Feeds:
Artigos
Comentários

Archive for the ‘Uncategorized’ Category

Dia das mulheres

Redigi algumas linhas sobre as mulheres, mas não consegui manter o discurso demasiado longo, demasiado baba-ovo, num tempo de mulheres poderosas ou, como modernamente se diz, “empoderadas” que não carecem de matéria elogiosa dos marmanjos para se elevarem.  Pouco aproveitei do escrito original que insistia na minha tecla pessoal de grande admirador de mulheres inteligentes. Não que se encontre muito mais inteligência entre a população feminina atual. Mas é notável a superioridade da inteligência da mulherada no uso da sua inteligência. Bem, há sérias ressalvas no uso de toda essa inteligência na hora de procurar o amor, mas fica para outra ocasião…

Read Full Post »

Surpreendo-me com desejos de voltar à poesia, mas a poesia surpreende-me com desejos que longe dela eu permaneça. Poesia é tal qual a música: quanto menos a praticamos, mais de nós ela se afasta e nos repudia, estranhos que passamos a ser à arte de rimar expressivas sílabas, ou melodiosos grupos de não menos expressivas notas. Sinto-me então enjeitado, mesmo dando-me conta de que fui eu próprio que me enjeitei, ao abandonar-me à mediocridade. “Nunca serei um poeta”, sentenciei sem veemência, na esperança de manter alguma esperança. Mas os anos passam, os farrapos da minha pobre poesia desagregam-se e eu cansei de mim…

Read Full Post »

Passeio

Sem condições para acompanhar o ritmo de caminhada da Nina, procuro relaxar-me em passada-de-tartaruga pelas admiráveis belezas de uma manhã iluminada. A pedra de Itapuca em primeiro plano, parece realçar toda a força do verde-azul da Guanabara e suas belíssimas elevações. Lá estão o Pão de Açucar, a Urca, o Corcovado! Lá, longe, ao fundo, a Pedra Bonita. Paisagem linda, da Cidade Maravilhosa tão cantada e tão vilipendiada. De perto, bem pertinho, a realidade acaba por esmaecer toda essa beleza. Paro um pouco enquanto admiro o trabalho dos que mergulham para garimpar entra as rochas os quilos de mexilhão que vão sendo carregados nos botes. A sobrevivência pode ser bem difícil e trabalhosa. Adivinho que depois da colheita, há que preparar e transportar tudo para quem compra, que são os restaurantes que, neste momento, sofrem horrores para conseguirem manter-se. Os meios de vida estão todos nas vascas da morte…

Read Full Post »

Shrink

Com vários fios ligados do meu tórax a um aparelho Holter, encontro dificuldade em adormecer. Uma vez mais, levantei e retornei ao escritório. Mecanicamente, liguei o PC e abri o word na folha dos textos do corrente ano, mas fiquei longo tempo de olhar perdido sobre as últimas frases lá escritas sem direção, sem motivação, sem razão. Deveria eliminar tais frases que nada iniciam e a nada conduzem? Decido-me por preservá-las para uso posterior, ou descarte posterior. Ao iniciar outra coluna, queixo-me das dores nos meus ossinhos. Mas desisto dos ossinhos falar, para não dar parte de fraco e dizer que me sinto doente. Não sei o que tenho e espero que os médicos interpretem os holters, mapas, raios dos Xis e análise de sangue e xixi e me digam, se puderem, quanto tempo ainda me resta de vida. No decorrer do presente mês, espero completar 77 – setenta e sete. Com o mau momento ósseo, logo me lembro de enxergar os dois 7 como duas bengalinhas para me apoiar! A minha maisquetudo diz que eu preciso mesmo é de um bom shrink…

Read Full Post »

Get Back!…

“…Get back to where you once belonged!”, escutei o número dos Beatles agora pela décimamilésima vez na minha vida e soou-me como se fosse um novo sucesso. Eu precisava mesmo voltar, tomando atalhos para contornar o meu momento tão abarrotado de dúvidas sobre as certezas e de certezas sobre terríficas dúvidas. Os tempos são mesmo para os muito fortes, dirão, como certamente dirão que são para os homens de fé. Eu nunca achei que eu me enquadrasse em nenhum dos casos, muito embora, paradoxalmente, forte eu haja sido em tantas provações, misturando força de carácter com fé e falta dela. Agora aqui estou eu, espremido entre dores, pavores e horrores perante a verdade crua e nua, sem paradoxos: A vida, que sempre foi frágil, atingiu níveis extraordinários de fragilidade. Pela periculosidade da peste da vez e, para mim, pela fragilidade que sinto perante as moléstias que tanto me molestam…

