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Fins…

A sexta ao fim da tarde pôs temporário fim às angustias de uns, após alguns outros angustiados haverem sido saídos mais cedo, com ordem de marcha para a legião de desempregados que não para de crescer. Desemprego, desesperança, desengano, desilusão pela esculhambação que não tem explicação, ou tem explicação na esculhambada situação de uma nação que teima em ser uma riquíssima-pobre-nação!

 

Fim definitivo e inesperado teve a minha tia Maria do Céu, a nossa querida Mariazinha, irmã caçula da minha mãe apenas três anos a mais que eu. Com ela, no espaço de apenas cinco meses, desapareceram quatro pessoas próximas e muito queridas, incluindo seu marido e o seu irmão Antoninho. Traumático continua a ser o passamento repentino do João, irmão da minha mais-que-tudo, acontecido também em Outubro passado.

 

Os óbitos de familiares e amigos sempre me abastecem de combustível para erguer voo de forma até agora momentânea, em direção à almejada e efetiva aposentadoria e dedicação aos projetos pessoais para os quais teimo em deixar minguar o minguado tempo que me poderá restar…

Enfermidade

Abandonar-me ao desinteresse foi, reconheço, a mais negativa das minhas reações ao longo deste período de saúde vergastada por maus funcionamentos e emergências médicas. No entanto, como nenhuma dessas emergências médicas se apresentou, pelo menos até este momento, iminentemente letal malgrado a importância e perigos envolvendo arritmia/flutter, fibrilação atrial, devo obrigar-me a retornar, retomar trabalhos, leituras…

Não sinto, por enquanto, muita coragem de voltar a brincar de imortal, filosofar em torno da finitude e da minha capacidade de fingir que não é medo o medo que naturalmente sinto.

Tenho a mão direita inchada

por por tantos  dias agulhada…

Ainda meu corpo sinto dorido

Por tantos dias na cama estendido…

A mente sinto como que paralisada

Por tantos dias sem ser usada…

Crise

Ah este meu jeito dramático, dramático, que tem fonte certa e em nada me ajuda. Gostaria de não dizer-me doente, mas se não o disser fico ainda mais doente, porque à fé que doente deveras me sinto. Decerto que desta vez não minto. E não minto, porque meu fair play parece extinto junto com os intrínsecos poderes que até há pouco, há pouquinho, julgava conservar.”

O parágrafo acima saiu-me para o teclado no começo da semana passada, a meio de uma violenta crise urinária acompanhada de dolorosa crise do foro hemorroidal, insuportável dualidade! Medicado e com cirurgia já marcada, procuro as formas menos dolorosas e confortáveis de sentar e desenvolver alguns textos que possam enriquecer e tornar viável a tão desejada publicação.

 

singing-in-the-rain

Em post dedicado a Debbie Reynolds na data do seu passamento, falei que reveria “Singing in the rain” mais uma porção de vezes, agora que ela partiu. Por um punhado de estalecas, adquiri o filme magnificamente remasterizado em alta definição e em Blue Ray. Esta manhã procurei suavizar o mau período que atravesso de saúde fragilizada e concomitante baixa-estima, vendo “Singing” como se fosse a primeira vez, com a prerrogativa de replay na ponta dos dedos, para voltar e dar mais atenção a cena ou performance daqueles admiráveis atores de múltiplas habilidades.

Sentei-me depois diante de um teclado, disposto a ensaiar algum pequeno texto que me traga de volta de longa ausência e inapetência. Debalde, procuro alhear-me da violenta sublevação em curso na região dos meus países-baixos. Durante esta semana de folga, folga não haverá na procura da cura dos meus males em consultórios médicos…

Safadão

Manter as “Mukandas” está mesmo problemático, mas a situação está longe de ser coisa nunca vista. Em pelo menos uma ocasião, eu até sugeri em rimas que a má fase poderia ter por fonte a reza forte de algum desafeto com intimidade nas coisas da macumba, que em algum momento conseguiu “secar-me”. Acho que seria esse o termo…

A fonte da má fase encontra-se, todavia, em mim próprio. Faltam-me confiança, coragem e alma. Ultimamente dei em retirar posts na manhã seguinte à sua publicação, porque alguém “não gostou”, podendo esse alguém ser um dos “eus” acovardado ou até envergonhado por achar baixa a qualidade do escrito. O problema maior é detectar e considerar alguma “descuidada incoerência” num escrito. Mas, a característica dos meus escritos é conterem pesada carga de incoerência e aparente non-sense… Refiro-me à incoerência “real”, porque a incoerência poética é sempre coerente, ao julgamento do poeta. Estou na disposição de abrir links para os posts na penumbra…

Para além das minhas obrigações, este fim de semana encontrou-me na fila de um cinema para adquirir ingresso para o Star Wars – Rogue One. Chegado ao balcão, observei que estava anunciada a projeção com áudio dublado. Desisti, desisti, sim. Detesto filme com áudio martelado em cima. Vou esperar o lançamento em Blue Ray e pronto. Acontecimento local interessante, foi a movimentação com  alguma confusão que a presença do grupo musical do “Wesley Safadão” provocou aqui no hotel. Se o próprio Safadão esteve aqui ao vivo em pessoa, eu não sei não. Só vi gente de preto com a sigla “WS”. O outro acontecimento foi o tão esperado óbito do longevo Mário Soares. Sobre ele não vou escrever nada, nem mesmo à guisa de epitáfio. Sua pedra lapidar poderia ser de ardósia, preta, rugosa e sem nada escrito. Saí, comprei uma garrafa de vinho tinto do Alentejo, queijo e biscoitos salgados. Comemorei e bememorei. Só, sozinho…

sunnnnnn

Felt like I woke up alive,

while I remained contemplative

and humble  before  the rising Sun.

