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Destinos

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Pensamentos voam à velocidade da luz. Comparando, a nave que me transporta apenas paira, enquanto observo os holofotes do céu iluminando e como que marcando nosso caminho para aquele terreno destino. Destinos geográficos são físicos, bem definidos, matemáticos, sistemáticos. Destinos do pensamento são complexos, de coordenadas indefiníveis porque, este pensamento que chamo de meu, é quase sempre errante e, frequentemente, delirantemente impossível.

A insanidade real é tão imensamente superior àquela que, com frequência, me habituei a encontrar pelas esquinas do meu mundo interior, que finalmente escolhi abandonar os meus canteiros pessoais de insanidade, com tanto carinho cultivados ao longo de vários anos. É que, concluí, a graduação da insanidade que cultivo é tão baixa, que me deixa envergonhado.

Tenho por insano, como exemplo, o meu súbito desejo de voltar no tempo e achar-me a comer cebolinhas novas acabadas de arrancar da terra, nelas fazer vários talhos em cruz, polvilhar com sal e comer acompanhando com boroa de milho, queijo de cabra bem seco e duro e vinho tinto. Salivo e tenho dificuldade em livrar-me do tal desejo, que não sendo irrealizável, é pouco recomendável para as pressões sanguíneas.

Com as limitações físicas próprias dos que viram três quartos de século de vida, o meu sistema deveria contar com um modo automático, para obstar-me dos insanos e irrealizáveis sonhares que resultam, em ultima análise, em uma sensação de frustração e menos valia.

Aqui em Curitiba, eu continuo seguindo as regras do verão carioca. Não aposentei bermudas e camisetas, porque não trouxe roupa adequada. Isso foi insano, porque o tempo está esfriando, deverei aqui permanecer por mais um mês e, para completar, eu estou bastante gripado…

 

 

Despertar

Aquela luz na escuridão

que tão brilhante se via

corpo errante se alumia

em misterioso clarão…

…Mas clarão algum se via na madrugada do meu despertar de olhos esbugalhados tentando enxergar errantes corpos, que houvessem logrado materializar-se apeando-se dos meus mal sonhados dormires diretamente no nosso quarto. A unidade de ar condicionado, que neste verão tem sido responsável por violentas mordidas no combalido orçamento, lá continuava seu ronronar…

Depressa esqueci mais um dos novos sonhos sem pés nem cabeça que teimo em descrever, mas que raramente me atrevo a postar. É domingo e amanheci numa clínica acompanhando a minha maisquetudo para um programado check up. Domingo, aprendemos, podem-se conseguir reduções muito significativas em exames tais como, e.g., o TAC (tomografia computadorizada).

Para ocupar a relativamente longa espera, dei continuidade à leitura de “A Sibila”. É, na prática, um estudo, este texto de Agustina Bessa-Luis na sua forma original! Em que pese a dificuldade inicial que senti na identificação e colocação dos personagens ao longo dos primeiros capítulos, o que de certa forma tumultuou a leitura, o livro foi paulatinamente cativando o meu interesse e admiração ao ponto de me surpreender emocionado! Quanto à menina ou senhora que adquiriu o volume em primeira mão, parece ter-se dado muito mal; Suas anotações a lápis não passaram da página 60, sublinhando a frase “…Era uma proprietária madurona, alambicada de fidalguias…”. É óbvio que a criatura desistiu antes de completar o primeiro quarto do livro!

 

Enfado

Iniciei este texto lamentando minha falta de paciência comigo próprio, mas desisti, apaguei e reiniciei lamentando minha falta de paciência comigo próprio. É isso: O “loop” de quem não tem a menor ideia do que fazer com as ideias menores que acorrem, laboriosas, levantando muralhas a possíveis ocorrências mais produtivas. Quando fico esgotado de pelejar para abrir brechas nas tais muralhas, ofereço-me uma pausa e leio mais um capítulo de “A Sibila”. É que, reconheço, o texto de Agustina não é para quem está sem paciência…

 

