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Dez anos

A WordPress recorda-me o décimo aniversário desde a minha inscrição e início do meu Bloguinho. Já são, pois, dez anos de postagens das minhas “Mukandas do Nelsinho” nesta plataforma, depois de vários e vários anos noutra plataforma , onde cheguei a acumular mais de mil acessos por mês e que, num dia de destemperança asinina, eliminei de um só golpe, dizendo adeus a tudo o que nela havia publicado! Sacudo memórias do ocorrido, para não reviver toda a imbecilidade do ato…

Meus cabelos estão desarrumados, em concordância com o caos das minhas ideias, sempre às voltas com ideais tão irreais, surreais, tão fora do atual tempo e espaço, que há muito já eram. O rosto que eu vejo é um desgosto de vincado, truncado, queixo múltiplo engelhado, boca com lábios meio deformados pela prótese dentária, sem a qual não poderia alimentar-me. A barba, quando desleixada, por fazer, fica completamente branca e por isso nem se nota tanto assim, afinal. As sobrancelhas são por mim próprio aparadas com lâmina de barbear, resistindo à tendência de assemelhar-me à figura de Mefistófeles do doutor Fausto. Noto que de alguma forma o nariz vem se modificando, mas não sei detalhar essa modificação. No entanto, apesar da feiura da minha velhice e da notável ausência de sorriso aberto, eu digo-me feliz por mais um dia vivo…

Alda

O nome “Alda” tem significado especial para mim, menos pela minha grande admiração pela poetisa luso-angolana Alda Lara, que pelo fascínio que sobre mim exerceu Alda Quintas nos meus tumultos íntimos da transição de criança para teenager. Alta, esbelta, de movimentos resolutos denotando enorme autoconfiança, era quatro anos e meio mais velha que eu, uma enormidade de diferença, considerando a minha idade e o desesperante atraso no meu crescimento. Eu era um garoto de pequena estatura, que só “deitaria corpo” muito mais tarde. Ela era mulher – “feita”, linda, absurdamente atrativa. Secretamente, me auto confessava apaixonado por ela! Mas Alda tinha um amor. Um amor daqueles “de perdição”, controverso, combatido pela família, como era costume ocorrer no seio das famílias mais extremamente conservadoras daqueles tempos. Os furtivos encontros dos dois aconteciam sempre com o meu conhecimento e cobertura; Fui, pois, malgrado meu ciúme, minha dor de corninho, o poço sem fundo dos segredos do coração da Alda, até que a vida me conduzisse para outros horizontes.

Alda Quintas nunca foi vencida e viveu com Álvaro, seu grande amor, tal como sempre quis, por toda a vida, até que ontem, dia 19 de Janeiro, Álvaro partiu…

Just another day…

Irrecuperáveis são as fotos contidas no CF, que aparentemente de bom grado aceitou a reformatação e voltou a funcionar como novo! Mas acordei com um pouco de dor de cabeça e desisti da intenção do terceiro dia de caminhada em que finalmente portaria a pesada Canon para imagens mais fotográficas.

Paira ainda uma réstia de receio aqui na familinha, depois que a senhora diarista testou positivo para Covid 19 após passar a última quinta feira trabalhando aqui em casa, com a presença de todos nós.

À medida em que se aproxima o dia da volta, as meninas falam em trancar as portas e treinam nós com cordinhas para nos amarrarem e impedirem nossa saída…

Bariguí

Curitiba não amanheceu chuvitiva, o Sol brilha forte e ficou irresistível repetir a caminhada de ontem pelo parque do Bariguí. Minhas pernas, uma vez mais não fraquejaram em todo o trajeto. Só o cartão de memória CF de 32Gb na câmera manteve a falha e parece irrecuperável. Como não estou disposto a pagar a fortuna que pedem por um novo, dispensei a SLR e passei a usar o celular. Em Niteroi tenho um de 8Gb que cumprirá o pouco que atualmente necessito. Surpreendi-me como cresceu o “rebanho” de capivaras no parque! Há alguns anos eu caminhei muito e molhei os pés para chegar perto e fotografar uma pequenina família delas…

