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Papo Doido

Disseram-me que “ser” é um problema, mas eu estou mais inclinado a acreditar que “não ser” é muito mais problemático. Essa dúbia questão parece-me bem antiga e sem razão para um escrito. Na antiguidade outros o fizeram e nada concluíram- acho. Então porque escrevo eu sobre o tal “ser ou não ser”? Acho que é porque não me ocorre assunto com relevância capaz de propelir-me a redigir algumas linhas com alguma razão, a meu julgamento, bem entendido. Seria provavelmente mais razoável expressar meu interesse por algum filosofo. Falar de Nietzsche, por exemplo, ou, quem sabe, preferivelmente, por Baruch Spinoza, porque me acho tão próximo do seu pensamento do Deus-Natureza. Ou não, como diria um outro (pseudo) filósofo. Prefiro então falar de mim, mesmo que seja mal. Quero dizer: falar mal de mim pode parecer meio esquisito, mas renderia páginas e páginas, tal a quantidade absurda de besteiras que cometi pela vida fora. Hoje, não vou (ainda) falar mal de mim e conto que consultei uma linda dentista, para queixar-me que me caiu uma prótese de metal que ornava um dos pouquíssimos dentes remanescentes na minha boca de octogenário. A menina-profissional, poderia ser minha netinha e eu fiquei por ela enternecido e de queixo caído, porém, sem abandonar jamais apreciações outras, com todo o respeito! Amanhã eu volto e direi que aceito o plano de recuperação do velho mastigante, pelo preço apresentado, é claro…

D. Antónia

Sinto vontade de voltar a sentir vontade. Mas de quê, exatamente? Porque a verdade é que não sinto vontade de porra nenhuma. Estou ficando tão indiferente com o que se passa neste louco planetoide no qual eu ainda vivo, que me surpreendo desinteressado até mesmo pela minha própria pessoa, enquanto humanoide desse mesmo doido planetoide. Continuo, é verdade, alimentando-me, tomando banho, dando alguma atenção à minha companheirinha, que vai, por seu turno, ficando cheia de aturar minhas silenciosas esquisitices. Ainda bem, que as minhas esquisitices são silenciosas! Já imaginou se me dá para a violência verbal?! Suave é a noite que espreito, enquanto saboreio um cálice de vinho do Porto da vinha da Dona Antónia, um Tawny com 10 anos. A minha fuga foi agarrar- me ao espirituoso, que tomo com extrema moderação: Um só cálice mais, porque a garrafa acabou…  

Oilman

Gastei longos anos da minha vida, embarcado em navios e plataformas de perfuração e completação. Dureza de vida, equipamentos gigantescos, ferramentas pesadas, trabalho com bastantes riscos, que minimizava levando a sério tudo o que estava e está escrito nos manuais e procedimentos sobre segurança. Mesmo assim, em tempos idos, recordando a vivência a bordo de um certo Navio-Sonda que por certo já terá sido sucateado, eu arrisquei demais a própria pele em ações tais como substituição de cabos de tensionador de riser, mergulhando no “moon pool” com mar bastante forte, forte o suficiente para arriscar ser esmagado entre a onda subindo de encontro à base do anel tensionador. Por estranho que possa parecer, sinto imensa saudade desses riscos, dos porres de adrenalina, da indescritível satisfação quando tudo dava certo na operação da unidade. Interessante, dizer que atravessei diversas fases em que o petróleo bruto não passava de 12,00 USD o barril. No entanto, ele chegaria a próximo de 200,00 USD o barril, que levou a enormes investimentos na área. No momento, com o problema da guerra e fechamento de Ormus, o barril está a 94,20 USD, muito longe daqueles preços atingidos há menos de duas décadas atrás. Todo este preâmbulo, para afirmar que, na qualidade de orgulhoso ex-oilman, não adianta tentar convencer-me a comprar um carro elétrico. A não ser como brinquedo caro, para passear nos limites da cidade. Nunca para viajar sem sobressaltos. Geração de energia elétrica para a crescente demanda, especialmente com os consumos brutais dos centros de dados e computação quântica, enquanto não for desenvolvida e viabilizada a fusão nuclear, impossível deixar de usar a energia fóssil. Se pudesse, eu voltaria de bom grado à plataforma…

Solitário

Dominguei diferente, sem a presença da minha companheirinha, que se juntou à familinha Castro-Alonso para um aniversário em Morretes. Terei eu melindrado alguém pela minha preferência solitária e meio anti social? Anti social até que eu não sou, ou pelo menos penso que não sou, mas também falo muito pouco, ouço muito e isso pode ser mal interpretado. Reconheço que tenho piorado com o envelhecimento, no que concerne à minha introversão. Sou também um garfo muito fraco, o que poderá deixar um cozinheiro achando que não gostei do que ele produziu. Mas, prosseguindo, fiz uma caminhada medicinal em torno do parque Bariguí, sentindo, confesso, a falta da mão dela para me arrastar, porque ela caminha bem mais rápido que eu. Valeu pelo exercício e pelo solzão forte da serra me fornecendo doze extra de vitamina D. Depois de um almocinho frugal, conduzi meu veteraníssimo Astra CD para o estacionamento do grande centro comercial nas cercanias do mesmo parque Bariguí. Gastei a tarde olhando quem passava pelos imensos corredores, como se isso fosse uma diversão; mas para mim, é mesmo uma diversão! A Nina me acompanharia contrariada. Acho que não fui para Morretes, para perambular à minha vontade pelo shopping center…

