Vejo um pêndulo gigantesco que balança sobre a minha cabeça com absurda lentidão. O tempo atrasa, o dia colide com a retaguarda da noite, porque o atraso pendular é noturno e não sabe que o pêndulo do dia está no tempo do tempo. Acordo atrasado, é claro e a minha percepção do tempo está defasada do tempo real. Sentei na beirada da cama e deixei que meus olhos focassem a realidade real e dessem a ordem para desligar o meu complexo sistema noturno de realidades absurdas.
Depois, caiu a ficha e acabei por sentir-me fora do meu mundo. Este mundo que eu espreitei através das vidraças não poderia ser meu mundo. Tive vontade de voltar pra cama e desligar de vez o disjuntor principal, só para não ter de enfrentar a selva, a selva, a selva povoada de animais peçonhentos de duas pernas. Mas eu também sou animal de duas pernas e já terei por certo ao longo da minha vida tido meus momentos de animal peçonhento.
Esqueci a cama e entrei debaixo do chuveiro frio, que aqui é frio pra burro apesar do calor senegalês que tem feito. Olhei a estreita parede de azulejos e imaginei que ali houvesse um grande espelho refletindo meu corpo nu. Imaginei-me, é claro, atlético, jovem, bem dotado e irresistível, porque não? Mas depois cometi o erro de ficar na frente do espelho espelho meu, que riu da minha cara e desdenhou dos meus encolhidos atributos…
A propósito, amanhã é o décimo dia de Março e desta vez não esqueci de lembrar-me que, se amanhecer vivo, meus atributos completarão setenta e dois…
Difícil envelhecer, mais difícil que todas as fases da vida. Hoje comentei com uma adolescente reclamando das espinhas e da confusão mental ( ela aos 17) que ela está num tempo de se beneficiar da natureza. Somos reféns e cobaias da natureza eu disse a ela. Pior será quando começar a metamorfose que nos transformará em nada.
Parabéns pelo texto e pelo aniversário.
Grato por vir e pelas palavras amigas! Um beijo, Rosie!