O coração que porto pode ser complacente, generoso, até exultante nas coisas da amizade e do amor. No entanto, é mesmo um problemático coração, este que vou penosamente carregando comigo e que altera e descompassa suas batidas incontáveis vezes ao longo dos dias, hora com paixão, hora com compaixão. Carrego-o compulsoriamente, por ser ele afinal quem de fato me carrega pela vida. Desconheço se existem corações “comandáveis”. O meu, definitivamente, não o é de nenhuma forma. Corações são órgãos singulares, voluntariosos, com tendência a usarem a ameaça como forma de pressão. O que eu tenho e chamo de “meu”, certamente que meu não é. Eu é que sou dele, feito escravo de um senhor, senhor da vida ou da morte que sabe, com crueldade, levar terror à minha alma. E riu debochado, nas ocasiões em que, atemorizado, balbuciei palavras-tábua-de-sobrevivência tais como “isto não está acontecendo” ou “isto não é nada” ou ainda “Ah esquece! dorzinha à toa…”, para em seguida gargalhar escandalosamente quando, em que pesasse toda a minha tão acreditada descrença, me submeti finalmente para exclamar “Ai meu Deus…!”
Se eu fosse Caetano, diria sem delongas que “Coração é Foda”!…
É isso mesmo, Nelsinho : nós não os temos, eles é que nos têm a nós !…
Um beijo, Renata!