Sem querer, mas sempre querendo, bato mais uma vez no estafado clichê: “Todos os dias são Dia da Mulher”. É uma verdade, se falo da supermulher com quem há tantos anos dividido a vida e trato alternadamente como mãe, namorada, amante, cúmplice, múltiplos eteceteras… Ao ler este texto, adivinho-a reagindo: “Mãe, uma pinóia! Só sou mãe das minhas filhas!”
Sabine Hossenfelder é também uma mulher, mãe de duas outras mulheres, e dedica toda a sua vida à ciência e à música. Mas é na ciência, particularmente por via da contundência geralmente muito bem alicerçada nos seus frequentes comentários em torno da paranoia catastrofista da “mudança climática”, que carrega toda a minha admiração! Este ano, vai para Herrin Hossenfelder, PhD, minha congratulação pelo Dia das Mulheres!
Estamos em Março, mês especial pelo meu nascimento e, com 24 anos de diferença, o da minha tia Miquinhas, irmã mais velha da minha mãe, que, portanto, completa 104! No último dia 29, festejou 100 anos a Dona Nora, decana dos Rónai. O extraordinário é que as duas atingem essas idades com invejável saúde mental. Minha mãe teria 102, não a houvesse levado o câncer. Porque dona Nora é judia, acabo por associar ideias e recordo a minha infância naqueles anos conturbados do pós-guerra. Ela, a minha mãe, jovem senhora do final dos anos quarenta, usava as roupas da época, o cabelo arranjado em permanente e pintava os lábios de vermelho vivo, como gostava. Aprendi mais tarde que ela era uma mulher de requinte, apesar das condições econômicas do tempo não ajudarem. Mesmo assim, quanto íamos para o Palácio de Cristal – o verdadeiro- meu pai alugava carrinho de pedais para mim e triciclo para a mana, para nossa alegria! Meu pai era fotógrafo profissional e andava sempre com uma máquina e tirava muitas fotos, mas ele mostrava só algumas que revelava. Eu escutava que a guerra havia terminado, mas que continuava o racionamento de itens de alimentação e alguns produtos fotográficos, que o meu pai clonou para poder trabalhar. Meu pai usava chapéu, como todos os homens, mas também tinha adultos usando boina, como eu usava. Havia um colega do meu pai, que usava boina e ia a nossa casa conversar. Chamava-se Sr. Nascimento e tinha muita barba loura. Meu pai disse que ele também era repórter e eu escutei eles falarem em julgamentos de homens que mataram mais quantidade de judeus do que havia de habitantes na nossa terra. Parece que não gostavam dos judeus, porque eles tinham outra religião. Mas eu tinha ouvido meu avô dizer que na quelha de Salzedas tinha muito judeu e que ninguém podia garantir se seria ou não da família deles. Então, perguntava, se toda a gente em Salzedas fosse de família de judeus, todos teriam sido mortos também?…
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Retorno aos tempos presentes, vejo-me com 80 anos vividos e fazendo a mesma pergunta: Se a população de Salzedas descendesse, como o meu avô dizia que poderia, dos judeus-cristãos-novos que em outros progroms, perseguições e expulsões ali, na historicamente chamada “Judiaria” se refugiaram, eis que, não obstante o que se esperava da modernidade e da decência, esse povo se encontraria agora, como sempre se encontrou aliás, na mira diabólica não só dos degoladores do extremismo muçulmano, mas também dessa turba seguidora dos nazis que sonham, como sonhava o Adolfo, com a “solução final”, a qual seria, o extermínio dos judeus e seus consanguíneos…
Não faz muito tempo que aqui falei nas surpresas que podem ser encontradas quando, mudando de residência após muitos anos no mesmo endereço, nos vimos obrigados a decidir o que fazer a esquecidos brinquedos de crianças de todas as idades, incluindo, é claro, de nós, adultos! Arrependo-me das críticas que em várias ocasiões eu fiz a pessoas de família que são, ou a meu ver considerei serem, acumuladoras crônicas, diante de tanta inutilidade que foi por nós próprios “colecionada” ocupando espaços úteis por tantos anos!
Entre as “inutilidades”, reencontramos esse casal de Trolls da mitologia norueguesa, genuínos, com certificado de origem! O par não foi trazido por mim da Noruega, mas foi comprado para mim por um colega, nos idos da década de 80. Foi um achado, porque eles, mesmo escondidos como estiveram, continuam lindos de tão feios e vão certamente de novo, enfeitar o nosso escritório e nos atraírem muita sorte…
Hoje à tarde assisti ao vivo desde Bergen, Noruega, mais uma performance da 9ª Sinfonia de Gustav Mahler, desta vez pela Bergen Philharmonic Orchestra, sob a regência de Sir Mark Elder. Sempre apaixonado pelas sinfonias de Mahler, tenho, habitualmente, predileção por Abbado ou Bernstein para regê-las. Contudo, em nada me dececionou o desempenho de Elder: Eloquência, serenidade e emoção! Especialmente durante os andamentos I – Andante Comodo em forma de sonata, extraordinariamente longo e IV – Adágio, muito triste e emocionante, com as ultimas barras em pianíssimo morrente, culminando em vários segundos de absoluto recolhimento em estrondoso silêncio!