Read Full Post »

O idoso achegou-se silenciosamente à porta da cozinha e observou pensativo e pesaroso, o vai e vem da vassoura engenhosamente embrulhada feita um rodo sobre a superfície molhada com água e detergente. Comentara um pouco antes que os pisos da cozinha e área encontravam-se brilhantes e asseados, não justificando, a seu entender, a necessidade de tal faxina. Não adiantou, porque os padrões de qualidade do casal no que concerne a limpeza parecem diametralmente opostos. Pensando um pouco mais, as divergências tendem a passar além dessas simples coisinhas domésticas, mas não é isso que agora está em foco. Como atravessa uma fase de dolorosos problemas ortopédicos, o homem pergunta-se como ela consegue! Afinal, trata-se de uma mulher nos seus 75 e que sempre trabalhou muito! Vai ver que por isso mesmo, ela não consegue ficar um pouco mais de tempo parada! Ah como é cansativo vê-la naquela azáfama permanente, feito frenética formiguinha! Não tardará, pensou, iria escutar o habitual lamento: “Quando está limpo, ninguém repara nem valoriza todo o trabalho que deu, mas se deixar sujo…” Enfim, retirou-se o homem em silêncio de volta para seus habituais afazeres com o computador e seus periféricos, outrora valiosas ferramentas agora transformadas em instrumentos de lazer, finadas que há muito foram as tão saudosas atividades remuneradas. Ficou mais frequente sentir-se como que um peso morto. Não morto, no sentido de morto mesmo. Mas no mínimo, moribundo. “Peso moribundo é ótimo!” pensou sorrindo. Relembra  um período conturbado a bordo de um Navio Sonda, depois de sofrer uma pequena queda que o deixou com um braço dolorosamente contuso, pisado. A dor incomodava-o e, mesmo sem querer, agarrava o braço e queixava-se de quando em vez. Um operador rádio observou-o por um tempo e disse-lhe: “Você está moribundo e não sabe!” O tal operador não sabia da missa a metade, não por ser judeu, mas por tanto desfrutar da sua boa vida sem risco de acidente em seu tranquilo e climatizado ambiente de trabalho. No convés a história era uma realidade imensamente diferente. A dona de casa tem razão; Ninguém dá valor ao trabalho dos outros, a não ser que dê pro torto e tudo pare…

Read Full Post »

Do Nada

Creio existirem variadas formas de fazer nada. Entendo que os efeitos aumentam se aos trabalhos de fazermos nada incluirmos, em doses a gosto, o pensar nada. Quando enceto uma fatigante atividade de produzir nada, acabo esgotado e com sérios problemas gerados pelos efeitos colateriais de nada fazer, especialmente se acompanhado do atrás dito nada pensar. Concluí então ser prudente adicionar um touch de pensamento pouco ou nada profundo às atividades, especialmente as mais severas. Tentar modificar o valor de Pi, por exemplo, sendo como é uma perfeita inutilidade, todavia já emprega um nível de pensar, que nem é bom pensar. Idióticos pensamentos de políticos idiotas certamente que ajudariam, não fossem eles, os políticos, quem mais se dedicam à produção de nada, por tortos, caóticos e sujos caminhos. Aqui para nós: Fico por aqui, porque estou mesmo a fim de fazer nada…

Read Full Post »

Diminuido

Porque me sinto assim

com esta fragilidade,

perdi confiança em mim,

terei perdido a tenacidade?…

Sinto muito sentir que perdi mesmo confiança naquela tenacidade além da resilência que fazia de mim a pessoa que me conheço, ou que eu achava que conhecia. Mesmo considerando a obrigatoriedade diária de tomar um exagero de drogas para me manter, com todos os seus lamentáveis efeitos colateriais incluindo nisso o humor, vinha resistindo razoavelmente ao longo dos anos. Devo ou não acusar o avanço da idade como principal culpado? Devo, claro, porque o avanço da idade vai fatalmente alterando as capacidades. Sei que preciso concentrar-me para gerar defesas e remar contra a corrente que tão enexoravelmente me arrasta. Mas tem esta praga de artrite ou lá o que seja que me acometeu desde pouco antes do Natal e me quebra as vontades…

