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Archive for Junho, 2012

Mantenha-se em funcionamento básico, uma frota de jurássicos 767 a muitos anos de distância das recentes aeronaves cheias dos mimos próprios da modernidade; Sirva-se ao Bulk Cargo que é a massa de passageiros da classe econômica, uma aviltrante ração de sobrevivência em duas opções a saber: “Chicken or Pasta?”; Embarquem-se no sucatão meia dúzia de aerovóvós isentas de paciência mas plenas de estúpida arrogância, para perguntarem sobre a preferência do menu e te acordarem com o maior sem cerimônia se não houver o cuidado de afivelar o cinto por sobre a mantinha. Sirva-se à plebe um dejejum ridículo e intragável, sem uma fruta (ou salada de), acompanhada de um café miserável e sem qualquer classificação. Agora, vendam-se por muito bom prêço, passagens nessa pandeireta voadora aos brasileiros. Pronto! Um bom negócio está garantido, pelo menos até que uma coisa daquelas dê um graaaande problema.

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O especialista leu com atenção todos os resultados e laudos dos exames e testes a que me submeti e concluiu que – ipso facto- o tal de labirinto está meio confuso da vida. No entanto, produziu mais uma requisição para que observem a minha cabeça por dentro, penso que pra verificar se contém coliformes neurais ou serragem, sabe-se lá… Mais incisiva que uma labirintopatia metida a besta, é a minha reação nadica de nada propensa a continuar a deixar-me expôr a todo o tipo de Raios X, Y, Z e, muito principalmente, aos raios que os parta. Estou mesmo com vontade de desistir e esperar, sem radiações e em paz, que a natureza faça a sua parte.

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Li numa revista de consultório que Lindsay Lohan, que chegou a ser uma promessa mas, miseravelmente, perdeu-se nas corredeiras incontroláveis das baladas, álcool e drogas, foi contratada e está já vivendo o papel de Liz Taylor em “Liz & Dick” para a TV. A escolha parece conflitante com a sua precária conduta pessoal. Quem sabe, no entanto, Lohan surpreende e de quebra ainda ganha algum self respect para mudar os rumos da sua vida e ter a chance de não sucumbir a alguma overdose?

Eu tinha os meus doze anos quando assisti “Giant”, que aqui no Brasil passou com o título, para mim estranho, “Assim Caminha a Humanidade”. Nele, ou a partir dele, fiz-me admirador de Liz Taylor, cujo percurso artístico segui ao longo da vida. Como muitos outros atores, Liz teve altos e baixos, alguns até bastante baixos também em razão do uso de alcool e abuso de drogas prescritas. Eu achava o Richard Burton a mais nefasta das drogas que ela usava! Não obstante, considero que “Cat on a hot tin roof”, “Who’s afraid of Virginia Wolf”, “Doctor Faustus” dentre outros grandes trabalhos, justificam toda a minha admiração e respeito por ela.

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VanOr

A Vanessa Ornella, além de ser uma amiga das mais queridas que tenho nesta vida, é Médica Veterinária e uma soberba pena de ouro impregnada do mais puro e desconcertante talento! Seus textos costumam ser plenos de espaço para boas risadas, mesmo que o assunto seja de alta seriedade ou até com carga dramática. Ela tem o dom único por mim tão invejado de decorar seus escritos aqui e ali com palavraços que perdem sua vulgaridade e se transformam em saudáveis gargalhadas! Seu grau de potencialidade para um livro de muito boa venda é DEZ! A Cora Rónai um dia referiu-se a ela como “sua escritora preferida” mas ela é minha também, viu Cora? A seguir, um copy/paste de um texto dolorido que ela gostaria de não haver escrito, mas que a revela em sua plenitude:

 

Eu nunca escondi que sou uma chorona incansável. Choro quando fico presa no trânsito, quando estou no quilômetro final de  uma meia maratona, quando reencontro um amigo querido que há muito não vejo ou quando testemunho qualquer gesto banal e anônimo de carinho ou amor explícito; choro lendo a primeira página do jornal, choro de preguiça, de cansaço, de alegria, enfim, eu choro tanto, mas tanto-tanto, que meu oftalmologista já prescreveu, contra as minhas recidivantes mazelas de olho seco, que eu chorasse “um pouquinho menos, Vanessa, porque chorar demais reduz a qualidade da lágrima”. E a minha lágrima, como vocês devem imaginar, jamais levaria um ISO 9000.

Por capricho do destino ou talvez apenas para hipertrofiar minha musculatura lacrimal, descobri na semana passada que a Princesa Radija, minha Pastora Islandesa de 10 anos, tem linfoma. Há umas duas semanas, minha mãe notou uns caroços no pescoço do cão, então pedi-lhe que a trouxesse pro Rio para verificação médica. Na chegada à civilização, na primeira palpadinha que dei naquele pescoço peludão, percebi os caroços – e o calvário que teríamos pela frente.

O linfoma é um câncer incurável no cão, mas seu controle quimioterápico consegue proporcionar aumento de sobrevida com qualidade de vida por “algum tempo”. “Quanto tempo?”, sempre quiseram saber todos os proprietários de cães que já atendi com essa doença. “Não há como dizer. A literatura diz que de seis a doze meses, mas é impossível saber. Cada caso é um caso.” Geralmente, depois dessa má notícia, os proprietários choram. Eu permaneço em respeitoso silêncio até que eles absorvam o impacto dessa bomba atômica, e então digo: “O importante é que nós podemos dar ao seu cão a chance de permanecer com qualidade de vida por muito mais tempo do que se ele não fosse tratado. E quando a gente ama uma criatura, poder tê-la feliz ao nosso lado por mais dois meses,  dez meses, quiçá dois anos!… é muita coisa.” Nesses momentos, eu sempre penso nas pessoas amadas que já se foram e por quem eu daria 90% do meu fígado funcional para poder tê-las ao meu lado por uma mísera hora  que fosse. Apesar da chorona incorrigível que sou, e mesmo com todos esses pensamentos tristonhos na mente, eu simplesmente não choro porque este não é o momento de chorar: é um momento para alentar e orientar. E é exatamente o que eu faço. Ou o que eu costumo fazer.