Amanhã será concluida a metade do mês de fevereiro do corrente ano. E é natural que tal data seja especialmente por mim lembrada, porque minha primogênita estará completando cinquenta e quatro. Será? Faço as contas na calculadora do Iphone, para o caso de ter-me enganado: não há dúvida, é verdade! Eu tenho uma filha com mais de ½ século de vida! Contudo, tenho absurdamente presente cada um dos detalhes do desenrolar do dia em que ela nasceu! Como se tal tivesse ocorrido semana passada! Que maravilha é a nossa mente, enquanto funciona! É verdade que vez por outra esqueço, diante do atendente da farmácia, que quero comprar Cloridrato de metformina ou Succinato de Metoprolol, apesar de tão fáceis de memorizar! De vez em quando eu recito “Supercalifragilisticespiralidocious” e algumas estrofes dos Lusíadas, para testar-me, não vá que…
Surpreendo-me pleno de vontade de voltar e, se possível, restituir um pouco de dinâmica ao meu quase moribundo bloguinho. Afinal, esta despretensiosa (será?) folhinha de nada, tem alguns anos de existência. Viveu e sobreviveu alguns excelentes, assim como a outros lamentáveis momentos, relacionamentos blogueiros que transitaram de amizade e admiração, à contaminação pela perversidade da treta política, polarização, severas e irreconciliáveis divergências. Antes destas minhas “mukandas”, houve outras em outras plataformas, nos tempos áureos dos “bloggers”, precedidos pelos nostálgicos e pioneiros “BBS”, do saudoso permanente beber e sorver de conhecimento cibernético, na escuridão jurássica de quando não havia “Google”! As discussões desenrolavam-se, por exemplo, a propósito de uma última dica do B. Piropo no Internetc da Cora, de como mais facilmente instalar um periférico. Aquela Cora, “dos gatos”, porque eu (também) gostava e gosto de gatos e da Cora, sim senhor! Continuo “amigo” da Cora, mas, confesso, as coisas ficaram políticas demais, para meu desgosto. Longe vão os bons tempos dos encontros de amigos no Por-do-Sol no Arpoador, na Lagoa, na casa do Tom Taborda. E era a presença inesquecível da VanOr, da Moniquinha Langer, da Neria, da mui querida Jú (Jussara Razzé), esta de fortes convicções potíticas, e o Esmê. Tinha até política, claro, mesmo sendo eu avesso ao tema! Mas era um momento tããããão diferente…
Agora eu amanheci da mesma forma que amanheci há quatro dias: ensonado, na varanda, observando o progresso da obra em frente; O pessoal retornou ao batente, as máquinas estão em movimento – a araucária no meio do terreno e preservada por bastante tempo, não chegou, todavia, ao novo ano: Foi derrubada e cortada aos bocadinhos. Eu, felizmente, ainda não fui derrubado e já iniciei lembrando que após as festas chegarão as arestas, cortantes, ferinas: Imposto disto, imposto daquilo, licenciar o carro, renovar os seguros e outras coisas tais que bolem com as magras reservas. O certo é que, pelo menos para nós aqui, a vida continua, na sua implacável contagem regressiva, mas progredindo, não obstante, como se a finitude não existisse…
Uma vez mais e como sempre, a euforia toma conta dos bípedes de todas as condições, fogos multicoloridos e agora um pouco menos barulhentos riscam os céus, amálgama de sons e música, vivas e berrarias etílicas de boas-vindas ao novo período de 365 dias. Com maior ou menor ênfase, assim foi e continuará a ser. Esperanças que se renovam, promessas que não serão cumpridas de perder peso, de ser muito mais regrado, de ser uma melhor pessoa, de ver-se livre daquele vício, etcetera et al. No que me concerne, minha esperança reside tão somente em que eu próprio e a minha companheirinha permaneçamos vivos e com as capacidades preservadas e a promessa de que continuarei a ser eu próprio. De resto, a confirmação de que bebidas gasosas incluindo vinhos me deixam uma incômoda e embaraçosa flatulência…
Nunca fomos frequentes jogadores de nenhuma das muitas modalidades de loterias, à disposição com o intuito de atrair o dinheirinho do incauto esperançoso de que em algum feliz momento, alguns milhões desaguem milagrosamente na sua algibeira, modificando-lhe a triste vida. Mas, para além do que certamente lhe sai da carteira, não nego que a ténue possibilidade de sair o bolão, deixa de ser ténue para ser impossível, se não fizer uma tentativa. Então, neste último sábado de 2023, saímos caminhando dispostos a tentar a nossa sorte em duas míseras apostas. Sabemos que temos menos chance, do que tentar drenar a água do oceano para um buraquinho na areia. Bem, e daí? Nós jogamos e pronto!
Estamos no derradeiro dia útil do ano e concluo que não reajo bem se tento fazer uma retrospetiva dos últimos doze meses. Mas sei que o passado não existe mais a não ser nas memórias, boas ou ruins, e na frieza das contas e das delapidadas finanças. Encontro alguns pontos positivos, a começar pelo óbvio: Ainda estou vivo, malgrado mazelas várias que vou combatendo com custosas drogas. Devo, pois, declarar-me contente por viver, até porque só vivendo é que eu posso continuar a convencer-me a mim próprio de que sou imortal. No entanto, convenhamos, uma única decisão que vinha sendo arquitetada há tempos, virou nossa vida de pernas pro ar e carregou comigo até à beira da depressão. Ao ponto de, pasmem, deixar levar-me pela mão até uma “shrink”! 2023 fica assim nas páginas do meu diário, como o ano em que me rendi à psicanálise, se é que foi isso a que me submeti e me forçou a chorar como um imbecil. Aí foi fácil o diagnóstico: “Você está deprimido!”. Recaí logo em seguida, quando fiz um Pix no valor da consulta…