pelo chão de terra e principalmente sobre as garrafeiras abarrotadas de vinhos finos. Fui arrumando as revistas nos caixotes, mas parava a cada passo para ver as fotos dos aviões de combate, dos porta-aviões e cruzadores de batalha, engalfinhados em confrontos mortais. Fazia-se então um silêncio sepulcral na sombria cave, apenas quebrado pelo virar das páginas. De súbito, um ruido que identifiquei como sendo uma garrafa que se partiu nos nichos da garrafeira! Fiquei alerta e todo arrepiado, já com vontade de sair dali. Acelerei para terminar o trabalho, mas não tardou e outra garrafa se quebrou em algum outro ponto! Dei por mim no pátio, perplexo e extremamente assustado!

A organização das revistas tinha por objetivo abrir espaço para ser feita uma “mexida” na posição das garrafas, rodando-as de acordo com os preceitos do dono da casa, considerado e reconhecido apreciador e conhecedor de vinhos. O medo de ser acusado pela quebra das botelhas contendo a preciosa bebida passou a ser fonte de extremo desassossego para mim.

Finalmente, chegou o fim de semana em que o senhor Bonvoisin e um outro cavalheiro também aficionado enólogo, desceram à cave e levaram boa parte do dia de sábado para concluir a tarefa a que se propuseram. Quando terminaram, abriram e degustaram de forma solene, uma garrafa da reserva mais antiga. Nenhuma garrafa havia sido  encontrada partida!…

Qualquer semelhança, etc….pode ou não ser coincidência

Canção

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…e se resulto amuado

feito menino mimado

carente da sua atenção…

porque me sinto tão só

que de mim chego a ter dó

carente da sua afeição…

 

…valho-me  do celular

pra ligar e lhe dizer

que à noite a bem dizer

não dormi nela a pensar…

e que m’abala a saudade,

que sem ela sou só dor

porque a bem da verdade

é muita a minha ansiedade

de ter sempre o seu amor…

 

quando afinal eu desligo

feliz me sinto e bendigo

a carência desta paixão…

é que aqui mesmo sozinho

eu me recolho e me aninho

bem dentro do seu coração!…

Exposição

 

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“Ahhh! Buika, Concha Buika visceral e invasiva de almas, das minhas almas todas que soluçam em unísono porque de tão permeáveis são facilmente penetráveis. Penetradas – “Jodidas pero contentas”, como canta Concha!. Porque sou eu tão chorão? Um dia escrevi que o meu coração é um fardo mal ajeitado, mole e difícil de transportar. Haverá cura? Repito-me e repito-me ad nauseam…”

*******

Foi real a minha patética choradeira durante uma incursão por diversos concertos de Concha Buika no Youtube, agora que nele circulo com muitíssima mais qualidade através do “AppleTV” que a Nina me trouxe de presente dos Estados Unidos. Fiquei deveras tocado, porque Concha está bem além de uma excelente cantora do mais castiço flamenco e também de admirável jazzwoman. Concha é uma “performer” de extraordinária presença de palco. Fiquei, literalmente, sem fôlego e sem reservas líquidas para voltar a verter lágrimas…

Fui então para o Face Book e, ainda de alma inflamada, lá publiquei as linhas acima grifadas, expondo-me mais do que deveria. O resultado do excessivamente rasgado escrito meu, foi envergonhar-me ao relê-lo. E uma vez mais, vejo-me completamente inadequado para o tal de FB. Exposição extravagante da minha alma? Só aqui, no meu próprio templo.

 

Caminhei calmamente pelo convés principal em direção à superestrutura retorcida e enegrecida pelo fogo. Parei e sentei sobre um dos cabeços de amarração e abri a pasta contendo questionários técnicos que teria de preencher, relativos a todos os equipamentos existentes nos compartimentos de máquinas. Eram muitos e eu pensei no longo e solitário trabalho que me esperava. Ainda sem muita convicção, subi os degraus de acesso ao castelo de popa, onde encontrei a caixa de ligação dos “arraiais” de luzes instaladas para iluminar precariamente a praça de máquinas e adjacências. Acionei o disjuntor e entrei pelos corredores queimados e deformados do alojamento, até encontrar uma das portas de acesso às máquinas.