Com a Radija, no entanto, eu falhei nisso, e falhei feio. Eu só me perdoo porque, afinal, ela não é uma paciente:ela é o meu cachorro. Ela morou em Santa Teresa comigo quando era filhote, dividimos iogurtes e cama, ela customizou meus móveis e alguns dos meus sapatos e teve o didatismo de me ensinar, em primeiríssima mão, que, apesar de todo seu charme blasé, ela não é exatamente o modelo de cachorro que consegue conviver pacificamente com entregadores, jabutis, micos, gambás, gatos, ouriços e bichos que corram menos do que ela em geral. Foi por todos esses motivos de raiz afetiva que eu precisei pedir ajuda aos meus colegas-amigos para: 1) cuidar da Radija; 2) dar a má notícia aos meus pais.

Ainda bem que eu tenho amigos. A um deles, o Rômulo Braga, o melhor radiologista veterinário do mundo, com quem fiz alguns dos exames de imagem para saber a extensão do comprometimento tumoral, eu disse: ”Quer saber? Ainda bem que eu sou veterinária numa hora dessas.” Eu estava blefando, claro. Ele percebeu e, delicadamente, discordou. Disse que preferia não ser veterinário numa hora dessas, porque conhecer bem o desfecho mais provável de algumas doenças também é muito triste. Ainda me fazendo de fortona, argumentei que, se eu não fosse veterinária, dificilmente teria o amparo carinhoso e espontâneo de tantos veterinários picudos como os que têm me ajudado a cuidar da Radija, como ele próprio, os oncologistas Glauco Mello e Simone Cunha e a nutricionista Paloma. E o Rômulo, que é uma criatura celestial e elevada, sorriu e disse: “Teria, sim.”

Nesse momento, ele me pediu licença e afastou-se para abraçar e beijar uma senhora que acabara de sair soluçando de um consultório da OncoPet. Ouvi-o proferir umas frases meio zen-budistas sobre a vida e a morte e, quando retornou, perguntei-lhe: “Cliente sua, Rômulo?”. “Não. Nunca tinha visto, mas ela precisava dum abraço, né?”.

Ontem à noite, antes de dormir, abracei a Radija no chão da sala, onde ela costuma ficar estirada para escapar do calor. Ficamos ali deitadas em silêncio por algum tempo, de frente uma pra outra, meus dedos afundados em seus pelos macios e sua respiração úmida e morna em meu nariz. Senti meu coração se encharcar de um amor terno e calmo, estável e concreto, como o amor quase nunca é. Apertei sua pata enorme numa das mãos, como quem pega na mão da pessoa amada e, olho no olho, testa com testa, disse-lhe: “Eu jamais permitirei que você sofra.”

Sei que eu choro por qualquer besteira, mas existe uma grande diferença entre o choro à toa e o choro por justa causa. No choro justificado, não são apenas lágrimas pobres e sem qualidade viscosa que se derramam pelo mundo, e sim grossas gotas de tristeza sentida, de onde se pode destilar a própria alma de uma pessoa.

A tristeza maior é saber que o tempo não para – e o cronômetro já foi acionado. Mesmo com tanto verão e carnaval, com tanta beleza e tanta poesia, há momentos em que a gente não consegue deixar de perceber que vida é uma guerra cruel da qual ninguém escapa incólume. (preciso consultar meu oftalmologista)

 

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Vertigo

 

“Diga o nome de 4 flores”! Em vertiginosa espiral, como se estivesse no cockpit de um avião de acrobacia, balbuciei: “Rosa….ah!….Rosa….não sei mais!” Vieram mais perguntas com respostas inseguras e enjoadas. Depois vieram os vômitos, secos, dolorosos…

A sessão de testes terminou, mas era eu quem estava terminado. Quando finalmente pude com mais segurança me manter em pé com um mínimo de equilíbrio, olhei a operadora nos olhos e disse-lhe: “Se a senhora fosse mais velha, eu lhe perguntaria se foi treinada na KGB”! Labirintitis, vertigo ou que quer que lhe chamem, é uma das mazelas que a idade parece ter me aportado.

 

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Pesadêlo

…e em caminho inóspito e cruel

me embrenho arisco e vigilante

de olhar desconfiado e perscrutante

do negrume da noite sem quartel…

no vergastar da mata que a pele magoa

na secura da boca, monstruosa tensão

no restolhar dos passos que a noite ecoa

no medo de sentir medo que oprime o coração…

Então,no meio da noite desperto em suor lavado

de respiração pesada e olhar acuado, assustado

ao pesadêlo ainda amarrado com pavôr…

Depois veio a insônia, infame tortura,

recordações dolorosas de uma vida dura

até que o sono, tardio,venceu, já ao alvôr…

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Desilusão

Também eu, afinal, sinto saudade do futuro, quem diria!…

Minh’alma clama e reclama, que não sou mais o que terei sido!

Bem que volvo na trilha do tempo à procura do que eu poderia

ter sido de tão especial para que esta alma me una à poesia…

Mas oh desilusão! O Eu de quem minh’alma fala é já falecido.

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