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Archive for the ‘Uncategorized’ Category

Espuma

Rolam e espumam fracas vagas,

contra as nuas rochas na baixa-mar

Eu as desnudo com meu olhar

triste e tão sombrio quanto as fragas…

sobre as quais me quedo a meditar

enquanto a preamar não as galgar

e meus sapatos começar a molhar…

Sinto saudade do futuro, quem diria

pois não sou mais o que terei sido

ou do que acaso me terei convencido

de tão especial que me unia à poesia

Mas oh tristeza! Sinto-me desiludido…

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Passo lento

Caminhada matinal sentindo aquela dificuldade que tão recentemente passei a enfrentar. Nina largou da minha mão e afastou-se de mim no seu ritmo de alguns 5kms/hora que eu não mais consigo fazer. O meu passinho hesitante permite-me, por outro lado, ser mais observador do que me rodeia. Por exemplo, camisetas com frases estúpidas ou inteligíveis, ou bem-humoradas tais como: “Rola Cansada Futebol Club” entre os velhos do carteado. Vejo uma vistosa cadelinha com o nome bem visível na trela – Holly era o nomezinho da bichinha que acabara de largar um perfumado presente na calçada, que o bípede que a pastorava tratou, resignadíssimo, de recolher para um contentor próprio que portava. Imaginei que o homem pastorava caninos profissionalmente, porque dele não escutei nenhuma praga do tipo “ HOLLY SHIT!”, que até caberia no momento e que mereceria todo o meu apoio. O que não falta é cagão de calçada, sendo que boa parte dos dejetos são pelos canídeos largados e depois pisados au hasard por mim ou por ti, enquanto de olhar vagueado pelas “atraências” passantes, embasbacantes e impossíveis para quem atingiu a terceira dentição…

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Recuo

Conforme avanço na idade, recuo na capacidade. Sequer sou capaz de segurar amizades, que surpreendo perdidas porque por mim não foram nutridas. Ou por razões outras que preferi chamar de “desconhecidas”. Agora eu sou uma outra personalidade à qual retirei parte da racionalidade que sempre disse a mim próprio possuir. Se racionalidade possuía ou não, não sei e nem mais faço questão. Dou voz ao meu combalido e fibrilado coração. Ele sim, merece especial atenção…

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Voltei a casa com um ramo de flores;

As Rosas, acredito, mitigam as dores

e poderão alegrar nosso convívio…

A chama da relação enfraqueceu,

o silêncio é o que mais prevaleceu

entre estas paredes, dia após dia, sem alívio…

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Sexta

Santa Sexta com dia glorioso, caminhada em passadas medicinais com cenário de encher a alma de agradecimento e gentileza. Agradecimento por ainda ter pernas para caminhar, pulmão para respirar, coração batendo ainda que arrítmico, gentileza para gerar gentileza por onde as passadas me conduzem…

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Quaresma

Acabei de assistir a Orquestra e Coros da Gulbenkian no seu magnífico “Paixão Segundo São Mateus” de Bach. Na semana da Quaresma, o concerto acabou por arrastar-me, vil descrente mas melômano apaixonado por música antiga, para os tempos de criança nas poucas oportunidades que a vida me deu para estar presente e viver as delícias da quadra na milenar Sta. Maria de Salzedas, berço dos meus pais. Ainda soam e repercutem ao longo dos túneis da minha memória, a música da banda da aldeia e os foguetórios de Aleluia e do domingo de Páscoa, as doceiras com as gostosuras do melhor das tradições em seus tabuleiros, que incluíam amêndoas doces, as cavacas, o trigo amarelo, os biscoitos. As longas missas solenes na majestosa e imensa igreja do Convento, eram cantadas por alguns incríveis músicos-cantores locais e parte da banda e recordo a para nós velha senhora das antiquíssimas tulhas do Convento, do alto da sua ilustre figura, pilotando com maestria os complicados teclados, inúmeros pedais e registos manuais do órgão sem idade. Durante todo o tempo, homens do povo revezavam-se pedalando o pesado fole que fornecia o ar com energia suficiente para que as notas fossem geradas e fluíssem através dos tubos do velho instrumento…

