Fascismo sempre foi borrão simétrico. Suas particularidades cerceadoras de liberdades fundamentais, autoritarismo arbitrário, estado policialesco, culto à personalidade, espalham-se e espelham-se sem qualquer diferença, a bombordo e a estibordo.
O cenário é uma mesa de cozinha, laqueada, imaculadamente branca. Sobre ela, duas toalhinhas com morangos bordados, meticulosamente feitas por mãos de fada. Dois pratinhos de sobremesa continham, cada um, um único pãozinho caseiro pequeno. Sentados frente a frente, o casal já setentão mas de aparente boa saúde, ia comendo seus pãezinhos de forma paulatina, migalhinha por migalhinha. Ambos pareciam encarar a extrema frugalidade do desjejum com a naturalidade de quem já se acostumou, resignou e consegue dissimular o provável mau humor. Enquanto sorvia seu copo de café com leite, a mulher exprimia em curtas frases seu acordo ou desacordo sobre os últimos atos e desacatos dos fantásticos animais políticos, lá onde eles podem ser encontrados. O homem anuía com lacônicos “uhum – aham” enquanto sorvia sua caneca de café preto sem qualquer tipo de adoçante. Não fazia caretas ao café amargoso que gostava, nem aos assuntos políticos tão pouco do seu gosto e tão do gosto da esposa. Terminado o café e a pequenina peça de pão, o homem levantou-se para, diligentemente, passar o seu pratinho e sua caneca por água. Foi aí que o mau humor empanelado se soltou: “Tu não me dás a mínima importância!” “Tu nem notas que eu existo” “tunãomedásvalornhenhum!” “Tu te alheias na internet com os fones de ouvido…” “Mas”, tenta o velho argumentar: “tu também te alheias na internet e o som do que eu gosto iria interferir no que tu gostas!…” “Mas eu te chamo e tu não escutas!”…
Moral da estorinha: Por falta de experiência, pois nunca envelhecemos antes do envelhecimento, nós não sabemos muito bem como nos devemos comportar no dia a dia dessa porra do envelhecimento.
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Descalcei e apresentei meus pés à profissional, para o tratamento habitual de unhas e calosidades. Seria uma meia hora relaxante, não fora aquele malfadado e profundo calo que carrego pela vida fora bem na planta do pé esquerdo. Seu tratamento equivale a uma sessão de tortura. Ainda assim, deixei que meus pensamentos fluíssem para que, dentro do possível, eu os filtrasse e deles separasse os que tinham minimamente a ver com a realidade do meu momento. E eu, concluo, já tive muito melhores momentos…
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Enquanto descartava dúzia e meia de esferográficas, marcadores de feltro e similares já sem uso e tomando espaço útil, achei a minha velha, esquecida e abandonada Sheaffer. Tomei-me instantaneamente de amores pela caneta que foi minha ferramenta de escrita em tempos pré-cibernéticos. Desmontei e limpei carinhosamente cada um de seus componentes e, aproveitando uma saída, despendi 30 pratas num tinteiro “Piloto” de origem japonesa. Mas acabou em decepção, porque o sistema de carregamento por vácuo está comprometido pela degradação das borrachas. Mesmo assim, deu para experimentar um cursivo e concluir que o meu skill caligráfico perdeu-se no tempo…
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Optei, após a nem tão festejada aposentadoria, enveredar por intrincados labirintos, que acabaram confundindo meus mais íntimos desígnios. Releio meus textos e deparo-me com a surpreendente atualidade onde a atualidade resultou tão mais surpreendente porque tão mais cruel. A vontade de voltar confronta-se com o medo dos belicosos meandros das redes pouco sociais, que se junta ao reconhecimento de que me falta, afinal, talento criativo. Tempos atrás, eu escrevia:
“ Singularidades
Quasa insociável e permanentemente ensonado, enxergo-me com as minhas vontades assaz debilitadas, porque sei-as parcialmente desabilitadas.Os hobbies que tão fortemente me hão propelido, perderam seu espaço para a irresistivel atração que me arrasta para a antecâmara onde um caleidoscópio carregado de sonhos que reconheço como inúteis e mofados sonhos do passado, intermeados por foscas e ininteligíveis imagens do futuro, me é posto à disposição. Oponho-me tenazmente, é certo, mas a tenacidade dessa oposição parece carecer de mais aditivos energéticos.
