Julgava conhecer “muito bem” Bocage pelo anedotário que lhe atribuíam e que circulava livre e solto pelos bancos escolares da minha infância e juventude. Manuel Maria Barbosa Du Bocage – o verdadeiro, eu conheci muito mais tarde, quando finalmente comecei a apreciar sua obra, algumas vezes vasculhada entre os tantos volumes existentes no surpreendente e belíssimo Real Gabinete Português de Leitura no Rio de Janeiro!
Na abertura do ano das comemorações de um quarto de milênio do seu nascimento, estive presente em alguns eventos aqui em Setúbal e na casa onde nasceu. Trata-se de um pequeno sobrado de espaços exíguos, em cujo piso térreo se encontram expostos alguns dos seus poemas, gravuras alusivas, o esboço do grande quadro original de Fernando dos Santos, de 1929, intitulado “Bocage e as Musas”, atualmente no acervo do Museu do Convento de Jesus, além de utensílios, livros e de uma recriação do local de trabalho, com a figura do poeta sentado à sua escrivaninha.
São sete as figuras femininas que representam as musas de Bocage, personificando a Inspiração, a Dor, a Ironia, a Boemia, o Lirismo, a Revolta e o Erotismo, que guiaram o poeta ao longo de toda a sua obra. Muito embora haja a tendência de procurar no Erotismo a identidade de Bocage, sua obra é muitíssimo mais que a poesia burlesca e satírica que tantos tanto apreciam…
A Camões
“Camões, grande Camões, quão semelhante
Acho teu fado ao meu, quando os cotejo!
Igual causa nos fez, perdendo o Tejo,
Arrostar co’o sacrílego gigante;
Como tu, junto ao Ganges sussurrante,
Da penúria cruel no horror me vejo;
Como tu, gostos vãos, que em vão desejo,
Também carpindo estou, saudoso amante.
Ludíbrio, como tu, da Sorte dura
Meu fim demando ao Céu, pela certeza
De que só terei paz na sepultura.
Modelo meu tu és, mas… oh, tristeza!…
Se te imito nos transes da Ventura,
Não te imito nos dons da Natureza.”
Barbosa Du Bocage




Republicou isso em Leveza & Esperançae comentado:
Bravo! Nelsinho, Nelson L Castro, que da terra de Camões nos descobre DU BOCAGE, onde “São sete as figuras femininas que representam as musas de Bocage, personificando a Inspiração, a Dor, a Ironia, a Boemia, o Lirismo, a Revolta e o Erotismo, que guiaram o poeta ao longo de toda a sua obra. Muito embora haja a tendência de procurar no Erotismo a identidade de Bocage, sua obra é muitíssimo mais que a poesia burlesca e satírica que tantos tanto apreciam…”. Vale reler, vale reblogar post.