Read Full Post »

Já tive melhores momentos na minha vida, mas reconheço que estar com vida e alguma esperança já é coisada positiva, afinal. Comprei uma impressora nova, com forte cheiro a nova, para minha alegria – porque as minhas duas narinas reconheceram cada odor. A minha velha HP com uma dúzia de anos deu o que tinha pra dar e pronto. Dir-se-á: Mas impressora não é necessária – ela consome árvores, etceterá, etceterá. Mas fiquei feliz com a minha comedora de árvores que também digitaliza e não carece de um cabo ligado ao PC, porque é inalambrica como dicen los hermanos.

Dia destes, no espaço FB da Laura Rónai, ela compartilha uma matéria de Luiz Ribeiro, que não conheço, mas de cujos textos Laura se declara admiradora, o que é recomendação mais que respeitada, porque ela não é “só” grande musicista e flautista de dotes virtuosos. Quando se dispõe, ela escreve muuuuito! Então o Luiz Ribeiro, lendo “A Cidade Sitiada” de Clarice Lispector foi tão impactado pela frase “ Sem ser pai, já não era filho” pinçado dos pensamentos de Perseu dentro do trem que partia, que a tomou como mote para escrever sua coluna. Já eu, velho filho, pai e avô, só consegui ser impactado pelos dois cálices de Porto que o personagem ingeriu. Tenho no Kindle e li A Cidade Sitiada há já algum tempo – mais que suficiente para esquecer o que eventualmente foi memorizado pelo par de neurônios que me restam. Vou ser franco: A obra não me tomou pela alma e agora, vejam só, tenho a petulância de achar-me um pouco mais em condições de entendê-la. Ou talvez não, veremos…

Read Full Post »

Ósseo

Confesso que os meus tão recentes problemas ósseos, desencadearam-me sérios problemas óceos – quero dizer, de ociosidade mesmo, sem vontade outra que permanecer no meu canto sem fazer porra de nada. Mesmo assim, enfrentei o meu velho carro que já nem imposto anual paga em razão da sua provecta idade, coisa que deveria ser aplicada em mim, seu proprietário de provecta idade, dobrado e manquejante sobrevivente de uma vida inteira de desgastante trabalho. Liguei o borne positivo da bateria – os circuitos emitiram alguns gritinhos e gemidos de prazer, acredito que por trazê-los de volta à vida, porque eu sempre desligo a bateria por existirem fugas no sistema elétrico. Sentei-me aos comandos, dei a volta à chave e a resposta foi plenamente satisfatória: O motor de 2Litros virou obediente e sem rateios – “Oras”, pensei, “só fez sua brigação porque, afinal, é um jovem com apenas 130 mil rodados, apesar dos anos”.

Agora eu já estava no supermercado, acompanhando a minha+quetudo nas compras. Tá todo o mundo mascarado e, em consequência, não se veem caras. Conjeturo que, uma vez que se não veem caras, poderiam ver-se os corações. Mas não! Caras, só mesmo as frutas, verduras e mercearia. Todos os corações passam por mim batendo fraco demais para serem notados, muito menos vistos. Sorrio, pensando no susto se alguém escutasse meu coração batendo fora de ritmo deste jeito…

Agora passa junto a mim uma mulher – observem que eu disse “mulher” e não “uma pessoa com vagina”, o que ratifico, porque o texto é meu e vim ao mundo nos conturbados idos de milnovecentosequarentaequatro. Uma mulher, dizia eu, de pele muito branca, loura, de olhos azuis. Nenhum desses atributos me surpreenderia, não fora a profusão de multicolorida arte tatuada nos alvíssimos braços e porções expostas do peito e pernas da criatura! Não segurei e disse para a minha menina: “Vai ver que a arte tatuada é a excitatriz do homem dela!”.

Então, finalmente, cansei de pensar mal sobre a vida dos circunstantes. Mesmo a tempo, porque a minha companheirinha ordenou: “Vamos pra caixa”! Ordens são ordens e pronto!

À chegada a casa, cumpri com rigor as instruções dela para desinfeção, lavagem de mãos, desnude pelado, chuveirada com muito sabão. Tudo isso e todo esse tempo, suportando estas dores ósseas que me compelem ao ócio…

Read Full Post »

« Newer Posts - Older Posts »