Poderia até resvalar para a depressão, não fossem três estacas que me têm providenciado boa sustentação, a saber: A Mulher-Maravilha, o trabalho e o meu “outro eu”. Da Mulher-Maravilha eu tenho dois olhos como-há-só-dois que me seguem incessantes, hora feitos reluzentes e cristalinas esmeraldas enternecendo a minha alma, hora virados em contundentes e incontestáveis fontes de força faiscante em tons de cinza-quase-branco, que tenho o bom senso de respeitar. O trabalho, além de fundamental no sentido econômico, eu preciso quanto mais não seja, para culpar pela não materialização de projetos literários que na realidade é tão somente reflexo óbvio da minha incapacidade, falta de engenho e arte para o fazer. Finalmente o “meu outro eu”, por se tratar de um ser independente, extremamente crítico e insuportavelmente sarcástico em suas considerações nada lisongeiras sobre a minha pessoa, resulta uma séria barreira de contenção às minhas singularidades existenciais. “ …
…/…
…Agora, perdidos os benefícios do trabalho e havendo eu chegado ao ponto da quase eliminação física do meu opositor, as barreiras ficaram mais frágeis, como mais frágeis ficaram as forças e paciência da minha maisquetudo.
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Penso que, de tanto em vão pensar, o calor gerado terá por certo afetado os circuitos do meu cérebro. Em outros tempos eu diria que os platinados desajustaram ou que o gigleur entupiu. A máquina perdeu metade da eficiência, disso não resta qualquer dúvida, desde que lhe foi retirada a carga habitual a que se havia adaptado ao longo de décadas. Até agora, concluo, por mais que venha tentando, não logrei ocupar a lacuna deixada pelo trabalho. Nessa conclusão, incluo a constatação de que as vicissitudes do próprio trabalho eram fonte inesgotável de matéria para alimentar-me o espírito…
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Eu e tu de mãos dadas
De novo nas calçadas
das Flexas a Icaraí
Neste rápido caminhar
inda dá pra´apreciar
as coisas de Icaraí!
É aquele aposentado
distraído no carteado;
É a madame meio lêlê
com seu cão feito bebê!
N´areia, volei, frescobol
e corpos torrando ao sol;
Dentro d´água o banhista!
Tem mesmo quem não resista
e pule na água medonha!
A Guanabara tão poluída
pelas descargas invadida,
continua uma vergonha…
Mas olha lá no Corcovado
Lá está Cristo, O Redentor…
Hoje pode ser visto e louvado
não há nuvens ao seu redor!
O Pão d´Açucar, o bondinho
Tudo continua bonitinho
como retemos na mente
Nada parece ter mudado
Em meio ano passado
deste cenário ausente
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“Viver para viver terá mais razão de ser que viver por viver?”
Despertei no meio da madrugada de bexiga cheia e enfrentando essa questão idiota posta por todos os meus dois restantes neurônios. Enquanto descarregava os fluidos, ocorreu-me que esses fluidos foram separados para me manter vivo e que nesse ínterim, uma infinidade de complexos e encadeados eventos químicos e físicos na minha máquina de viver, não davam a mínima para filosofias e jogos de palavras, tendo por única razão e objetivo o manter-me fisicamente vivo. Bem…eu sei que o cérebro é componente de controle dessa dita máquina de viver e foi de dentro dele que saiu essa idiotice que me perturbou o soninho. E perturbou mesmo, porque, voltando para a cama, os cretinos (meus dois neurônios), trouxeram para a área o filme “Vivre pour vivre” para infernizar ainda mais a minha noite. Agora que a noite já era, reencontro-me constatando que vivo para viver a realidade da sorte que me coube como um ser biológico, terráqueo e, até ao momento, sobrevivente…
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Caminhávamos recentemente pela baixa de Lisboa ao fim da tarde, onde ruas, esplanadas e cafés fervilhavam de turistas e onde nosso idioma dificilmente é ouvido. Decidimos mudar o rumo, escalar e explorar as velhas ruelas e escadas de Alfama até aos miradouros e ao Castelo de São Jorge. A experiência foi inesquecível, mas em nenhum momento senti nas ruelas a vibração que o meu poético imaginário construiu através do velho e autêntico fado. Como no Bairro Alto e na Mouraria, as vielas estão lá, os locais onde se canta o fado estão lá, mas a tradição pura e castiça não mais. As rimas abaixo revelam um pouco desse meu imaginário:
Pelas ruas de Lisboa
vagueio sem direção…
…e caminho por aí à toa,
Bairro Alto ou Madragoa,
onde o Fado é tradição…
Se pelas ruelas d´Alfama
vou em passos hesitantes,
e ouço uma voz em lamento
que canta seu fado, seu tormento
em versos tão lancinantes…
Versos de perda ou saudade,
de abandono ou crueldade,
das dores que su´alma sente…
E ecoam com voz magoada
pelas pedras da calçada
pisadas por tanta gente…
Percebo nas pedras, polidas
por gerações de passantes,
tantas mágoas, tantas feridas
em longas noites perdidas,
de solitárias almas errantes…
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Ruelas sadinas, desertas,
de silêncios estridentes
ecos de passadas incertas,
desconfiadas, alertas,
solitárias mas contentes,
contentes…
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