Saudosismo

Neste dia há doze anos, eu ainda estava – e estaria por mais algum tempo – trabalhando, ou, como eu por vezes escrevia, vendendo os meus dias a uma empresa que aceitava comprá-los e pagar-me por eles, desde que eu entregasse de forma satisfatória as tarefas que me eram ordenadas. Nesse dia, por certo, eu começava a fazer minha cabeça para partir para a aposentadoria, sem sequer antecipar que, todos estes anos depois, eu tão saudoso estaria daqueles tempos em que era útil e criativo. A Rosinha Weeks, uma veterana secretária da diretoria, chegou-se à minha “baia” e presenteou-me com a quitandeira baiana da foto, que presentemente enfeita o nosso filtro de água potável. A Rosa marcou presença nas redes sociais por longo período, até que, de repente, sem aviso nem um “ciao”, desapareceu! Cadê você, Rosa?!…

Pick Pockets

Vai crescendo em mim a impressão de que na política internacional, não importa em que coordenadas do mundo, encontra-se mais gossip, que no mais infecto puteiro da pior zona de baixo meretrício. E nela, na política, abundam os batedores de carteira, contra os quais não há como chamar a polícia…

…eu escrevia, homenageando as mulheres:

“Feminino Universo

Rodeado de meninas minha vida gastei,

Meu universo é feminino…O que ganhei?…

Ganhei doçura pra temperar minha macheza,

Ganhei sensibilidade para enxergar a beleza…

Ganhei belas rosas que não só exalam,

Ganhei rosas que também falam…E como falam!!…

Ganhei compreensão pra’s têpêémes aturar,

Ganhei coragem pros meus ciúmes mitigar!…

Ganhei orgulho das mulheres que fiz,

Ganhei com elas, o direito de ser…Feliz! “

Perdido na madruga

Três da matina. Perdi o sono e não o achei até ao momento. Procuro-o nas teclas iluminadas, mas parece não adiantar muito. Penso na reunião de convívio do condomínio que terminou cerca das 22:00, durante a qual ingeri boa parte de um vinho da Bairrada bem gostoso, bem espirituoso, mas que parece não ter ajudado para uma noite tranquila. Do churrasco, comi umas quantas peças de pão de alho e três pedacinhos de linguiça. Resulta que estou sentindo fome, ou será vontade de comer, não sei. Mas não vou comer, não senhor! Decido-me por ficar na janela, perscrutando as sombras dos edifícios, neles adivinhando milhares de almas adormecidas em paz. Ou não: quem sabe se do outro lado de todas essas janelas sem luz, tem alguém que, tal como eu, perdeu o sono? Também devem existir por aí sonâmbulos atropelando cadeiras. Deve ser sinistro ser sonâmbulo, imagino. Aprendi no convívio, que o condomínio tem vários músicos amadores, entre pianistas e violonistas. Prefiro ficar na sombra por medo. Tenho instrumentos, mas não mais me atrevo a pegar neles, exceto para os limpar. Uma senhora disse do seu gosto pela fotografia e eu na sombra fiquei, porque tenho equipamento, mas nem mais esse hobby eu pratico. Pego-me em repetidos bocejos, que adivinho serem ensejos para tentar dormir, finalmente…

Tempos difíceis

Na minha postagem anterior, confessei-me contrariado pela derrubada de unidades F15 Eagle na guerra da Pérsia. Nos meus tempos de garotinho, quando um coleguinha me agredia, eu revidava a agressão com redobrada contundência, ao mesmo tempo que recitava: “Quem vai à guerra bate e leva”. Eu, na qualidade de sujeito vidrado em aeronáutica, não gostei de ver um dos meus mais admirados caças ainda em ação, ainda que ultrapassado, ser assim, abatido sem defesa! Mas o revide feito pelas forças muito mais up-to-date valeu, para eliminar o maldito Aiatolá e sua ultra violenta ditadura religiosa, assassinando milhares de iranianos desde 1979, com enforcamentos diários em praça pública utilizando guindastes providos de estruturas capazes de levantar meia dúzia de supliciados ao mesmo tempo. Prostituição, homossexualismo, resistência à mudança radical, ou qualquer atitude contra o absurdo da “sharia”, tão absurda e criminosa quanto a maldita “santa inquisição” na idade média, acabava sempre na forca. Daria meu incondicional apoio ao presidente Trump, não fora ele ter metido os pés pelas mãos internamente, na sua política de imigração, onde famílias estão sendo separadas, aprisionadas e deportadas, em ações que lembram os tempos nazis…

Top Gun

Concedo ter ficado desapontado pela derrubada de três F15 Eagle seja por fogo amigo ou inimigo, mas que, aparentemente, foi mais fácil que limpar a bundinha de bebês! A minha pressão arterial subiu e eu dei por mim contrariado, porque na minha ideia, tinha esse tipo de Fighter por invencível. Onde é que eu tirei a ideia da invencibilidade? No top gun, por certo.

Para me descontrair, sentei em frente à minha LG de 55” e optei por assistir de novo Mahler 5, desta vez pela Orquestra do Festival de Lucerna de 2004, dirigida pelo maestro Claudio Abbado, ainda pleno de pujança, 10 anos antes de seu passamento. Todas as emoções sinfônicas de Mahler, especialmente o maravilhoso“Adagietto” do quarto andamento, apagaram, ainda que momentaneamente, as feias coisas da guerra…