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Enfermidade

Abandonar-me ao desinteresse foi, reconheço, a mais negativa das minhas reações ao longo deste período de saúde vergastada por maus funcionamentos e emergências médicas. No entanto, como nenhuma dessas emergências médicas se apresentou, pelo menos até este momento, iminentemente letal malgrado a importância e perigos envolvendo arritmia/flutter, fibrilação atrial, devo obrigar-me a retornar, retomar trabalhos, leituras…

Não sinto, por enquanto, muita coragem de voltar a brincar de imortal, filosofar em torno da finitude e da minha capacidade de fingir que não é medo o medo que naturalmente sinto.

Tenho a mão direita inchada

por por tantos  dias agulhada…

Ainda meu corpo sinto dorido

Por tantos dias na cama estendido…

A mente sinto como que paralisada

Por tantos dias sem ser usada…

Crise

Ah este meu jeito dramático, dramático, que tem fonte certa e em nada me ajuda. Gostaria de não dizer-me doente, mas se não o disser fico ainda mais doente, porque à fé que doente deveras me sinto. Decerto que desta vez não minto. E não minto, porque meu fair play parece extinto junto com os intrínsecos poderes que até há pouco, há pouquinho, julgava conservar.”

O parágrafo acima saiu-me para o teclado no começo da semana passada, a meio de uma violenta crise urinária acompanhada de dolorosa crise do foro hemorroidal, insuportável dualidade! Medicado e com cirurgia já marcada, procuro as formas menos dolorosas e confortáveis de sentar e desenvolver alguns textos que possam enriquecer e tornar viável a tão desejada publicação.

 

singing-in-the-rain

Em post dedicado a Debbie Reynolds na data do seu passamento, falei que reveria “Singing in the rain” mais uma porção de vezes, agora que ela partiu. Por um punhado de estalecas, adquiri o filme magnificamente remasterizado em alta definição e em Blue Ray. Esta manhã procurei suavizar o mau período que atravesso de saúde fragilizada e concomitante baixa-estima, vendo “Singing” como se fosse a primeira vez, com a prerrogativa de replay na ponta dos dedos, para voltar e dar mais atenção a cena ou performance daqueles admiráveis atores de múltiplas habilidades.

Sentei-me depois diante de um teclado, disposto a ensaiar algum pequeno texto que me traga de volta de longa ausência e inapetência. Debalde, procuro alhear-me da violenta sublevação em curso na região dos meus países-baixos. Durante esta semana de folga, folga não haverá na procura da cura dos meus males em consultórios médicos…

Safadão

Manter as “Mukandas” está mesmo problemático, mas a situação está longe de ser coisa nunca vista. Em pelo menos uma ocasião, eu até sugeri em rimas que a má fase poderia ter por fonte a reza forte de algum desafeto com intimidade nas coisas da macumba, que em algum momento conseguiu “secar-me”. Acho que seria esse o termo…

A fonte da má fase encontra-se, todavia, em mim próprio. Faltam-me confiança, coragem e alma. Ultimamente dei em retirar posts na manhã seguinte à sua publicação, porque alguém “não gostou”, podendo esse alguém ser um dos “eus” acovardado ou até envergonhado por achar baixa a qualidade do escrito. O problema maior é detectar e considerar alguma “descuidada incoerência” num escrito. Mas, a característica dos meus escritos é conterem pesada carga de incoerência e aparente non-sense… Refiro-me à incoerência “real”, porque a incoerência poética é sempre coerente, ao julgamento do poeta. Estou na disposição de abrir links para os posts na penumbra…

Para além das minhas obrigações, este fim de semana encontrou-me na fila de um cinema para adquirir ingresso para o Star Wars – Rogue One. Chegado ao balcão, observei que estava anunciada a projeção com áudio dublado. Desisti, desisti, sim. Detesto filme com áudio martelado em cima. Vou esperar o lançamento em Blue Ray e pronto. Acontecimento local interessante, foi a movimentação com  alguma confusão que a presença do grupo musical do “Wesley Safadão” provocou aqui no hotel. Se o próprio Safadão esteve aqui ao vivo em pessoa, eu não sei não. Só vi gente de preto com a sigla “WS”. O outro acontecimento foi o tão esperado óbito do longevo Mário Soares. Sobre ele não vou escrever nada, nem mesmo à guisa de epitáfio. Sua pedra lapidar poderia ser de ardósia, preta, rugosa e sem nada escrito. Saí, comprei uma garrafa de vinho tinto do Alentejo, queijo e biscoitos salgados. Comemorei e bememorei. Só, sozinho…

sunnnnnn

Felt like I woke up alive,

while I remained contemplative

and humble  before  the rising Sun.

Then, mighty Sun looks directly at me

as saying “Hello, hello, little man!”

Compliment was as a confirmation that

I surely have woken up alive yet for another day.

I felt myself a wise, powerful tiny piece of matter…

 

Hoje…

image

Hoje….
Quero-me ousado ou atrevido
Mesmo que isso não seja meu
Usar o que me não é permitido
Deixar criticar e não dar ouvido
Deixar que aflore um outro eu…
Hoje,
Quero tolerar-me no pior de mim
Resignar-me, resignado, resignado,
Porque eu sou mesmo assim
E assim serei até ao meu fim
E nada mais em mim será mudado…

Escrever sobre o Natal é incorrer na probabilidade de escorregar no lugar comum de frases há muito feitas e exaustivamente repetidas ao longo das décadas nos cartões típicos da quadra, sejam eles familiares ou comerciais. Por isso eu prefiro ser direto e dizer que gosto das festas de Natal pela congregação da família, sem muita ênfase nas crenças e tradições. Só não gosto de receber e oferecer presentes. É das crianças e só das crianças a prerrogativa de receber presentes, penso. O resto é comércio exacerbado. Eu sei que precisa existir para garantir a ceia dos que do comércio tiram os proventos. Mas mantenho a preferência pessoal de que adoraria ver meu nome ignorado em listas de presentinhos brilhosos. Brilhosos e não raramente inúteis. E sabe? Eu vou mesmo ter a coragem de publicar este texto.