Pintando o Sete

Acordei cedo demais e sentei o sábado na varanda acompanhado da Ibanez branquinha e afinadíssima, que escolhi dentre as várias beldades instrumentais da família Castro-Alonso. Dedilhando alguns acordes, ocorreu-me que hoje é o sétimo dia da semana. Daí, como não podia amplificar o pau elétrico para não perturbar o sábado, amplifiquei a importância do sete para a minha humilde pessoa. Estou no sétimo ano da sétima década após meu nascimento. Mas, fazendo as contas, foram oito as vezes que esteve o número sete presente nos meus aniversários. 7-17-27-37-47-57-67-77… OK, fine! Mas e daí? Quando do último aniversário, cheio de problemas reumatóides, temi que o numero 77 significasse um par de bengalas, prenúncio de cadeira de rodas. Afortunadamente não ocorreu e agora, próximo a completar setenta e oito, considerando que 7+8=15 novesfora, ficam 6, não 7, sinto-me mais confiante. E confiança, cada um toma a que quer…

Boca Fechada

Os períodos de Natal/Ano Novo aqui na casinha da família de Curitiba, sempre foram de grande fartura sobre a mesa. Deliciosos pratos e doces tradicionais preparados pela chef Nina, bebidas habituais, excessos habituais. Este ano, todavia, fomos surpreendidos logo à chegada, pelo rigoroso regime alimentar vigente na casa, pressionados que foram pela iminência da perda da saúde na trilha da obesidade. Em consequência, tudo foi drasticamente controlado, conquanto fossem, com moderação, confecionados os tais quitutes tradicionais, salgados e doces, para que a quadra fosse marcada. Vinhos e licores? Considerando o que era, podemos dizer que viramos abstêmios! Pouquíssimo foi consumido na comemoração.

Meu habitual sobrepeso, agora discretíssimo, está muito perto de perder a identidade e chegando ao peso ideal. Que assim seja…

“O tigre era branco, vivia sobre a montanha e chamava-se sombra…” Isadora ia soltando sua imaginação e criando fábulas enquanto, com Clarice, brincava com os bichos novos dos últimos kinderovos recebidos dos tios Bob e Ketty. Junto delas, divertido, eu prestava atenção, mas lembrava que Sidney Poitier foi um bom ator e eu senti seu passamento. Gostaria, todavia, de ter para mim a sorte da sua longevidade. Em sua memória, ao tomar conhecimento, ordenei à Alexa para tocar “To Sir with love” e me transportei de volta para o ano de 1967, quando o filme foi lançado. Por esse tempo eu vivia em perigos esforçado, aos quais logrei sobreviver e pude, tempos depois, radiante de felicidade, enlaçar-me pleno de juventude, ao meu amor e ao melhor período da minha vida…   

22º

Decorridos quatro dias dentro do novo ano e ainda mergulhado em dúvidas, eis que decido teclar algum sinal de vida, porque a vida continua, malgrado todas as ameaças que nos rondam. Convenhamos que viver é bom, desde que se logre conseguir separar o que de ruim contém o viver. Volto, levando muito a sério a promessa feita de que me absteria de qualquer promessa, salvo essa dita promessa de não prometer. Vamos em frente, pois…

31/12

Chove e troveja no trinta e um e acordo da sesta meio besta de estremunhado, desorientado e admirado por estar escuro como se fosse fim de tarde. Por enquanto não sinto nenhum efeito pelo fato de ser este o derradeiro dia do ano já quase passado. As vozes da Nina e da Vanessa chegam até mim enquanto conversam com a Mônica, trocando calmamente familiaridades e novidades. A distância que as separa parece não ter qualquer importância, mas fico a pensar que preferiria que estivéssemos todos juntos, sem ter entre nós vários milhares de quilômetros. Como nada posso fazer, junto-me, de mãos nos bolsos, como espectador, aos preparativos para as comemorações e bememorações da chegada do vinte e dois, ora pois…