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Do casulo (4)

Máscara

Insisti e observei uma vez mais minha imagem no espelho oval de moldura dourada, que há mais de quarenta anos reflete fielmente meu envelhecimento. Indagava sobre meu look com o rosto parcialmente coberto por uma máscara que acabara de ser diligentemente confecionada pela minha maisquetudo, artista faztudo de habilidades mil! Não sentindo reações negativas por parte do espelho, resolvi prosseguir no meu intuito de sair à rua e fazer uma rápida sortida à farmácia da esquina. O objetivo era conseguir três meses do caro anticoagulante de uso contínuo com algum bom desconto, aproveitando para obter álcool gel e máscaras descartáveis, na sombra de uma compra substancial. Voltei para casa com um mês de medicamento, sem álcool, sem máscaras…

Do casulo (3)

Magia1

…E domingou cor-de-chumbo, adicionando peso à exasperante imobilidade.

Imobilidade que lamento no meu trautear silencioso, incessante, incontrolável: “Moon River, wider than a mile…”: Não há fronteiras nem limites para o pensamento e prossigo: “I´m crossing you in style, someday…”: Para mim, este “someday” é “agora”, neste preciso momento em que tanto a minha liberdade quero de volta. E em frente eu vou, na ânsia de voltar a usar o meu mundo a meu próprio arbítrio: “Where ever you´re going, I´m going your way… E arrasto a minha maisquetudo: “Two drifters, out to see the world/There´s such a lot of world, to see!…”

Volto à realidade do que meus olhos alcançam e que logo muito se alegram encontrando a companheirinha de viagem, “Huckleberry friend” da minha canção…

Do Casulo (2)

Chove... (2)

“…Sim, chove!”, disse eu pra ela, após espiar pela janela. Pela janela enxerga-se a rua, muito calma, onde não se vê vivalma, vivalma! Isso seria normal, não fora esta uma rua principal! “Fica, que eu também volto pra cama, porque afinal, ninguém nos chama…” Ainda é muito cedo e essa calma me dá um medo, um medo…

Mais um dia a menos, de menos paciência que o dia passado, mas por certo de mais paciência que o dia vindouro, partindo do princípio que acordarei vivo para esse vindouro dia da continuidade trancado em casa. Hoje é sábado – detalhe de nenhuma importância para idosos aposentados, ainda mais nas atuais circunstâncias de clausura defensiva. Também era detalhe de nenhuma importância na minha vida de Oilman embarcado em plataformas no meio no mar. Só o dia do tão esperado desembarque era, então, detalhe importante. O risco era consideravelmente alto, mas nunca senti medo de nada. A minha falta de medo, por outro lado, exponenciava o meu risco, porque eu era dado a mergulhar em loucas atividades nos tempos do pioneirismo em navios-sonda, há uns trinta anos lá atrás. Hoje ninguém me permitiria tais loucuras.

A lembrança do fearless Oilman foi só uma consequência daquele medo que expressei no primeiro parágrafo. Agora, escrevendo estas tortas linhas, penso ser aquele um medo filosófico com alguma carga de cabin fever. Ou não: O prospecto de morrer sem ar me apavora, desde que vi a minha tia Amelinha entubada num hospital em Vila Real de Trás-Os-Montes nas suas derradeiras horas…

Do Casulo

Ferramenta

O otimismo desinformado vai num desaparecendo, na medida em que o pessimismo ultrainformado dispara num crescendo. “…Então o meu risco é tudo isso?!”, surpreendo-me ao deparar-me com uma tabela produzida em algum lugar do planeta por uma das muitas iminências angloparlantes especialistas no assunto. À minha faixa etária é concedido um tal percentual de sobrevivência em caso de infecção, que um início de pânico se apoderou de mim. “…então, é melhor começar a organizar tudo…”.  Depois veio a resistência puxando a resiliência, que me fez apertar o botão do foda-se, não-vou-organizar-porra-nenhuma. Seguiu-se uma subida exponencial da minha pre-existente fobia aos meios de comunicação. Deles eu isolo-me de fones de ouvido, enquanto garimpo nos inesgotáveis caminhos do Youtube e não só, os assuntos das minhas predileções, não necessariamente nessa ordem: Musica (Do cássico ao Rock n´blues), Instrumentos, Literatura, Artes em geral, Aeronautica, Astronautica, Tecnologia em geral.

Mas foi vagueando pelo vácuo do gossip, que aflorou em mim um sentimento de inutilidade, depois de rever, também no youtube, bem entendido, um numero absurdo de vezes, um talk show em que Kate Beckinsale conta uma brincadeira em que ela enfiou um toblerone no meio das nádegas de um fulano que caíu no sono decerto depois de beber em excesso. O pior é que à décima segunda vez eu ri com a mesmíssima vontade da primeira. É muita perda de tempo, mesmo considerando que a mulher é linda de morrer, culta e engraçada pracarrramba, tem uma voz grave de orgásmica suavidade que junta com uma britanice de babar. Surpreendi-me pois na esquina da inutilidade desse nada doce far niente do recolhimento compulsório que agora ganhou força de lei de exceção, quem diria, quem diria! É dura essa ditadura do tal viruscoroado…

 