Then, mighty Sun looks directly at me

as saying “Hello, hello, little man!”

Compliment was as a confirmation that

I surely have woken up alive yet for another day.

I felt myself a wise, powerful tiny piece of matter…

 

Hoje…

image

Hoje….
Quero-me ousado ou atrevido
Mesmo que isso não seja meu
Usar o que me não é permitido
Deixar criticar e não dar ouvido
Deixar que aflore um outro eu…
Hoje,
Quero tolerar-me no pior de mim
Resignar-me, resignado, resignado,
Porque eu sou mesmo assim
E assim serei até ao meu fim
E nada mais em mim será mudado…

Escrever sobre o Natal é incorrer na probabilidade de escorregar no lugar comum de frases há muito feitas e exaustivamente repetidas ao longo das décadas nos cartões típicos da quadra, sejam eles familiares ou comerciais. Por isso eu prefiro ser direto e dizer que gosto das festas de Natal pela congregação da família, sem muita ênfase nas crenças e tradições. Só não gosto de receber e oferecer presentes. É das crianças e só das crianças a prerrogativa de receber presentes, penso. O resto é comércio exacerbado. Eu sei que precisa existir para garantir a ceia dos que do comércio tiram os proventos. Mas mantenho a preferência pessoal de que adoraria ver meu nome ignorado em listas de presentinhos brilhosos. Brilhosos e não raramente inúteis. E sabe? Eu vou mesmo ter a coragem de publicar este texto.

Grita…

Grita meu corpo a cada espasmo da tosse, da tosse, da tosse que vai resistindo às drogas que ingiro dia após dia enquanto vou perdendo a confiança na sua eficácia. Detesto drogas. Sempre detestei  tomar drogas, mesmo que ditos simples analgésicos para aliviar uma dor de cabeça. “Ao Trabalho, pois!” – brado de mim para mim próprio, como usava fazê-lo nos tempos em que meu corpo e alma cegamente me obedeciam às ordens e diretivas. Debalde, porque aos brados, minhas células com sonolência respondem!  “À Carga! À Carga!” Grito em desespero como se estivesse integrante de uma companhia de cavalaria a pleno galope!  É tudo mentirinha. Eu sou agora, apenas e tão somente, um substrato. Substrato do cocô do pangaré que puxa a carroça do inimigo. Distraio-me relendo randomicamente passagens de Don Casmurro, Memórias Póstumas de Brás Cubas. Depois dou em tomar colheradas de uma batida de Balzac, Quental, Zola, Edgar Allen Poe.  Engasgo-me e perco a respiração.

Antonio Lobo Antunes, Psiquiatra e Escritor com uns trinta títulos de sua autoria, foi Alferes-médico lá pela região de Malange alguns poucos anos depois de eu haver arriscado a pele de armas na mão pelas matas do Inda, pelo Vale do Dange, pelos Canacassalas de tantos tormentos. Eu reagi mal e chamei-o de filho da puta, porque ele diz que retornou a filha para Lisboa por “não haver em Malange comida para bebê” e a menina estava “com a cor dos brancos de Angola”, o que eu considerei preconceituoso e metido a besta. Por esse mesmo tempo, a minha recém nascida crescia linda e saudável com as sopinhas recomendadas por gente maravilhosa e inesquecível como o Dr. Orlando de Albuquerque, viúvo da nossa querida Poeta Alda Lara, pelo Dr. Farrica e tantos outros valorosos brancos cor-de-branco-d´Angola.

É verdade que ando triste

Que essa tristeza persiste

Em tanto me atormentar

Mas é complexa a explicação

Dos motivos ou da razão

Da tristeza não me deixar

Tenho a gripe por culpada,

A tosse, a saúde fragilizada

Que corrói o meu humor

Mas é a vida que vai passando

Profundas marcas entalhando

No corpo, alma e até no amor…

Tosse kafkiana

De um fôlego só, li um pouco mais de metade do livro de Antonio Lobo Antunes, sentado na varanda do hotel. A leitura em nenhum momento me empolgou, mas, milagrosamente, fez dissipar-se um kafkiano sentimento de encontrar-me num processo de metamorfose para um réptil desmiolado. O milagre se deu porque répteis desmiolados não pronunciam de forma tão clara a expressão “Filho-da-puta”. Eu comprei o livro e tenho o direito de gostar ou, neste caso, de não, mesmo sabendo que serei taxado de réptil desmiolado. Sem ainda saber se o complexo de réptil tem alguma coisa a ver com isso, estou desde ontem com uma tosse persistente sem que esteja resfriado. Não me consta, no entanto, que os répteis tenham taquicardias, arritmias e mazelas similares, porque são, dizem os sapientes, de “sangue frio”. Tá aí! Vai ver que meu sangue está esfriando, ou congelando, congelando nas minhas veias, sei lá. Tudo isso é resultado deste crescendo no diabólico stress do nosso dia-a-dia de descomunais absurdos. O ambiente está contaminado e denso ao ponto de se ter de cortar à faca. O pior é que os meus braços já não mais aguentam brandir a faca. Eu vou desistir.