Caminhei calmamente pelo convés principal em direção à superestrutura retorcida e enegrecida pelo fogo. Parei e sentei sobre um dos cabeços de amarração e abri a pasta contendo questionários técnicos que teria de preencher, relativos a todos os equipamentos existentes nos compartimentos de máquinas. Eram muitos e eu pensei no longo e solitário trabalho que me esperava. Ainda sem muita convicção, subi os degraus de acesso ao castelo de popa, onde encontrei a caixa de ligação dos “arraiais” de luzes instaladas para iluminar precariamente a praça de máquinas e adjacências. Acionei o disjuntor e entrei pelos corredores queimados e deformados do alojamento, até encontrar uma das portas de acesso às máquinas.
Liguei a potente lanterna de mão, enquanto penetrava no recinto e experimentava a solidez do piso e varandas de aço, apesar de tudo haver sido vistoriado pelas equipes de segurança e de muitos reforços e estrados haverem sido adicionados. Iniciei a descida para os sombrios pisos inferiores da praça de máquinas, esforçando-me por fazer muito barulho, como se, com tal proceder, pudesse tranquilizar o meu espírito. Em alguns pontos, a falta de iluminação era um sério obstáculo, porque a luz da lanterna, de feixe dirigido, mantinha as sombras no em torno, confundindo-me na escolha do melhor itinerário de descida. Atingi finalmente a parte superior do motor principal e dirigi o foco para o tanque diário de combustível; Fora dali que descera a cachoeira de fogo e logo o inferno se espalhara rapidamente por todos os cantos, num cerco letal para as dezesseis pobres almas ali incineradas vivas…
Desci os degraus para o ultimo piso e esgueirei-me com dificuldade por entre os calcinados equipamentos, estruturas, tubulação e cabos elétricos. Definitivamente, a iluminação instalada estava muito longe de permitir um trabalho sério e seguro, sobretudo por uma pessoa só. Nos dias de hoje, com as exigências de segurança ditadas pelos modernos regulamentos SMS, seria inimaginável a decisão de um trabalho de levantamento de tal envergadura dentro de um navio devastado por um violento incêndio, ser levado a efeito por um só homem, sem qualquer acompanhamento ou apoio.
Decidi-me por iniciar a minha tarefa dentro da sala das puríficas, primeiro porque era um dos recintos mais bem iluminados, e em segundo porque os equipamentos ali instalados estavam praticamente incólumes. O fogo não penetrou ali, porque decorria uma inspeção de centrifugadores com a presença de três engenheiros, sendo um do armador, outro do estaleiro, finalmente o terceiro, um surveyor do LLoyd’s Register. A localização da porta do compartimento das puríficas impediu completamente a fuga do grupo, pois foi exatamente por ali, que o diesel em chamas fluiu. Cerraram, pois, a porta de aço, na esperança de que se tratasse de simples princípio de incêndio que logo seria debelado. Os três homens pereceram à míngua de oxigênio e seus corpos foram literalmente assados pela altíssima temperatura, que se podia imaginar observando, nos quadros elétricos, as botoeiras de comando e outros componentes de plástico e nylon derretidos sem que o fogo lhes tivesse chegado! Por um bom tempo, não consegui impedir-me de meditar sobre o sofrimento atroz daqueles infelizes nos momentos que antecederam a perda da consciência.
Finalmente, com um profundo suspiro, abri a pasta e dela retirei os questionários relativos aos sistemas de centrifugação de diesel, óleo pesado e lubrificantes, metendo definitivamente a cara no serviço. Passaram-se duas horas desde que desci à posição em que estava e o trabalho fluía com progresso aceitável. Por essa altura, meu espírito estava totalmente envolvido pela atividade, o sombrio local não mais me afetava e o destino trágico dos que ali pereceram nem de leve me tocava. Entretanto, alguém foi enviado para me dar suporte e ajuda, a julgar pelos passos que escutei nos “walkways” superiores do espaço de máquinas.
De joelhos ou estirado nos estrados, examinava em detalhe o estado em que se encontravam os componentes dos equipamentos e depois sentava e tomava notas para os relatórios que ajudariam a decidir o que iria ser recuperado e o que tomaria simplesmente o caminho da sucata. Longos minutos se escoaram e a ajuda que achei estar a caminho não havia meio de chegar! Pousei a prancheta e atravessei a porta. Posicionei-me junto do Motor Principal e olhei para cima, tentando divisar alguma lanterna que me permitisse localizar quem estava descendo, que poderia muito bem estar confuso para achar os caminhos e escadas. “Oi!”, Berrei; “Quem está aí em cima? Sabe como descer? Precisa de ajuda?”. Nenhuma resposta. Ruídos, só mesmo as leves batidas do casco contra os postes de acostamento e amarração tipo duque d’alba.
Voltei ao trabalho com um encolher de ombros, mas alguma coisa havia mudado em mim. A minha atenção e concentração na tarefa não era mais a mesma e sentia uma horrível sensação de desconforto que me impedia de prosseguir. Peguei a prancheta e a lapiseira, para voltar imediatamente a pousá-las e a atravessar a porta, porque os passos voltaram a fazer-se ouvir, acompanhados de rangidos próprios de alguém que caminha sobre estrados de aço mal suportados! “Quem está aí em cima?”, bradei. Esperei alguns minutos, voltei às puríficas e, antes que pensasse de novo no serviço, prestei atenção aos passos que desta vez se ouviam pelos corredores do alojamento. Eram espaçados, iam e vinham como se alguém estivesse procurando uma saída.
Sem fôlego, com o coração saindo pela boca, canela da perna direita esfolada, um ferimento na mão esquerda e todo sujo de foligem e óleo, foi como me encontrei a mim próprio no convés principal, após a tão alucinada e desesperada procura pela luz do dia. Entrei, sim, em pânico a tal ponto que não logro sequer lembrar de nenhum detalhe da minha frenética subida através das agora aterradoras sombras do calcinado navio.
Quando recuperei o sangue frio, fui até à borda e desci pela escada improvisada, unica forma de embarcar e desembarcar, já que o navio estava sem escadas de portaló para acesso. O guarda, postado nas imediações e encarregado de controlar quem subia, confirmou que ninguém embarcou ou desembarcou durante o tempo em que eu estive a bordo…
Qualquer semelhança com fatos acontecidos, não é mera coincidência.
Quem era? Quem não era? Passos no vazio do medo?
Benvinda, Guidinha! É uma honra!
O conto deixa o “mistério”. Eu, na minha “frieza técnica”, acabei profundamente impactado pelo ambiente emocionalmente perturbador de sombras e tragédia. No entanto, porque estava bem acordado, nunca poderei atribuir a alucinações hipnagógicas ou algo do gênero, tudo o que me perturbou. Prefiro convencer-me que havia invasor a bordo, fato perfeitamente possivel apesar da afirmação do guarda.