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Quem gosta e sente a poesia, sabe que a poesia conta, no universo da literatura, com uma massa reduzida de leitores que a apreciem. Mas, quem gosta e sente a poesia, não deixa de criar e publicar cotidianamente em blogs e páginas sociais na internet, esperando que um ou outro poeta leia, goste e, suprema alegria, diga que gostou. A modernidade brindou-nos com essa modalidade de expor as estrofes que produzimos, sem nos lançarmos à aventura pelos difíceis caminhos da publicação em livro. Aos que, como eu, adoram a poesia e se atrevem a, em repentes de alma, dar à luz textos poéticos de maior ou menor valor literário, recomendo a leitura de “Os fios Da Escrita”, ensaios literários do Poeta e Escritor Adalberto de Queiroz, membro da Academia Goiana de Letras. Seguindo os fios, percorreremos cerca de 300 páginas de excelentes artigos sobre poetas e escritores brasileiros e estrangeiros, sonantes nomes de celebridades que bem conhecemos, outros eventualmente mal ou menos conhecidos, o que faz da publicação de Adalberto Queiroz, na minha opinião, para além da indubitável excelência literária, uma peça de valor didático. Parabéns, Mestre! E não me leve a mal haver optado pelo Kindle…

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Melhorar

Sábado, vigésimo dia de um Março quente que escorre rapidamente pelo suor e pelas dores de uma “artrose brava”, segundo informação do ortopedista. Não sei de onde, escuto a voz inconfundível de Martinho da Vila numa antiga mas sempre atual gravação repetindo que sim, que “a vida vai melhorar”! Naquele tempo, mais de quarenta anos lá atrás eu acreditei que sim, que iria, porque não? Mas o momento, ou pelo menos o meu momento é pouco propício para conseguir agarrar de volta o otimismo que me escorregou da mão. Vamos vivendo o dia a dia entre paredes, com a falta de paciência puxando o mau humor, que chama a depressão que ronda perigosamente nas imediações. Procuro equilíbrio para prosseguir interrompidas leituras, procuro sem alma, a alma para fazer soar de novo os silenciosos instrumentos…

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Royalty show

Sou mesmo de outras eras e isso faz de mim um sujeito com alguns dispositivos engatilhados de acordo com a minha criação de outras eras. Traição, invariavelmente, dispara um desses dispositivos. Harry traiu sua família ao ceder à estúpida exposição da roupa encardida que deveria ter sido devidamente lavada em casa. Meghan Markle “should have known better” antes de aceitar casar com um membro da realeza, significando submeter-se aos tradicionais grilhões da monarquia, or else. A merda jogada no ventilador vai gerar no futuro mais um malcheiroso campeão de audiência da Netflix. Afinal, são eles os alquimistas que transformam merda em ouro…

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Setentaesete

Poderia eu afirmar-me pessoa de hábitos irrepreensivelmente saudáveis ao longo da minha vida? A minha resposta seria, digamos, dúbia, porque eu fui fumante pesadíssimo até aos meus 32 anos de idade e, até há uma porção de anos atrás eu era perfeitamente incapaz de recusar um whisky on the rocks ou um Gin tônico, ou que bebida fosse que contivesse álcool. Em minha defesa, eu diria que bebia muito bem, sem beber-me em demasia ao ponto de triste figura, que me orgulho nunca haver feito! Mas vangloriava-me, exagerado e fanfarrão, de tomar tanto whisky quanto Vinícius de Morais. Agora, quase abstêmio, não fossem as raras taças de vinho tinto acompanhando algum prato especial, não tenho certeza de que me arrependa de exageros d´outros tempos, mas magoo-me, sim, toda a vez que me surpreendo com um forte sentimento de culpa por adoecer, como se adoecer ou não dependesse da minha vontade. Ainda penso que ficar “estupidamente doente”, leva-me a perder o meu antigo prestígio de sujeito de alta resistência e à prova de tudo. Eis-me completando no dia de hoje 77 anos de idade, aceitando que a tal resistência de que me orgulhava vai num diminuendo. Fato: Sou um idoso com as fragilidades de um idoso – Fim-de-papo.

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