Sibila

Hoje é sexta, na iminência de entrarmos na derradeira semana de março, do derradeiro ano desta década. Aflorou-me a lembrança de que os que eram bebês no momento do inferno do WTC, estão entrando ou até já entraram na universidade, sendo esse e outros eventos do início do milênio, para esses jovens, nada além de histórias escritas na História. É claro que eu realizo estar a fazer chover no molhado, mas apeteceu-me falar porque comprei um livro escrito e publicado em 1953 e de repente me senti, de forma ultrarrealista, ao tempo da publicação com os meus nove anos num daqueles dias mais comuns, saindo para a minha escola carregando a bolsa com a lousa, as penas de ardósia, os lápis e demais itens. Parece que foi hoje de manhã!…

O livro, que comprei no Sebo, ou, em bom lusitano, no Alfarrabista, é “A Sibila” de Agustina Bessa-Luis, que procurei depois que Adalberto De Queiroz compartilhou uma excelente resenha escrita por Euler de França Belém à Biografia de Agustina, de Isabel Rio Novo, publicada no Jornal Opção. Em adição aos interesses do texto – ainda estou no inicio – divirto-me com as frenéticas anotações da compradora original do volume, provavelmente estudante de literatura, visivelmente tumultuada com a profusão de termos e frases regionais, além de frequentemente substituir acentuação original, sentindo-se incomodada com os casos de acento agudo em vez do circunflexo usado na grafia brasileira, cruzar o “H” da palavra Húmido e outras “correções” inerentes ao seu aprendizado do idioma…

Seguir a Sombra

O FB lembra-me que há três anos, eu escrevia nas minhas Mukandas:
 
” Sendo o futuro nada mais que uma hipótese diluída nas névoas do caminho ainda por percorrer, o que restará para ser vivido, pela lógica da minha própria lógica, deveria ser sorvido e saboreado a cada nano-segundo, como se fosse derradeira a próxima sístole do meu coração. Mas isso não acontece e, dir-se-ia, acabo por levar muito a sério o meu outro lado disposto a continuar a brincar de imortal…”
 
O post foi redigido depois que encontrei um recado-advertência da Nina colado no monitor, com a citação: “Agora que tenho tempo, descubro que já não tenho”.
 
Três anos depois, o tempo parece haver envelhecido mais depressa que o tempo real. Aliás, o agora Imortal da Academia Goiana de letras Poeta Adalberto De Queiroz, comentou esse post citando Crísias num fragmento pré-socrático: “Seguindo a sombra, o tempo envelhece depressa”

Amar o medo

Esquerda, direita, um, dois…

Um, dois, feijão com arroz

Caminhar no calçadão

faz muito bem ao coração

caminhar acelerado

deixa-me bem humorado

Mas ela tá d´ovo virado

D´ovo virado não dá não

faz muito mal ao coração

Eu estou com medo dela

mas de mâo dada com ela

 

Deu vontade de mijar…

vou pra casa, vou voltar.

Cauda entre as pernas voltei

e o medo dissimulei…

Viver é…

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Todos, exceto eu, parecem ter na ponta da língua a definição da palavra “Viver”, que é uma das palavras pequenas, de cinco letrinhas apenas, sinônimo de “Respirar”. Dizem que tem muitos outros sinônimos que levam à tal definição, mas as dúvidas me calam. Ensinem-me!

 

Perguntaste-me noutra hora

Se eu sabia o que é viver!

Confuso eu fui-me embora

Sem conseguir responder.

 

E responder não poderia

Porque até hoje eu não sei…

Se mais confuso eu ficaria

e definir eu não conseguiria,

perdoa-me, mas não responderei…

 

Reencontros

Minhas mal-humoradas reações aos conteúdos do Face Book têm vindo num crescendo, acercando-se da probabilidade de me decidir por anular a minha página. Eis que neste dia, terceiro do mês de Março do ano 19 do terceiro milênio, um feliz reencontro familiar após dezenas de anos de separação começou a materializar-se, graças a essa mesma rede social onde o ódio e a intolerância conspurcam os caminhos comuns nos quais, afinal, ainda é possível encontrar respeito, amizade e amor, em bolsões contendo o que de melhor têm os remanescentes bípedes dotados de uma alma.

Do fascismo

Fascismo sempre foi borrão simétrico. Suas particularidades cerceadoras de liberdades fundamentais, autoritarismo arbitrário, estado policialesco, culto à personalidade, espalham-se e espelham-se sem qualquer diferença, a bombordo e a estibordo.