Liguei a potente lanterna de mão, enquanto penetrava no recinto e experimentava a solidez do piso e varandas de aço, apesar de tudo haver sido vistoriado pelas equipes de segurança e de muitos reforços e estrados haverem sido adicionados. Iniciei a descida para os sombrios pisos inferiores da praça de máquinas, esforçando-me por fazer muito barulho, como se, com tal proceder, pudesse tranquilizar o meu espírito. Em alguns pontos, a falta de iluminação era um sério obstáculo, porque a luz da lanterna, de feixe dirigido, mantinha as sombras no em torno, confundindo-me na escolha do melhor itinerário de descida. Atingi finalmente a parte superior do motor principal e dirigi o foco para o tanque diário de combustível; Fora dali que descera a cachoeira de fogo e logo o inferno se espalhara rapidamente por todos os cantos, num cerco letal para as dezesseis pobres almas ali incineradas vivas…

Desci os degraus para o ultimo piso e esgueirei-me com dificuldade por entre os calcinados equipamentos, estruturas, tubulação e cabos elétricos. Definitivamente, a iluminação instalada estava muito longe de permitir um trabalho sério e seguro, sobretudo por uma pessoa só. Nos dias de hoje, com as exigências de segurança ditadas pelos modernos regulamentos SMS, seria inimaginável a decisão de um trabalho de levantamento de tal envergadura dentro de um navio devastado por um violento incêndio, ser levado a efeito por um só homem, sem qualquer acompanhamento ou apoio.

Decidi-me por iniciar a minha tarefa dentro da sala das puríficas, primeiro porque era um dos recintos mais bem iluminados, e em segundo porque os equipamentos ali instalados estavam praticamente incólumes. O fogo não penetrou ali, porque decorria uma inspeção de centrifugadores com a presença de três engenheiros, sendo um do armador, outro do estaleiro, finalmente o terceiro, um surveyor do LLoyd’s Register. A localização da porta do compartimento das puríficas impediu completamente a fuga do grupo, pois foi exatamente por ali, que o diesel em chamas fluiu. Cerraram, pois, a porta de aço, na esperança de que se tratasse de simples princípio de incêndio que logo seria debelado. Os três homens pereceram à míngua de oxigênio e seus corpos foram literalmente assados pela altíssima temperatura, que se podia imaginar observando, nos quadros elétricos, as botoeiras de comando e outros componentes de plástico e nylon derretidos sem que o fogo lhes tivesse chegado! Por um bom tempo, não consegui impedir-me de meditar sobre o sofrimento atroz daqueles infelizes nos momentos que antecederam a perda da consciência.

Finalmente, com um profundo suspiro, abri a pasta e dela retirei os questionários relativos aos sistemas de centrifugação de diesel, óleo pesado e lubrificantes, metendo definitivamente a cara no serviço. Passaram-se duas horas desde que desci à posição em que estava e o trabalho fluía com progresso aceitável. Por essa altura, meu espírito estava totalmente envolvido pela atividade, o sombrio local não mais me afetava e o destino trágico dos que ali pereceram nem de leve me tocava. Entretanto, alguém foi enviado para me dar suporte e ajuda, a julgar pelos passos que escutei nos “walkways” superiores do espaço de máquinas.

De joelhos ou estirado nos estrados, examinava em detalhe o estado em que se encontravam os componentes dos equipamentos e depois sentava e tomava notas para os relatórios que ajudariam a decidir o que iria ser recuperado e o que tomaria simplesmente o caminho da sucata. Longos minutos se escoaram e a ajuda que achei estar a caminho não havia meio de chegar! Pousei a prancheta e atravessei a porta. Posicionei-me junto do Motor Principal e olhei para cima, tentando divisar alguma lanterna que me permitisse localizar quem estava descendo, que poderia muito bem estar confuso para achar os caminhos e escadas. “Oi!”, Berrei; “Quem está aí em cima? Sabe como descer? Precisa de ajuda?”. Nenhuma resposta. Ruídos, só mesmo as leves batidas do casco contra os postes de acostamento e amarração tipo duque d’alba.

Voltei ao trabalho com um encolher de ombros, mas alguma coisa havia mudado em mim. A minha atenção e concentração na tarefa não era mais a mesma e sentia uma horrível sensação de desconforto que me impedia de prosseguir. Peguei a prancheta e a lapiseira, para voltar imediatamente a pousá-las e a atravessar a porta, porque os passos voltaram a fazer-se ouvir, acompanhados de rangidos próprios de alguém que caminha sobre estrados de aço mal suportados! “Quem está aí em cima?”, bradei. Esperei alguns minutos, voltei às puríficas e, antes que pensasse de novo no serviço, prestei atenção aos passos que desta vez se ouviam pelos corredores do alojamento. Eram espaçados, iam e vinham como se alguém estivesse procurando uma saída.

Sem fôlego, com o coração saindo pela boca, canela da perna direita esfolada, um ferimento na mão esquerda e todo sujo de foligem e óleo, foi como me encontrei a mim próprio no convés principal, após a tão alucinada e desesperada procura pela luz do dia. Entrei, sim, em pânico a tal ponto que não logro sequer lembrar de nenhum detalhe da minha frenética subida através das agora aterradoras sombras do calcinado navio.

Quando recuperei o sangue frio, fui até à borda e desci pela escada improvisada, unica forma de embarcar e desembarcar, já que o navio estava sem escadas de portaló para acesso. O guarda, postado nas imediações e encarregado de controlar quem subia, confirmou que ninguém embarcou ou desembarcou durante o tempo em que eu estive a bordo…

 

Qualquer semelhança com fatos acontecidos, não é mera coincidência.