Grita…

Grita meu corpo a cada espasmo da tosse, da tosse, da tosse que vai resistindo às drogas que ingiro dia após dia enquanto vou perdendo a confiança na sua eficácia. Detesto drogas. Sempre detestei  tomar drogas, mesmo que ditos simples analgésicos para aliviar uma dor de cabeça. “Ao Trabalho, pois!” – brado de mim para mim próprio, como usava fazê-lo nos tempos em que meu corpo e alma cegamente me obedeciam às ordens e diretivas. Debalde, porque aos brados, minhas células com sonolência respondem!  “À Carga! À Carga!” Grito em desespero como se estivesse integrante de uma companhia de cavalaria a pleno galope!  É tudo mentirinha. Eu sou agora, apenas e tão somente, um substrato. Substrato do cocô do pangaré que puxa a carroça do inimigo. Distraio-me relendo randomicamente passagens de Don Casmurro, Memórias Póstumas de Brás Cubas. Depois dou em tomar colheradas de uma batida de Balzac, Quental, Zola, Edgar Allen Poe.  Engasgo-me e perco a respiração.

Antonio Lobo Antunes, Psiquiatra e Escritor com uns trinta títulos de sua autoria, foi Alferes-médico lá pela região de Malange alguns poucos anos depois de eu haver arriscado a pele de armas na mão pelas matas do Inda, pelo Vale do Dange, pelos Canacassalas de tantos tormentos. Eu reagi mal e chamei-o de filho da puta, porque ele diz que retornou a filha para Lisboa por “não haver em Malange comida para bebê” e a menina estava “com a cor dos brancos de Angola”, o que eu considerei preconceituoso e metido a besta. Por esse mesmo tempo, a minha recém nascida crescia linda e saudável com as sopinhas recomendadas por gente maravilhosa e inesquecível como o Dr. Orlando de Albuquerque, viúvo da nossa querida Poeta Alda Lara, pelo Dr. Farrica e tantos outros valorosos brancos cor-de-branco-d´Angola.

É verdade que ando triste

Que essa tristeza persiste

Em tanto me atormentar

Mas é complexa a explicação

Dos motivos ou da razão

Da tristeza não me deixar

Tenho a gripe por culpada,

A tosse, a saúde fragilizada

Que corrói o meu humor

Mas é a vida que vai passando

Profundas marcas entalhando

No corpo, alma e até no amor…

Tosse kafkiana

De um fôlego só, li um pouco mais de metade do livro de Antonio Lobo Antunes, sentado na varanda do hotel. A leitura em nenhum momento me empolgou, mas, milagrosamente, fez dissipar-se um kafkiano sentimento de encontrar-me num processo de metamorfose para um réptil desmiolado. O milagre se deu porque répteis desmiolados não pronunciam de forma tão clara a expressão “Filho-da-puta”. Eu comprei o livro e tenho o direito de gostar ou, neste caso, de não, mesmo sabendo que serei taxado de réptil desmiolado. Sem ainda saber se o complexo de réptil tem alguma coisa a ver com isso, estou desde ontem com uma tosse persistente sem que esteja resfriado. Não me consta, no entanto, que os répteis tenham taquicardias, arritmias e mazelas similares, porque são, dizem os sapientes, de “sangue frio”. Tá aí! Vai ver que meu sangue está esfriando, ou congelando, congelando nas minhas veias, sei lá. Tudo isso é resultado deste crescendo no diabólico stress do nosso dia-a-dia de descomunais absurdos. O ambiente está contaminado e denso ao ponto de se ter de cortar à faca. O pior é que os meus braços já não mais aguentam brandir a faca. Eu vou desistir.

Estou enfastiado dos poetas. Dos antigos e também dos novos poetas. Para mim todos são superficiais, todos são mares esgotados”…”Poetas mentem demais” – Assim falou Zarathustra.

Mas Zarathustra também é poeta, mentiroso e fingidor. Eu também estou enfastiado e entediado de Zarathustra, a quem não mais suporto. Que fale, pois, à vontade, que eu faço ouvidos moucos e junto-me a todos os poetas, loucos ou não, mentirosos ou não, fingidos, dissimulados, desbocados. Fingir que minto quando não minto e mentir que finjo quando não finjo, é prerrogativa a que não abro mão. Ser desbocado faz bem à saúde mental: Foda-se Zarathustra!

E assim, já é sexta à noite! “TGF, TGF – Thank God it´s Friday!”! Salve, salve, noite de lobisomem. Mas aqui estou eu trancado num hotel, sozinho, lobidoso sem voz ou forças para uivar, sem a mínima vontade de encarar o mundo exterior. A verdade é que também não estou nada a fim de encarar meu próprio mundo interior, de insensata aridez, estranhíssimo e inóspito lugar. Leio, releio, treleio, bocejo desinteressado e durmo, durmo! Sou, pois, um inútil! Foi numa abstração inútil que a idade me tornou!

-Assim falei ontem à noite…