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Archive for Agosto, 2016

 

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“A Alma aqui não faz sombra no chão…” (Clarice Lispector sobre Brasília)

Eu também acho que aqui a minha alma não faz sombra, nem mesmo quando o sol penetra direto pela janela deste tubo alado, selado, lotado de outras almas sem sombra que voam para o mesmo destino. Meu destino é, porém e na verdade, um desatino, desatino, porque sinto-me aproado à recíproca da proa que desejaria de fato seguir. Isso faz de mim um fulano sem carácter que é incapaz de tomar, contra o tudo de alguns poucos todos, os rumos que lhe dariam relativa felicidade no restante do que resta.
Mas, pondero, se continuará sendo relativa a felicidade que espero nesse hipotético rumo inverso, preciso então relativizar as mais valias? Isso não parece fazer muito sentido, mas tudo em mim é assim – sem muito sentido.
A estridente voz na boca de ferro avisou do início da descida pro tal destino em desatino, quebrando minhas perigosas e estrambólicas lucubrações de sombria alma desprovida de sombra…

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Arquitetura

O brilhantísso, criativo e emocionante espetáculo de encerramento da Olimpíada ontem à noite no Maracanã, serviu para reafirmar o que vimos na abertura: A indiscutível genialidade e capacidade de todo esse povo que anualmente produz e monta a maior peça a céu aberto do Planeta, que são os desfiles das escolas de samba durante o carnaval! Em nenhum momento tive duvidas de que o show seria inesquecível!

 
Por outro lado, apavorantes e sangrentos atos de autêntica guerrilha urbana no decorrer das semanas que antecederam o início dos Jogos inundaram-me de extrema preocupação e de incredulidade quanto à segurança de tanta gente. Cheguei mesmo a escrever na minha folha do Face Book, que não aconselharia nenhum dos meus familiares e amigos a virem ao Rio de Janeiro para o evento. O aparato de segurança reunindo forças armadas e polícia aparentemente funcionou, malgrado alguns acontecimentos escabrosos e só vistos em países em guerra, como o intolerável ataque na Vila do João a uma unidade da Força Nacional. Receios de muitas mais coisas muito ruins foram ficando para trás e não há tanto, afinal, do que nos queixarmos em termos de segurança. “Só” têm que garantir esse mesmo nível de segurança ao cidadão depois de terminarem todos os eventos em curso.

 
Confesso haver sido um áspero crítico da derrubada do elevado da perimetral, por considerar essa derrubada tão negativa quanto a sua construção. A via, feinha, deselegante, tinha tudo a ver com uma área portuária feinha, deselegante. No entanto, era uma via importante e poderia seu visual ser muitíssimo melhorado, à semelhança do que tive oportunidade de admirar em Singapura, terra de superlativos, que apresenta incontáveis vias rápidas elevadas passando em locais altamente turísticos. Os elevados são cuidadosamente pintados, decorados, adornados com canteiros floridos, dentre outras formas de suavizar o aspecto frio e triste dessas coisas de betão e ferro.

 
Enfim, o elevado foi derrubado, substituído por tuneis que funcionam bem e toda a área portuária se transformou de forma radical, com resultado urbanístico excelente. Tenho até vontade de dizer que só está faltando algo como uma “Opera House” ou complexo de Teatros de arquitetura moderna, para que me sentisse ainda mais propenso a comparar todo o resultado com o que vi e vivi na admirável cidade de Singapura. Caminhei numa dessas tardes de feriado municipal da Praça XV até à Praça Mauá através das áreas da Marinha, cujas instalações estavam abertas para visitação de Navios de guerra, submarinos, dos magníficos Navios-Escola de Portugal (NRP Sagres) e do Brasil (Nve “Cisne Branco”) e até de uma réplica da Nau de Cabral. A multidão não permitiu fazer as fotos que gostaria, mas lá voltarei com mais calma para visitar os museus e clicar muito mais, contar muito mais…

 

 

 

 

 

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No aeroporto de Salvador

O que poderia ser “chocolate erótico”? Curiosidade pode ser mesmo coisa séria, provocar crises inesperadas, dores de barriga, gases. Após levar tudo isso em consideração, resolvi entrar na loja para ver-me livre desse pavoroso acesso de curiosite aguda. Acerquei-me da beleza baiana ao balcão e disparei: “misturaram viagra no chocolate, suponho?…”
“Não, claro que não, senhor!” O “senhor” contrariou-me um pouco mas, dito pela voz maviosa carregada de sotaque da belezura baiana, acabou em puro deleite. “Os chocolates”, explicou, “são modelados como pênis ou vaginas”. E, juntando ação às palavras, abriu duas caixas e expôs um horrendo falo e uma vagininha esculpidos em chocolate!! Achei-me, confesso, fervendo de vontade de saborear a vagininha. Pensei então que não iria pegar muito bem comer “aquilo” em público. Também, se o fizesse escondido poderia a minha consciência acusar-me de estar perpetrando uma facada no matrimônio. Desisti e sai de fininho da loja não antes de juntar meu sorriso ao sorriso marcadamente sacana da belezura baiana…

(Originalmente postado no Face Book) 

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A obra ainda em curso sobre a areia da praia do Forte atraiu-me e compeliu-me a uma parada para admirar o artista que ia exteriorizando e esculpindo o que lhe povoava a ideia naquele momento. E eu segui essa ideia e o “traço” de um verdadeiro cartunista em 3D tendo a instável areia como caderno e as pás como lápis! O Millôr teria gostado e aprovado e por certo que um par de páginas teria sido adicionado a um próximo romance por Jorge Amado, que teria amado e descrito a cena. O exagero da comumente exagerada postura de bundinha empinada de belíssimas mulheres expostas ao Sol esbanjando sex-appeal ou circulando pelas ruas cavalgando mecânicas montarias em pose de realce provocativo dos posteriores e dos peitos siliconados, estava ali retratado! Só que em caricaturas desnudas, feito leidigodivas motorizadas, exibicionistas em praia de nudismo! Adorei, fotografei, joguei dinheiro para garantir a comida do dia para o artista sem rosto e sem nome e sem mais espaço para caber tanto talento e habilidade!

 
Nesta minha viagem a Salvador, certamente que a única similaridade com que me deparei foi a de uma aproximação turbulenta, extraindo da memória as tantas que vivi, voando com muita frequência nos B727-200 da Transbrasil do Rio para Salvador, quando aqui morei por cerca de dois anos. Mas as similaridades ficaram nisso, porque dos idos tempos de há exatos trinta e três anos para o presente, até o nome do aeroporto mudou! Pela janela do avião pude constatar a terrível proliferação de enormes e feios favelões, onde antes se viam apenas dunas de areia branquinha ocupadas aqui e ali pela vegetação típica em pinceladas de beleza.

 
Não obstante as substanciais pioras sofridas pela ocupação desordenada sem qualquer tipo de plano ou disciplina urbanística estabelecida pela administração pública, Salvador continua sendo a urbe brasileira na qual não preciso morar para que ela permaneça morando no meu coração. É o paralelo, os aromas e sabores, a musica e ritmos, a morenice, irmã gêmea da morenice d´outras morenas praias igualmente outrora lusitanas de saudosas recordações!…

 

 

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