Tsunami

Verduras

Tsunami viral, global! Como sobreviver à peste e sobreviver à fome, que é outra forma de peste que já se instala e alastra com as economias em desastrosa paralisia? Fomos ao verdureiro comprar alguns poucos itens essenciais que poderão muito bem, nestas circunstâncias, não estar disponíveis amanhã. Um pedreiro falava em voz alta para um dos empregados da frutaria, que a obra foi interrompida e ele, trabalhador avulso, não teria mais como alimentar a família. Na caixa, tristemente por momentos me alegrei…

…ou Pandemia Histérica. A História conta-nos muito sobre a letalidade da histeria, que pouco fica a dever à mortalidade pandêmica. Parar o Planeta resolve o surto? O que sabemos é que o surto será contido a seu tempo pelos magos da bioquímica. Mas o caos econômico e social, o desemprego e a FOME por resultado da histeria, levarão tempo para ser revertidos. O pior é que para essa reversão, os sobreviventes não contarão com brilhantes magos da ciência e sim com os mesmos que semearam a histeria: Os políticos.

C.ANIV-76

Mewithmyself

Avalio-me em silêncio, na tentativa de traçar alguma estratégia que me conduza à  sobrevivência nessa nova pandemia global, para a qual até este momento não há tratamento e muito menos vacina. Mas não tardo a concluir que nenhuma estratégia existe ao meu alcance. A braços com alergias respiratórias e sinusite, encontro-me assim incluido nos grupos entre os quais esse andaço é mais letal. Lembro-me que durante o surto de H1N1 em 2009, eu morava em Singapura e era mandatório medir a temperatura várias vezes ao dia, preencher uma planilha com esses dados e outras informações, assinar e entregar na administração da Empresa. Nesse tempo, com “apenas” sessenta e cinco anos e em plena atividade, eu achava tudo aquilo um desperdício de tempo.

Hoje, no dia em que completo os meus Setenta e Seis, conquanto feliz por continuar entre os vivos, assumo-me um bocado mais preocupado que naquele tempo e disposto a cumprir de melhor grado uma rotina semelhante, se tal me fosse exigido. Por agora, contudo, estou mesmo é interessado em saborear as gostosuras que a Nina está preparando para a minha comemoração…

 

Ecocardioconfusão

O velho casal compareceu com antecedência para um pré agendado ecocardiograma com imagem colorida com doppler, daqueles que garfam uma boa fatia do teu empobrecido orçamento. O local é moderno, esmerado, de primeiro mundo, dentro de um hospital particular de nome brilhante, mas a exagerada antecedência acabou em longa e impaciente espera. Era já significativamente excedida a hora agendada, quando a mulher foi finalmente chamada e de volta estava escassos dez minutos após.

“Já?!”, admirou-se o homem; “Sim, foi rapidinho!”, respondeu, acrescentando: “O resultado vai sair agora mesmo, mas teremos de ir buscá-lo em outro prédio”. E lá foram para outro prédio onde, sem demora, lhes foi entregue um envelope rígido de excelente aspecto gráfico, decerto contendo as informações solicitadas pelo cardiologista.

Mal chegados a casa, abriu-se o fancy envelope, retirou-se e leu-se de pronto o conteúdo. O casal estava pálido: O laudo falava em arritmias e anormalidades ventriculares e outras tantas auriculares e atriais – um pavor…um pavor! “Como pode, se tu nunca foste diagnosticada com arritmias?!” – “Isso não pode ser verdade!”…

A mulher, apavorada e incrédula, deu finalmente atenção ao cabeçalho do documento; O laudo referia-se a um paciente de nome masculino e presentemente “em regime hospitalar”!

Ufffa!…

Da noite passada…

Noite feia, esta que por mim passou. Mal dormida, sofrida, agredida a cada metro percorrido nos enegrecidos túneis de ingratas lembranças, cicladas a cada uma das várias vezes  que abandonei a cama para descarregar filtrados. “Que bom que meus rins ainda filtram”; “Que bom, queaindanãomijonospés”. Consolos filtrados pela pensatrix ainda tomada pela leveza de peso insuportável do cabeçote de USG sobre meu baixo ventre lambuzado de não-sei-o-quê escorregadio.”Será que a minha próstata aumentou?” “O PSA, felizmente, está bem baixo”… Porque insisti em recomeçar a ler os livros de um fulano com discurso que mija traição sobre os próprios pés? Não suporto ler a insultuosa verborréia do fdp; Meias verdades impregnadas de toxinas malcheirosas. Nojo, nojo! Mas ele é nome gigantesco e eu sou ninguém fora do meu casulo. Agora já é de manhã e parece que a chuva parou. Vamos caminhar, Nininha?…

Vírus

Afinal o coronavírus é ou não um vírus coroado? Rei da vez, absolutista rei do mundo que o mundo deixa cagado de medo, propelindo as economias a deslizar ladeira abaixo, gerando desemprego, crise, a fome que logo poderá ir chegando sorrateira… O positivo é que, pelo menos até agora, o surto está muitíssimo aquém da letalidade das pestes que em outros tempos assolaram o planeta e dizimaram os terráqueos aos milhões. Cofiemos nos maravilhosos bruxos que nos laboratórios testam febrilmente a química milagrosa que descoronará o coronado…