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Estamos em Março, mês especial pelo meu nascimento e, com 24 anos de diferença, o da minha tia Miquinhas, irmã mais velha da minha mãe, que, portanto, completa 104! No último dia 29, festejou 100 anos a Dona Nora, decana dos Rónai. O extraordinário é que as duas atingem essas idades com invejável saúde mental. Minha mãe teria 102, não a houvesse levado o câncer. Porque dona Nora é judia, acabo por associar ideias e recordo a minha infância naqueles anos conturbados do pós-guerra. Ela, a minha mãe, jovem senhora do final dos anos quarenta, usava as roupas da época, o cabelo arranjado em permanente e pintava os lábios de vermelho vivo, como gostava. Aprendi mais tarde que ela era uma mulher de requinte, apesar das condições econômicas do tempo não ajudarem. Mesmo assim, quanto íamos para o Palácio de Cristal – o verdadeiro- meu pai alugava carrinho de pedais para mim e triciclo para a mana, para nossa alegria! Meu pai era fotógrafo profissional e andava sempre com uma máquina e tirava muitas fotos, mas ele mostrava só algumas que revelava. Eu escutava que a guerra havia terminado, mas que continuava o racionamento de itens de alimentação e alguns produtos fotográficos, que o meu pai clonou para poder trabalhar. Meu pai usava chapéu, como todos os homens, mas também tinha adultos usando boina, como eu usava. Havia um colega do meu pai, que usava boina e ia a nossa casa conversar. Chamava-se Sr. Nascimento e tinha muita barba loura. Meu pai disse que ele também era repórter e eu escutei eles falarem em julgamentos de homens que mataram mais quantidade de judeus do que havia de habitantes na nossa terra. Parece que não gostavam dos judeus, porque eles tinham outra religião. Mas eu tinha ouvido meu avô dizer que na quelha de Salzedas tinha muito judeu e que ninguém podia garantir se seria ou não da família deles. Então, perguntava, se toda a gente em Salzedas fosse de família de judeus, todos teriam sido mortos também?…

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Retorno aos tempos presentes, vejo-me com 80 anos vividos e fazendo a mesma pergunta: Se a população de Salzedas descendesse, como o meu avô dizia que poderia, dos judeus-cristãos-novos que em outros progroms, perseguições e expulsões ali, na historicamente chamada “Judiaria” se refugiaram, eis que, não obstante o que se esperava da modernidade e da decência, esse povo se encontraria agora, como sempre se encontrou aliás, na mira diabólica não só dos degoladores do extremismo muçulmano, mas também dessa turba  seguidora dos nazis que sonham, como sonhava o Adolfo, com a “solução final”, a qual seria, o extermínio dos judeus e seus consanguíneos…

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